Comecemos pelo golaço, que teve à época repercussão mundial. O brasileiro estava atuando pelo Sporting, de Portugal, quando seu time cruzou com os Citizens e seu elenco recheado de estrelas nas oitavas de final da Liga Europa 2011/12. No jogo de ida, a equipe de Lisboa ganhou pelo placar mínimo, graças a um lance inesperado.
"Até hoje não acredito muito que fiz um gol de calcanhar no Manchester City, nos caras que eu só tinha visto pelo videogame (risos). Era Nasri, Balotelli, Agüero, Dzeko, só fera! Tive essa honra e ganhamos de 1 a 0 deles no primeiro jogo, e ainda com um golaço meu, que sou zagueiro. Até lembrei dos tempos de atacante na base", contou o defensor, ao ESPN.com.br.
Segundo Xandão, o tento é até hoje lembrado pelos torcedores alviverdes.
"Era minha primeira temporada no Sporting, e já fiz um gol em um time tão grande, abriu as portas para mim. Fui idolatrado até por crianças, e sempre que volto a Portugal eles lembram de mim por isso", comemora o o atleta, de 1,93m.
No jogo seguinte, em Manchester, os lusos abriram 2 a 0 e viram o City virar por 3 a 2, mas ainda assim saíram da Inglaterra classificados, para festa dos "Leões". Em seguida, o Sporting ainda eliminou o Metalist, da Ucrânia, antes de cair para o Athletic Bilbao nas semi.
Sua boa partida contra os Citizens, porém, rendeu a Xandão um convite para jogar no futebol italiano: A Lazio fez uma proposta oficial depois disso, mas não deu certo, infelizmente", relatou.
De centroavante a zagueirão

Antes de brilhar na Liga Europa, porém, o brasileiro passou apuros em seus tempos de categoria de base, quando teve que trocar de posição "à força" e por muito pouco não desistiu de tudo para se dedicar aos estudos de engenharia mecânica.
Xandão começou sua trajetória no futebol aos 7 anos, em Araçatuba-SP, sua cidade natal. Apaixonado por futebol desde sempre, era levado por seu pai de bicicleta para os treinos. Com Ronaldo "Fenômeno" de ídolo, atuava como centroavante e, até os 13 anos, era um artilheiro implacável nos campeonatos da região.
"Então um dia chegou um treinador que chama Fernandinho, hoje trabalha no Araxá-MG. Ele me chamou para ter uma conversa que mudou tudo: 'Xande, você tem muito potencial, é artilheiro, mas eu, com meu olhar técnico e conhecimento, vejo mais futuro mais como zagueiro, pois você é alto e forte'", lembra.
"Naquele momento, meu mundo caiu. Ele estava tirando meu sonho de criança de ser um goleador. Fui para casa e até chorei. No começo não quis mudar, mas nas peneiras ia como atacante e não passava. Até que teve um jogo que faltou um zagueiro e eu fui. Arrebentei, joguei muito e até fiz gol de cabeça. Foi um divisor de águas em tudo", recorda.
Após aceitar a vida de zagueiro, Xandão então resolveu partir para testes em grandes clubes. O primeiro foi no Grêmio, que o aprovou após testes. No entanto, a saudade dos pais e a falta de dinheiro para pagar a estadia em Porto Alegre, já que não havia vaga no alojamento tricolor, impediram que o paulista ficasse no Rio Grande do Sul.
Em seguida, soube de uma avaliação no São Paulo. Ficou um ano se preparando forte, treinando e aprimorando fundamentos. Passou 30 dias no CT de Cotia sendo testado.
"Um dia, fui chamado por um diretor. Era meu sonho jogar no São Paulo, porque era meu time de infância. Ele disse que eu tinha sido aprovado, e meu coração disparou, fiquei muito feliz. Só que, no dia seguinte, o mesmo cara me chamou e disse que era um equívoco, que eu não tinha passado... Fui embora sem entender e tive minha primeira grande decepção no futebol aos 16 anos", conta.

Só que ele não desistiu. Semanas depois, o Corinthians realizou uma "peneira" em Araçatuba, o o defensor participou. Foi aprovado e agradou. Contudo, mais uma vez recebeu a notícia desagradável.
"O técnico Zé Augusto me chamou e disse: 'Alexandre, você se tornará profissional, tenho certeza disso. Mas aqui não podemos ficar com você, porque temos muitos na sua posição", narrou.
Aquilo foi demais para o garoto, que resolveu desistir da bola. Para arrumar emprego, matriculou-se em um curso de mecânica de automóveis, e assim deu sequência à vida. Mas seu pai, aquele mesmo que o levava de bicicleta para os treinos, não estava disposto a desistir de ver o filho realizar seu grande sonho.
Convencido pelo patriarca, Xandão resolveu fazer mais um teste, mas prometeu que aquele seria o último. Após três semanas treinando no Guarani, foi aprovado, e finalmente ganhou sua primeira oportunidade no futebol profissional.
Tuberculose por engano
O zagueiro defendeu o Guarani entre 2005 a 2008. No meio dessa trajetória, foi emprestado ao Atlético-PR para disputar torneios de base, mas se destacou de fato em Campinas, conquistando acessos no Campeonato Paulista e na Série C do Brasileiro.
Acabou negociado com o Desportivo Brasil, clube-empresa ao qual ficou vinculado até 2013. Neste meio tempo, teve a oportunidade de jogar nos gigantes São Paulo (2010 a 2012) e Fluminense (2009), além do Grêmio Barueri. Destas passagens, guarda com carinho especial a pelo time do Morumbi, que sempre foi sua equipe de coração.
"Jogar no São Paulo foi muito marcante na minha história, porque posso contar para meus filhos que não fui aprovado quando era moleque, mas voltei ao time já como profissional e fui bem, realizei um sonho. Deus me honrou", comemora.
Depois de vestir a camisa do clube paulistano, Xandão foi para o Sporting, equipe na qual ganhou destaque mundial com o gol de calcanhar em cima do Manchester City, além de boas atuações no Português. Tanto é que, em fevereiro de 2013, ao final de seu empréstimo aos "Leões", ele foi comprado pelo Kuban Krasnodar, da Rússia.
Logo na chegada ao novo país, viveu mais um de seus causos.
"Sempre tive sonho de aprender a tocar violão, mas é muito difícil, aprendi uns acordes básicos. Um mês antes de ir, eu fazia aulas de violão três vezes por semana e tive que parar. Eu peguei o violão e levei para Rússia para quem sabe continuar praticando. Pus uma capa tipo mochila e fui pra Turquia me apresentar pra pré-temporada com ele nas costas. Cheguei ao hotel sem conhecer ninguém, e, quando cumprimentei o diretor, ele ainda me solta essa: 'Peraí, contratei um jogador ou um cantor? (risos)'. Todo mundo gargalhou e quebrou o gelo, foi muito engraçado. E eu tinha que sair por cima, aí respondi: 'Você contratou um jogador, e dos bons (risos)'", gargalha.
Em sua terceira temporada em Krasnodar, contando com a companhia dos compatriotas Felipe Santana (ex-Borussia Dortmund) e Apodi, recém-chegado da Chapecoense, o ex-são-paulino até hoje não se acostumou com o trânsito louco do país.
"Toda semana eu vejo acidente, é incrível como eles dirigem mal. Os russos bebem demais, e qualquer acidente não pode tirar o carro do lugar até o seguro analisar, aí complica mais ainda. É muito pior que São Paulo. No trajeto da minha casa ate o CT, são menos de 5km, mas eu demoro meia hora por causa dessas coisas", ressalta.
Foi também no Kuban que Xandão levou o maior susto de sua vida, quando foi diagnosticado por engano com uma grave doença. Aconteceu no início de 2014, quando exames de rotina, como chapa do pulão, foram pedidos. O brasileiro fez tudo normalmente e estava tranquilo em casa quando o telefone tocou.

"O tradutor me falou pra voltar urgente pro hospital, pois tinha alguma coisa errada comigo. No trajeto, pensei mil coisas, lembrei do Thiago Silva, que teve tuberculose na Rússia, e o tradutor ainda ficava me falando que era suspeita de tuberculose. Como eu ia essa dar noticia pra minha família? Nessa meia hora, chorei dentro do carro e só pensava no pior", relata.
"Então, cheguei ao hospital e fiz outro raio-x, fiquei uns 15 minutos esperando e nada. Até que o médico me chamou e me pediu desculpa, porque a impressora estava ruim e não imprimiu direito, por isso apareceu uma mancha que eles acharam que era tuberculose (risos). Tirei um peso das costas e agradeci mil vezes, estava achando muito estranho, porque eu não sentia nada. Mas foi um baita susto", conta, aliviado.
Hoje, Xandão só dá risadas da "tuberculose por engano" que a impressora lhe deu.
"Tenho até hoje essa chapa, tinha uma mancha enorme no meu pulmão! Se isso fosse tuberculose, eu estaria em fase terminal (risos)", brinca.