Inicialmente gostaria de desejar a todos seguidores e leitores um excelente 2016, muita sorte e sucesso em suas vidas pessoais e para nossa paixão comum o São Paulo Futebol Clube.
Felicitações feitas, vamos ao que realmente interessa.
Meados de 2015, uma crise sem precedentes se instalou no amado clube brasileiro; atrasos de salário e direito de imagem, denúncias de supostos atos ilícitos, guerra política, trocas de técnico, contratação polêmica, gravações de conversas, formaram a ponta de um iceberg que culminou com a renúncia de um presidente e a “confissão” de uma dívida assombrosa.
No final do mês de outubro, um novo Presidente assume o comando do Clube e nomeia uma nova diretoria, com algumas gratas surpresas; Bruno Caetano, Roge David, Rodrigo Gaspar são alguns exemplos.
Neste momento, grande parte da torcida manifesta-se adotando um discurso pleiteando austeridade e responsabilidade nas ações adotadas dali por diante.
A prioridade pleiteada seria equilibrar as finanças do clube, esclarecer os escândalos e eventualmente punir os “culpados”, em segundo plano, montar uma equipe capaz de disputar dignamente as competições do ano seguinte, sem grandes pretensões.
Um discurso modesto para uma torcida tão exigente, certo?
Não foram poucos àqueles que “torceram” contra a classificação para a disputa da Copa Libertadores da América deste ano. Grande bobagem, a ausência na principal competição do semestre traria ainda mais dificuldade para atrair novas parcerias, atletas e negociar melhores valores de cotas televisivas.
Graças aos “Deuses do Futebol” e ao golaço do “Neymar do Agreste” confirmou-se a participação no torneio.
Após a tragédia de Itaquera, o Presidente Leco convocou uma coletiva de imprensa que causou grande expectativa. Assumiu o compromisso de mudanças e determinou o fiasco diante do time reserva do rival sem cor, como o divisor de águas na história desta equipe.
No entanto, o discurso brando somado a falta de uma lista com nomes para dispensas e afastamentos causou grande indignação e revolta à nação tricolor.

Se o magnífico espetáculo proporcionado pelo jogo de despedida do jogador mais emblemático da história serviu para alegrar e orgulhar o torcedor. A entrevista do ex-presidente renunciado sedento por vingança e holofotes acabou com aquela boa sensação em questão de horas.
O ano terminou com a “caça” à cabeça do Vice-Presidente de Futebol, Ataíde Gil Guerreiro, nas redes sociais e reunião do Conselho Deliberativo, que num ato desesperado de autoproteção convocou uma reunião com jornalistas de expressão para divulgar o tão comentado áudio.
O Presidente Leco interveio em favor de seu Vice, selando um pacto, uma trégua temporária, junto aos Conselheiros, com o intuito de tentar evitar ainda mais prejuízos ao conturbado planejamento nesta janela de transferências.
A falta de tempo para remontar a equipe que perdeu vários jogadores e a escassez de recursos financeiros foram suas maiores preocupações.
Apesar de certas diferenças com o Vice-Presidente de Futebol, o Presidente Leco soube enxergar que a saída de Ataíde Gil Guerreiro da gestão, poderia corroborar para a demissão do gerente-executivo Gustavo Vieira, considerando sua pouca expressão política.
Para demonstrar a necessidade da manutenção de Gustavo Vieira neste momento lembrem-se da negociação frustrada com um jogador que hoje é “objeto de desejo” de grande parte da torcida: Em meados de 2015, o lateral direito e volante, Júlio Buffarini, estava praticamente acertado com o São Paulo. Gustavo Vieira conduziu toda a negociação com jogador e clube detentor de seus direitos. Praticamente no momento de assinar o contrato por um valor bem menor do que hoje se especula, de maneira abrupta e inexplicável foi afastado da diretoria de futebol pelo ex-presidente renunciado, prejudicando a finalização da negociação. Seu substituto José Eduardo Chimello não deu a devida continuidade, o negócio “esfriou” e acabou não se concretizando. Hoje, levando em consideração a cotação cambial e a própria valorização do jogador diante do interesse incessante em seus serviços, contribuem para que uma negociação boa no aspecto técnico e viável financeiramente se torne quase que impossível.
Este foi o pensamento do Presidente, se equivocou?
As festas de fim de ano chegaram, e com elas, um novo técnico estrangeiro, cuja escolha e forma silenciosa a qual foi contratado surpreenderam positivamente.

O argentino Edgardo Bauza, El Patón, bicampeão da Copa Libertadores da América, era o nome menos especulado pela imprensa, um verdadeiro “azarão”.
Muitos nomes foram dados como certos ou próximos disso; Cuca, Aguirre, Abel, Levir, Sampaolli, Bielsa. Nenhum se confirmou, demonstrando que realmente impera a lei do silêncio, que os vazamentos de notícia são coisa do passado.
Contestado de maneira precipitada pelo novo modelo de remuneração, o gerente-executivo agora com mais respaldo e liberdade escolheu a dedo o nome do técnico. Considerou a comprovada capacidade de El Patón em trabalhar com times mais modestos. E, sobretudo, sua característica mais pragmática, baseada em resultados tão necessários num momento como este.
Talvez, El Patón, seja a grande contratação deste ano. Os fãs do idealismo do colombiano Juan Carlos Osorio com um futebol total, vistoso, de espetáculo, deverão se adaptar à filosofia conservadora adotada por Bauza.
Se a “voz da arquibancada” nos últimos seis meses clamava por um time aguerrido e cascudo é isso que terá.
Destaque também para a mudança de atitude de Ataíde Gil Guerreiro. No passado sua conduta sempre foi centralizadora e até truculenta. Hoje, o Vice-Presidente de Futebol se mostra mais permissivo às mudanças e projetos propostos pelo gerente Gustavo e consciente que sua presença é apenas um anteparo, uma espécie de escudo.
Tal fato fica comprovado diante das tratativas para as contratações do ídolo Diego Lugano e do lateral Eugenio Mena, sem desembolsar quaisquer valores que não sejam os salários. O especulado lateral Renê, do Sport Recife, custaria algo em torno de R$ 7mi mais a cessão de dois atletas.
Valeu a responsabilidade, a austeridade respeitando a situação financeira da Instituição!
Outro fato positivo são os remanejamentos de profissionais, os preparadores de goleiros e do auxiliar-técnico Milton Cruz, que passará a comandar o departamento de scout idealizado por Gustavo desde o ano passado (anterior a sua demissão). A chegada do novo auxiliar-técnico Rene Weber também pode lhe ser atribuída.
A abrangência da gestão de Gustavo chega à Cotia também, onde juntamente com os diretores Luiz Antonio da Cunha e Rodolfo Canavesi e o técnico André Jardine deram continuidade ao modelo de reformulação iniciado por José Alexandre Médicis e Júnior Chávare, ainda na gestão do ex-presidente renunciado. Justiça seja feita, talvez, esse seja seu único legado positivo em sua curta e desastrosa gestão.
Sob o comando dos acima citados, o clube mudou a forma de captar jogadores. O principal caminho era a formação desde os 14 ou 15 anos até a profissionalização.

O Tricolor manteve esse conceito, mas agregou a busca por jogadores mais velhos, principalmente de 16 a 19 anos, com a intenção de preencher carências e encorpar o elenco. Dessa forma, a diretoria contratou o zagueiro Lyanco (à época com 17 anos), ex-Botafogo, e o volante Banguelê, que tinha 18 anos e fez tratamento para se recuperar de uma lesão. À época livre no mercado.
Outra mudança foi na estrutura de salários. O São Paulo percebeu que seus jogadores eram talentosos, mas com baixo espírito de competição, que incomoda os dirigentes e torcedores. Antes, os jogadores assinavam contratos com luvas (prêmio por assinatura) entre R$ 200 mil e R$ 250 mil, por cinco anos e recebendo salários em uma média entre R$ 25 mil e R$ 30 mil. Na gíria da bola, estavam de "barriga cheia".
Alguns continuavam recebendo mesmo acima dos 20 anos, idade limite para atuar nas principais competições de base, e viravam apenas custo, sem proporcionar qualquer retorno financeiro ao clube.
O São Paulo, então, passou a pagar salários entre R$ 9 mil e R$ 10 mil, sem luvas e comissões para empresários. A premiação de aproximadamente R$ 100 mil agora é condicionada a dois fatores: promoção ao elenco profissional e ao menos dez partidas na equipe, quando o atleta também recebe um aumento nos vencimentos.
A distância física entre Cotia e Barra Funda sempre foi um dos obstáculos para a integração da base com o profissional. Por isso, ao menos uma vez por semana os garotos do sub-20 treinam em horários compatíveis com os do profissional.
Outro conceito é o de treinar jovens com o time principal, mas seguir utilizando os atletas nas partidas da base. A ideia é ter três ou quatro atletas com essa rotina e, aos poucos, rodar o elenco sub-20 para a comissão técnica observá-los.
.
Além disso, o clube atualizou os protocolos de preparação física estabelecidos em Cotia. Essa atualização mudou a carga de força e aumentou o porte físico dos atletas, mantendo a prioridade na parte técnica.
Os resultados obtidos no segundo semestre de 2015, o ótimo início na Copinha, dão mostras que a geração “leite com pera” foi superada.
Entende-se a ansiedade do torcedor para contratações, diante do fortalecimento de elenco nos rivais. Mas, não há como fechar os olhos para a grave situação financeira do clube. Não há meios de dispender grandes quantias em jogadores sem comprometer o orçamento e inchar a folha de pagamentos.
Acredita-se que ninguém deseja viver de novo o período de atrasos de salário e direitos de imagem, correto?
A aposentadoria de Rogério Ceni e as saídas de Luís Fabiano e Alexandre Pato constituem uma economia de mais ou menos R$15mi ao ano. Mas, isso não é sinônimo de investimento do mesmo montante.

Há que valer a austeridade e a responsabilidade, ou não?
Para a janela de transferências aberta recentemente, o gerente Gustavo, terá que mostrar muita habilidade e “jogo de cintura” para driblar a escassez de recursos e montar um time em condições de suportar a longa temporada que se inicia.
Apesar das muitas críticas a esse ou àquele, há que se considerar uma base já existente; Denis, Breno, Rodrigo Caio, Thiago Mendes, Paulo Henrique Ganso e Alan Kardec, ganham agora o reforço de Diego Lugano e Eugenio Mena.
Ainda existem as apostas Centurión, Daniel, Rogério, e as incógnitas Wesley, Michel Bastos e Carlinhos. Sem contar possíveis novos reforços que se enquadrem na nova política de salários e a transição de alguns garotos da base.
Uma nova mentalidade e um novo procedimento estão se constituindo no Departamento de Futebol.
Assim como mudanças estão ocorrendo pelos lados da Barra Funda, pelos lados do Morumbi não é diferente.
A parceria entre o diretor José Francisco Manssur e Vinícius Pinotti também merece elogios. O sucesso da festa de despedida do M1TO Rogério Ceni é a demonstração que o Departamento de Marketing começa a se reestruturar.

Logo após o grande evento, a confirmação do bom trabalho desenvolvido. Depois de muito tempo a camisa estampa seus dois novos parceiros. E ainda existe a possibilidade que antes do início da temporada, em campo, seja confirmado o acordo para o tão sonhado patrocínio máster.
Além disso, no campo da comunicação também há que se elogiar a capacidade do diretor Manssur em filtrar e evitar manchetes sensacionalistas e falaciosas como acontecia até pouco tempo.
Por fim, peço desculpas pela longa leitura. Os temas são muito abrangentes, e esclareço que essa coluna não trata de chapa branca, nem defesa gratuita desse ou daquele.
Esta coluna tem como objetivo informar e relembrar certos acontecimentos, estimulando uma reflexão sobre a real situação de nosso amado clube neste ano. Tudo o que foi dissertado aqui possui fonte, é fato, público e notório.
Pois, mudanças estão ocorrendo, de maneira sutil é verdade, talvez, a ansiedade por medidas drásticas façam estas mudanças passarem meio que despercebidas. Porém, não há como negá-las.
Obviamente, ainda há muito para mudar, cobrar, fevereiro está chegando, e junto com a estreia na Copa Libertadores, logo após o carnaval, aguarda-se a solução para o caso da gravação. Espera-se que o novo Presidente da Comissão de Ética aja com imparcialidade e seriedade. Que sua atenção esteja concentrada naquilo que já se encontra em andamento, e não em requerimentos políticos sobre assuntos que já são objeto de análise de uma auditoria. No mesmo sentido, aguardam-se, também, os primeiros relatórios e conclusões da auditoria, bem como as novas diretrizes estabelecidas pela consultoria.
O mais importante nesse início de temporada é estabelecer uma sinergia entre diretoria, elenco e torcida. Não propagar falácias e ilações por meio de redes sociais. Não promover disputa sobre a “saopaulinidade”, deste ou daquele, é preciso restaurar a paz entre a torcida também.
Não esqueçam a partir desse ano a disparidade na distribuição das cotas televisivas poderá ser determinante para proporcionar vantagens a alguns rivais. A sorte é que o rival mais beneficiado por esta cota está atolado em dívidas oriundas da Arena “Minha Casa Minha Vida”, sem condição de investir o montante integralmente no futebol. Mas sua dívida não é eterna.
Somente os bons resultados da equipe tricolor, visibilidade, recuperação de credibilidade, boa publicidade, e o apoio em massa da torcida poderão mudar esse cenário, sem permitir que a ansiedade venha sobrepujar a responsabilidade financeira e austeridade da gestão.
O São Paulo precisa de paz nesse momento, o planejamento mesmo prejudicado, deve ser cumprido. A Instituição e sua imensa torcida não merecem reviver momentos como em 2013/2015!
O torcedor provou sua força, mostrou que possui voz, fez sua parte, e foi figura importantíssima no retorno de um grande ídolo. Quem sabe não será figura determinante na conquista de uma taça e na recuperação do nosso glorioso nome!

Por André Issa
TWITTER: @decoafi