Mereceram os dirigentes são-paulinos algumas críticas, pelo fato de terem procurado a solução para o seu problema com o concurso de um elemento estrangeiro. Não somos dos que julgam acertadas as críticas feitas. Acreditamos que, com um técnico europeu, é bem mais provável que o São Paulo consiga voltar a praticar um jogo espontâneo, movimentado, cheio de lances nascidos da intuição de momento de seus jogadores, muitos dos quais são capazes de realizar tais jogadas. Basta, para isso, que o sr. Béla Guttmann seja um fino observador e não pretenda tratar os profissionais brasileiros como se estivesse em ambiente europeu, procurando aproveitar, de cada um, de seus dotes naturais e suas qualidades inatas. Deixe de lado as táticas rígidas e os planos de ação pré-estabelecidos para as partidas, nas quais nunca se pode ter a certeza do que irá fazer o antagonista.

A Folha de S. Paulo também, na edição de 17 de fevereiro de 1957, fez ressalvas que se aplicam ao atual momento vivido pelo futebol brasileiro:
O que querem de Guttmann? Que faça o papel de simples treinador acomodado ou que procure ensinar algo diferente? No primeiro caso, não havia qualquer necessidade de contratá-lo. No segundo… bem, no segundo, vão aparecer os problemas: a reação do plantel, sob comando estranho. Guttmann pode pretender a disciplinação dos individuais com bola, para ensinar os jogadores a chutar com os dois pés, a amortecer o couro, a cabecear com perfeição etc., uma série de coisas que os nossos treinadores apenas superficialmente põem em prática. Sabemos como treinam os times europeus, porque acompanhamos o futebol do Velho Mundo com atenção por meio de revistas dos seus centros mais adiantados. Os técnicos europeus, com menos e inferior material humano que os nossos, atingem proporcionalmente rendimento maior. Antes de mais nada, porque existe a tradição de obediência aos planos do técnico. Guttmann poderá ter sérias complicações no São Paulo, como teria noutro clube qualquer, se quiser usar o seu método de treinamento. Se, porém, ao encontrar as primeiras resistências, resolver acomodar-se, a fim de não perder o posto, de nada terá adiantado ao São Paulo contratá-lo.
Que fará Guttmann? O São Paulo poderá melhorar muito de padrão sob seu comando. Mas existirá esse comando?

Alheio aos palpites da imprensa, o São Paulo fechou contrato com o novo técnico em 1 de março. Antes, contudo, fez uma pesquisa sobre o currículo e a capacidade de Guttmann que incluiu a solicitação de informações ao embaixador José Carlos de Macedo Soares, o então ministro das Relações Exteriores:
“Estando o São Paulo interessado em contratar o senhor Béla Guttmann”, dizia a carta, assinada pelo presidente tricolor, Cícero Pompeu de Toledo, “solicitamos a Vossa Excelência determinar que, por esse ministério, sejam colhidas informações a respeito da capacidade técnica e da idoneidade moral do referido cidadão”.
Ele estreou como técnico do São Paulo em um amistoso contra o Juventus no estádio da Rua Javari em 23 de março. Pouco depois o húngaro já ganhava grandes elogios na coluna “Sete dias nos esportes”, de Odilon Brás e Henrique Matteucci, na edição de 24 de março: “Béla Guttmann está realizando um trabalho prodigioso no Morumbi. Está ensinando jogadores brasileiros a jogar futebol.”
Com inovações nos treinos, principalmente nos fundamentos, Guttmann ensinou a todos os jogadores como cobrar faltas, chutar bem uma bola no gol, e mostrou que o foco deveria ser sempre na objetividade e na precisão. Nada de fintas e jogadas que não levassem a lugar nenhum. O importante era o gol. Uma característica de Guttmann nos tempos de São Paulo foi desenhar alvos com números para os jogadores acertarem com seus chutes, uma espécie de paredão do chute ao alvo. Esse símbolo básico de fundamento permanece até hoje nos centros de treinamentos dos clubes brasileiros.

Sua grande contribuição para o futebol brasileiro foi a forma como ele pensava e enxergava o jogo. Guttmann ajudou a revolucionar as táticas e transformou o esquema 3-2-2-3, o lendário WM, em 4-2-4. Os atacantes de suas equipes voltavam ao meio e confundiam as defesas adversárias, enquanto os laterais ganhavam mais liberdade subindo para atacar.

A passagem de Guttmann pelo Brasil deixou profundas e benéficas marcas para o futebol nacional. Vicente Feola, que acompanhou de perto o modo de trabalho do húngaro, implantou em toda a sua plenitude o sistema 4-2-4 do São Paulo na seleção brasileira, que estaria sob seu comando na Copa do Mundo da Suécia em 1958. Com craques em todas as posições do campo e jogadores perfeitos para atuar naquele estilo, o Brasil sobrou e foi campeão mundial pela primeira vez jogando um futebol vistoso, ofensivo e sensacional. A semente para aquele sucesso foi plantada por Béla Guttmann e pelo São Paulo que buscou inovação de fora para o futebol brasileiro.
O ceticismo da imprensa e profissionais do futebol perante técnicos estrangeiros não mudou após quase seis décadas.
Assim como Guttman fez, Osorio fará um grande trabalho no São Paulo e trará novidades para o futebol brasileiro.
Pesquisa:
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Acervo Folha
Wender Peixoto
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