Michel Bastos quer se aposentar no São Paulo, revela oferta de um rival e admite atraso tático do futebol brasileiro

Fonte Blog do Jorge Nicola
Michel Bastos participa de quase 50% dos gols do Tricolor (Miguel Schincariol/Gazeta Press)
Nenhum jogador do elenco são-paulino é mais brincalhão do que Michel Bastos. É o meia quem cria os apelidos, provoca, tira sarro… Mas, na hora de falar sério, o gaúcho de Pelotas não foge de qualquer assunto. Em entrevista ao Blog, ele fez diversas revelações, como quando afirmou que está pronto para ficar com a faixa de capitão em 2016, após a aposentadoria de Rogério Ceni e a provável saída de Luís Fabiano, em dezembro. Ainda falou que teve propostas do Besiktas e de um rival do São Paulo antes da prorrogação do contrato com o Tricolor até o fim de 2017, explicou por que tem só dois títulos na carreira, admitiu o atraso tático do futebol brasileiro, contou que sonha com a seleção brasileira…
BLOG_ Você só completa um ano no São Paulo em agosto, mas já virou xodó da torcida, da diretoria e da comissão técnica. Qual a explicação?
MICHEL BASTOS_
Encontrei no São Paulo tudo o que esperava quando abri mão de um salário excelente no Al Ain, dos Emirados Árabes. Eu queria jogar em estádios cheios, atuar em alto nível, disputar clássicos. Sem contar que sempre fui um jogador mimado, que gosta de ser elogiado e de ver as pessoas me valorizando. E é assim aqui.
O Rogério Ceni e o Luís Fabiano não deverão estar no São Paulo em 2016. Está pronto para ser o líder do time e eventualmente o capitão?
Mesmo com a presença do Rogério, que é o grande líder, e do Luís, eu já tento exercer um pouco da minha liderança e ajudá-los. Estou pronto para ser o líder ou o capitão, sim, mas, quanto mais jogadores com essa capacidade, melhor.
Já usou a faixa de capitão?
Fui capitão no Lyon e nos Emirados Árabes. Com ou sem faixa, me sinto pronto para opinar, ajudar e participar.
Não balançou com as propostas que teve no mês passado, antes de renovar o contrato por mais dois anos e meio com o São Paulo?
Eu tive uma proposta muito boa de fora, do Besiktas, da Turquia, e outra de um clube daqui, mas não queria quebrar tudo o que estou vivendo no São Paulo. Aceitei um contrato de risco no ano passado sonhando com essa renovação.
A proposta do clube brasileiro era do Corinthians ou do Palmeiras?
Não posso falar, mas teve uma proposta de um clube daqui de perto mesmo (risos).
Antes de anunciá-lo, o vice-presidente de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, prometeu um reforço de seleção. Isso colocou mais peso sobre você?
Era uma opinião dele e todos teriam de respeitar. Lógico que criou uma carga a mais e muita gente me criticou, ainda mais porque fui expulso duas vezes logo que cheguei. Mas a resposta tem de ser dada no campo e vários dos críticos hoje dizem que sou ótimo jogador.
Após morar na Holanda, na França, na Alemanha e na Itália, a Europa não o seduz?
Ela me seduz, sim, mas para morar. Estou com 31 anos, meu contrato vai até o fim de 2017 e, se tiver oportunidade, quero encerrar minha carreira no São Paulo para depois ir morar na França. Eu, minha esposa e meus filhos temos dupla nacionalidade e nossa casa em Lyon está só esperando. Se Deus quiser, a comemoração do título do Campeonato Brasileiro deste ano já vai ser lá.
Apesar de ter no currículo a disputa de uma Copa pelo Brasil, você só ganhou dois títulos na carreira: a Copa e a Supercopa da França. Por quê?
O curioso é que tenho vários títulos individuais, como melhor jogador do campeonato, maior assistente… E sempre joguei em clubes que brigaram até o fim pelos títulos: fui vice-campeão italiano na Roma e vice brasileiro no São Paulo. Tenho dado azar, mas isso vai mudar.
O São Paulo é o grande favorito ao título do Brasileirão?
Começamos bem, mas o campeonato está só no início e a concorrência é muito grande. Tem o Internacional, o Corinthians, sem contar os clubes que estão se fortalecendo, como o Flamengo, que vem contratando bastante jogador, e o Palmeiras, que todo dia apresenta um cara novo.
A contratação do Osorio pode ser um diferencial para o São Paulo neste ano?
Já deu para ver que o Osorio conhece muito taticamente. Ele para o treino, organiza, cobra. Como já joguei em várias funções, aprendi bastante e é legal porque o Osorio gosta de ouvir os jogadores.
O futebol brasileiro está atrasado taticamente?
Um pouco, embora eu veja hoje que existem clubes com vontade de progredir. Ocupação de espaço, posicionamento, disciplina… na Europa, os times são mais bem organizados na comparação com o Brasil.
Mas a culpa também não é dos jogadores?
Claro que sim. Não digo que o brasileiro é peladeiro, mas ainda existem jogadores que fazem funções e você olha e fala: ‘o que ele está fazendo?’. Realmente, ainda tem no futebol brasileiro uma baguncinha.
Como vê o fato de quase 50% dos gols do São Paulo terem sido marcados por você ou nascerem de suas assistências?
Eu me cobro bastante para ter uma participação efetiva nos jogos. Quando não faço um gol, nem dou um passe, volto para casa chateado. É meu jeito.
Em 15 anos como profissional, qual foi o melhor parceiro que já teve no campo?
O Hazard (que atualmente atua no Chelsea). Eu e ele formamos o meio-campo do Lille na temporada 2008-2009 e foi demais. Marquei 16 gols em um ano. Já dava para perceber naquela época que ele seria um fenômeno do futebol.
No que você não economiza dinheiro?
Em um bom restaurante, em relógio… se bem que já gastei mais em outras épocas do que atualmente. Também gastava muito com tênis, mas sou patrocinado pela Adidas há oito anos e não compro mais.
Então, dá para dizer que é vaidoso?
Sou bastante. Minha mulher até brinca comigo que demoro mais tempo para me arrumar do que ela. Quando eu morava na Europa, usava terno para ir aos jogos, treinos e jantares.
E qual a comida dos sonhos?
Como um bom gaúcho, gosto de carne. O engraçado é que eu não sabia fazer um churrasco, mas pus na cabeça há uns dois anos que aprenderia e só eu cuido da churrasqueira de casa desde então. Agora, estou mandando bem.
É verdade que você virou poliglota?
Falo fluentemente quatro línguas: português, inglês, francês e espanhol. Tem algumas em que enrolo, como o holandês.
Qual sensação ficou da eliminação nas quartas de final da Copa de 2010, por causa daqueles péssimos 45 minutos finais contra a Holanda?
Disputar uma Copa do Mundo pelo Brasil foi a realização de um sonho, mas, depois que você está lá, com a seleção jogando bem, ganhando os jogos, cria-se a expectativa de ser campeão. E eu tenho certeza de que tínhamos todas as condições. Por isso, o sentimento é de frustração.
O que faltou?
Para ser bem sincero, sempre evitei pensar naquele jogo. Doeu demais em mim e em todos. Nunca vi um vestiário como aquele depois da derrota por 2 a 1. Eu não costumo chorar em público, mas não resisti. Nem dormir, eu consegui.
O Felipe Melo acabou sendo expulso pouco depois da virada holandesa. Vocês não se preocupavam com o comportamento explosivo dele?
O Felipe vinha fazendo uma grande Copa do Mundo. Não dá para culpá-lo, nem culpar o Julio César ou alguém especificamente. Todos nós perdemos.
Foi o Dunga quem o “descobriu” para a seleção e bancou sua ida para a Copa. Com a volta dele, tem esperança de ser convocado de novo?
Eu só tenho elogios a fazer sobre o Dunga. E esperança, sempre tenho, ainda mais por estar em um clube como o São Paulo, que sempre levou jogadores para a seleção. Quem me vê treinar vai perceber que, fisicamente, pareço estar com 22 anos, porque me cuido bem.
Mais ou menos com os 22, você foi dispensado do Grêmio por problemas extracampo. Era excesso de balada?
Eu tinha um pouco menos, uns 21. Era molecão, estava ganhando bem e queria aproveitar. Nem bebia muito, mas gostava de balada, da mulherada, passava as madrugadas na rua… Foi quando meu pai (Bastos) teve um papel fundamental para me colocar no lugar.
Ele brigou com você?
Quando o negócio ficou bem feio, ele foi até Porto Alegre e chamou minha atenção. Foi a primeira vez que vi meu pai chorando. Ele também tinha sido jogador profissional e chorou porque viu que o filho estava jogando a carreira fora. Ainda mais no Grêmio, que era nosso time do coração.
O que mudou do jogador baladeiro para o outro que passou sete temporadas consecutivas no futebol francês?
Foram várias coisas: a conversa com meu pai, acabei conhecendo minha esposa, foquei no futebol. Eu precisava disso ou nunca daria certo. E os seis primeiros meses na França ainda foram difíceis. Eu não jogava e me colocaram no time B do Lille. Mas as coisas foram se acertando, fui vendido para o Lyon, fiz grandes jogos…
Seu pai também era meia?
Ele era lateral-esquerdo do Brasil de Pelotas na fase áurea do time. Chegou à semifinal do Brasileirão de 1985 e é famoso na nossa cidade, Pelotas. Mas brinco que hoje ele virou apenas pai de jogador (risos).
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