Conselheiro do Tricolor, Cunha é diretor da seleção feminina da CBF (Edu Garcia/Diário SP)
Médico, gerente, superintendente, diretor… Com a experiência de quem trabalha há 37 anos nas mais diversas funções do futebol, Marco Aurélio Cunha é certeza de ótimo papo. O fato de ter participado da última eleição no São Paulo como candidato à vice-presidência e ser, desde 13 de maio, diretor de futebol feminino da CBF lhe dão ainda mais peso. E Marco Aurélio colocou o dedo em várias feridas, como ao afirmar que a atual diretoria tricolor não contratou o zagueiro Lugano porque o ídolo uruguaio é seu amigo. Ou ainda quando assegurou que nunca concordará com uma comissão de R$ 18 milhões pela assinatura do contrato com a Under Armour. Ele também pediu apoio dos “clubes de camisa” ao futebol feminino, falou sobre Marco Polo Del Nero e o futuro do país pentacampeão mundial.
BLOG_ Como conselheiro, de que forma o senhor analisa o momento do São Paulo?
MARCO AURÉLIO CUNHA_ Extremamente confuso e contraditório. Uma coisa que hoje é dita amanhã acaba desmentida. Um projeto que se inicia logo é quebrado. As pessoas saem sem explicação…
O Aidar bate muito na tecla de que herdou uma dívida astronômica da Era Juvenal. O senhor concorda com ele?
Depois de um ano e meio de mandato, não. É óbvio que a dívida atrapalhou, mas cadê o patrocínio? O São Paulo está há mais de um ano sem.
A alegação é de que o mercado está em crise.
Para mim, está claro que o São Paulo pediu muito. É como o dono de uma casa que a coloca para alugar e recusa oferta de R$ 5 mil porque quer R$ 10 mil. Passado um ano, ele aceita a oferta de R$ 5 mil, perdendo um monte de dinheiro. Isso não é responsável.
Já foi procurado para voltar a trabalhar com o futebol?
Tive várias propostas de clubes do Sul. Do São Paulo, não. Assim que rompeu com o Juvenal, o Aidar me ligou. Ele queria apoio político e eu disse: “Sempre vou ajudá-lo, mas não me chame para bater palma”.
Concorda com as contestações ao trabalho do Ataíde Gil Guerreiro como vice-presidente de futebol?
Uma vez, mandei mensagem sugerindo uma correção de rumo e ele me respondeu bem. A partir da segunda, não mais. Acho que ele peca por algumas incongruências, como ao dizer que precisa de zagueiro canhoto. Em todas as grandes conquistas, o São Paulo só tinha destros. Desde Jurandir e Dias, passando por Oscar e Dario Pereyra, Alex Silva e Miranda, Breno e André Dias…
Refere-se à implicância dele com o Lugano?
Sim. Seria muito mais bonito justificar que não quer o jogador e ponto. Para mim, está claro que o Lugano não veio por ser meu amigo, por ter um histórico pessoal forte comigo.
Então, foi uma decisão política da direção?
Não é política. Talvez pensassem que eu poderia ficar sabendo das coisas que acontecem via Lugano. Mas ele é tão ético que nunca contaria. Trata-se de um cara que respeita demais o ambiente. O que acontece no campo fica lá.
Falando como médico, o Lugano está apto a jogar aos 34 anos, após todos os problemas físicos que teve?
Claro! Completamente apto. Ele falou para mim: eu não jogo 70 partidas no ano, mas jogo 30 como ninguém. E ele aceitaria muito bem ser reserva. Claro que um jogador de 34 anos precisa ser protegido nos treinos, como o Rogério Ceni é. Vai ter campo ruim, jogo duro, em que o São Paulo é superior, que o Lugano não precisa estar. Mas você deixa para usá-lo na hora certa. Até porque ninguém põe joia para ir à feira.
O Lugano chegou a ligar para o senhor pedindo para voltar?
Ligou e disse que gostaria muito de terminar a carreira no São Paulo. Que faria qualquer coisa por isso. Aí, eu sugeri ao Juan Figer (empresário do Lugano) que falasse com o presidente. A presença dele no vestiário seria fundamental. O São Paulo precisa de um cara que diga o que os outros jogadores precisam ouvir. Que pegue pelo pescoço alguém que mereça.
O Aidar disse ser a favor da volta do Lugano, apontando que o Ataíde não o queria.
Acho isso um absurdo. Ou o presidente exerce o direito de presidente e se impõe ou acata a opinião do vice e não discute. Se ele se sentiu convencido, tem de falar que a decisão foi de todos. Ou então faz como o Marcelo Portugal Gouvêa, que bancou o Lugano em 2003 contra a vontade de todos. A ponto de o Lugano ter sido chamado durante um bom tempo de reforço do presidente.
É verdade que o Muricy também não queria o Lugano?
Não é verdade. O único que tem essa posição formada contra o Lugano é o Ataíde.
Mas por que o Lugano só quis voltar ao São Paulo agora, no fim de carreira?
Ele já quer voltar há um bom tempo, desde que saiu do West Bromwich (em maio do ano passado). Antes, não dava porque ele estava no PSG, no Málaga… e tinha o sonho de jogar a Premier League.
O São Paulo tem time para ser campeão brasileiro?
Não! Acho difícil. Vai brigar por uma vaga no G4.
O que acha da comissão de R$ 18 milhões prometida pelo São Paulo a uma empresa de Hong Kong pelo contrato com a Under Armour?
Acho um absurdo! Comissão de 20% não é comissão, mas uma sociedade. Se o São Paulo depender do meu voto de conselheiro para pagar, nunca terá. Fui execrado por ter sido contrário à construção da cobertura e dos dois prédios no Morumbi, mas não dá para aceitar um gasto de R$ 600 milhões.
Por falar em estádio e dívida, acha que o Corinthians pagará os custos do Itaquerão?
Fazer o estádio é algo legítimo, agora custar R$ 1,2 bilhão, não dá. É uma dívida dura de ser paga, ainda mais com os juros atuais. Logo, logo, o Corinthians vai estar igual à Grécia.
E o estádio do Palmeiras?
Não aprovo a dependência em relação à construtora (WTorre), mas o caso é diferente do Morumbi, até porque o Palmeiras não tinha um estádio grande e confortável que o clube merece. Custou R$ 500 milhões e é o melhor do país, não tenho dúvida. Só que o mais gostoso continua sendo o Pacaembu.
O Pacaembu só teve cinco jogos profissionais no ano. Não teme que fique abandonado?
O que ele precisa é ter uma agenda mais ativa. Dá para receber jogos universitários, futebol feminino, ser o estádio reserva dos grandes. Também sou contra a concessão. O Pacaembu não tem de dar lucro, porque é do município. Ou alguém fala que o Museu do Ipiranga e o Ibirapuera precisam ser rentáveis?
Não teme arranhar a imagem por trabalhar na CBF, cujos dirigentes são investigados?
O Banco do Vaticano foi fraudado recentemente por bispos e eu continuo rezando e indo à missa normalmente. O amor e a paixão pelo futebol não têm dono. Não é o meu diretor ou o meu presidente que mudarão. Estou na CBF pelas meninas e pela chance de ajudar.
Confia no trabalho do Marco Polo Del Nero?
Confio. E as pessoas que estão na CBF são sérias. É que todo mundo só olha para a seleção e para a Série A, mas vai fazer as Séries B, C e D, organizar árbitros, cuidar dos torneios da base, da seleção feminina… Ninguém ligava para as meninas.
Imagina uma volta por cima da seleção depois do 7 a 1?
Poucas vezes uso a palavra vexame no futebol, até porque a detesto, mas esse foi um vexame. Ainda mais depois do 3 a 0 para a Holanda na disputa do terceiro lugar. Conseguimos levar de 10 a 1. Esse foi o pior momento do futebol brasileiro na história, mas nunca será o fundo do poço, porque o futebol é feito de altos e baixos. Foi assim em 1966 e 1970, em 1978 e 1982, em 1990 e 1994…
Mas o que a CBF propôs de mudança depois do 10 a 1?
A proposta do Dunga e do Gilmar é tirar o glamour excessivo de jogadores que são supervalorizados sem terem ganhado nada e cobrá-los de forma justa. Colocar os pés desses garotos de 18 anos no chão e ser muito duro com eles. Mas os clubes também têm culpa, porque a safra atual é ruim, não existe trabalho de base e a situação financeira é caótica.
Confia no Dunga?
O Dunga é um obstinado e já passou por tudo. Foi massacrado em 1990, acabou campeão em 1994, ganhou quase tudo como técnico da seleção… só perdeu aqueles 45 minutos da Holanda na Copa de 2010. Havia um certo despreparo. Mas hoje ele está muito melhor e entendeu onde errou. Agora, se não tem uma seleção boa, não dá para culpar o técnico.
Por que deixou de ser vereador a um ano e meio do fim do mandato para virar diretor de futebol feminino da CBF?
Primeiro, porque estava infeliz com a política. E, depois, porque a proposta do Gilmar me permitiria ter a chance de participar do Pan-Americano e da Olimpíada. Eu já havia estado numa Copa com a Jamaica, em um Mundial de Clubes com o São Paulo. Mas nunca estaria numa Olimpíada.
A seleção feminina brigará pelo que na Olimpíada?
Por medalha. Hoje, EUA e Japão estão na frente, mas… se a gente ganhar a semifinal, por exemplo, é no mínimo prata.
Qual o papel da Marta e da Cristiane na seleção?
Talvez a Marta pudesse jogar entre os homens. Ela é o nosso Messi. Já a Cristiane lembra o Ibrahimovic e se cobra muito para decidir os jogos.
Quanto ganha uma jogadora de ponta hoje no Brasil?
Uns R$ 12 mil, contando a bolsa do Ministério do Esporte e as diárias pagas enquanto se está a serviço da seleção.
O que falta para o futebol feminino crescer?
Os colégios precisam ter futebol misto, temos de criar escolinhas de futebol feminino, precisa acabar com o preconceito. Os clubes de camisa precisam perceber que se trata de um grande e ótimo negócio.
'O Lugano não veio por ser meu amigo’, afirma Marco Aurélio Cunha, que ainda compara o Corinthians à Grécia e fala da CBF
Fonte Blog do Jorge Nicola
2 de Agosto de 2015
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