Zagueiros não costumam ser especialistas na saída de bola. Ao serem apertados, preferem muitas vezes disparar um chutão ao invés de tentar sair tocando. Por ir contra essa máxima, João Filipe Rabelo da Costa e Silva ganhou um apelido curioso enquanto defendeu o São Paulo, time que foi dono de seus direitos durante cinco anos (2011 a 2016): "Blackenbauer", em homenagem ao lendário líbero alemão Franz Beckenbauer, referência atemporal entre defensores que sabiam sair jogando.
Além do toque de bola, João Filipe descobriu recentemente ter outra habilidade: desenhar roupas e bonés. Tanto é que, mesmo ainda em ação aos 28 anos, defendendo as cores do Avaí, ele abriu sua própria grife, inspirada na temática do hip hop, e hoje fatura vendendo suas criações para os amigos boleiros e público em geral.
"Já tinha o sonho desde criança de ter um negócio de roupas. Sempre gostei de hip hop e observei os rappers lançando suas próprias grifes. Para não fazer propaganda pra ninguém, resolvi seguir essa ideia. Falei com minha esposa, meu compadre e eles também gostaram. Agora, estou brocando (risos)", diverte-se o defensor.
"Minha grife se chama Young Troop, e a marca é um trevo de quatro folhas, chama bastante a atenção e a 'boleirada' curte (risos). Dizem que traz sorte também, né? Mais uma vantagem (risos)", diverte-se.
O "Blackenbauer" nunca havia trabalhado com vendas antes, mas resolveu se arriscar. Seu trabalho é bolar as estampas das roupas. Em seguida, suas ideias são transmitidas a um parceiro que faz os desenhos de maneira profissional. Se o resultado agradar o zagueiro, as roupas vão para a fabricação. Aí, é só encontrar os clientes certos.
"Começamos fazendo bonés, depois camisetas, bermudas e calças. Compramos as máquinas e arrumamos uma costureira que era minha vizinha no Rio de Janeiro, que trabalhava em uma fábrica e entende tudo do ramo. Ela faz tudo na casa dela e eu mando estampar numa gráfica, tudo lá no Rio. Fica show!", garante o beque.

'O trevo de quatro folhas dá sorte', garante
Antenado nas redes sociais, João Filipe também abriu uma loja virtual para vender suas roupas. Além disso, ele aproveita e faz a boa e velha propaganda "boca a boca" com os "parças" do mundo da bola para expandar seu negócio.
"Hoje, vendemos a maior parte pela internet, usando bastante o Facebook e o Instagram pra atrair clientes. Já tive até convite pra abrir loja em shopping, mas com a crise no Brasil é melhor esperar um pouco. Está dando certo no virtual, depois a gente tenta o próximo passo", planeja.
"O pessoal nos clubes também dá a maior força, compram bonés, camisas, tudo. A maioria dos jogadores de futebol gosta de roupas assim, diferentes, que chamam a atenção. A galera compra e sempre me apoia, é muito legal. Eu também dou umas de presente pros amigos famosos, aí eles fazem uma propaganda pra mim (risos)", sorri.
O apelido e o sucesso no Avaí
Natural do Rio de Janeiro, João Filipe começou a carreira no Sendas (atualmente Audax Rio), aos 15 anos. Profissionalizou-se pelo Mesquita e surgiu para o cenário nacional no Figueirense, time pelo qual foi um dos destaques da Série B de 2010, na qual o clube catarinense foi vice-campeão, atrás só do Coritiba, e conseguiu o acesso à elite.

Apelido de 'Blackenbauer' surgiu com Adílson
No ano seguinte, foi negociado com o Botafogo. Sem espaço em General Severiano, porém, acabou emprestado em agosto ao São Paulo. No Morumbi, caiu no gosto do técnico Adílson Batista e virou titular absoluto de sua defesa, ganhando o apelido que lhe acompanha até hoje.
"O apelido de 'Blackenbauer surgiu na época do Adílson, um cara importante demais pra minha carreira, que me ajudou muito. Ele me disse que eu saía bem com a bola, por isso ganhei o apelido. Eu gosto, acho divertido. Procurei meu pai depois e ele contou várias histórias do Beckenbauer. Sempre me falava: 'Filho, esse cara foi um gênio, um craque de bola, um dos maiores da história'", conta.
Pelas boas atuações iniciais com a camisa tricolor, o defensor acabou contratado por cinco anos em definitivo pelo São Paulo. Em 2012, conquistou a Copa Sul-Americana com a equipe, seu único título pelo clube paulista - o técnico à época era Ney Franco.
No ano seguinte, porém, após a eliminação na Libertadores, acabou emprestado ao Náutico. Teve boas atuações, e foi reintegrado na sequência pelo São Paulo. Contudo, acabou sendo emprestado para o Avaí (2014), e depois para o Fluminense (2015).

João Filipe conduz a bola pelo Avaí
Ao fim de seu vínculo com a equipe do Morumbi, foi contratado em definitivo pelo Avaí, e hoje é um dos pilares da equipe, 4ª colocada na Série B e que briga forte pelo acesso. Pela boa saída de bola, vem jogando como volante no esquema do técnico Claudinei Oliveira.
Com o "Blackenbauer" em campo, aliás, é difícil o "Leão" ser derrotado: em seus 10 jogos como titular, foram oito vitórias e só uma derrota. Além disso, os catarinenses levaram só sete gols (e marcaram 18) nas partidas em que o zagueiro/volante começou jogando na Segundona.
"O time está num excelente momento. Conseguimos uma arrancada muito boa, e estamos brigando forte pra subir. O objetivo é ficar entre os quatro primeiros, e o acesso é mais importante que pensar em título neste momento. Temos que ir passo a passo. Em certo momento, o acesso estava distante, mas hoje não está longe, é algo real", finaliza.