"O Muricy tem contrato conosco até o final do ano e queremos que ele cumpra. Se ele quiser deixar, é outra conversa. Se quiser sair, terá de sinalizar. A presidência não vai mudar ninguém. Inclusive, se ele quiser fazer um espaço de três meses, tudo bem."
Ou seja, o discurso que ele não aceitaria um pedido de demissão de Muricy mudou radicalmente. Na semana passada após a vexatória derrota diante do Palmeiras, o treinador entregou o cargo. O vice Ataíde Gil Guerreiro e Rogério Ceni o demoveram da ideia. Não deixaram chegar a decisão a Carlos Miguel.
Ataíde disfarça, mas sabe que Carlos Miguel quer trocar Muricy. Desde que assumiu no lugar do homem que o colocou no cargo, Juvenal Juvêncio, Aidar tem sido inclemente. Mandado embora todos os funcionários que tinham ligação mais próxima do ex-presidente, de quem virou inimigo público número um. Aliás, Carlos Miguel demitiu Juvenal da administração do Centro de Treinamento de Cotia.

O ódio entre os dois só aumenta em cada reunião do Conselho Deliberativo. O São Paulo está rachado. E a oposição ligada a Juvenal tem crescido, incomodado, sabotado o trabalho de Aidar. Muito vaidoso, o presidente tem tido resultados pífios onde garantiu que modernizaria o clube. Não conseguiu sequer um patrocínio master. A sua política de ingressos caros espantou os torcedores do Morumbi. Sua ligação profunda com as organizadas têm evitado protestos maiores, mais pesados. Só que faz com que perca força diante dos conselheiros, horrorizados com sua intimidade com os chefes das principais facções.
Muricy Ramalho, Milton Cruz e o gerente de futebol, Gustavo Vieira de Oliveira, filho de Sócrates, estão na alça de mira de Aidar. O trio é muito ligado a Juvenal Juvêncio. Amigos próximos. Foram colocados nos seus cargos por ele. E sempre deram satisfação a ele sobre tudo o que se passava nos bastidores do time.
Aidar quer colocar 'homens seus', de sua confiança. Só espera uma desculpa clara. A eliminação do clube logo na fase de grupos da Libertadores serviria de escudo para que pudesse agir. Ataíde Gil tenta blindar Muricy. Fazer de conta que nada está acontecendo. Mas é inútil. Conselheiros importantes sabem do descontentamento, da desconfiança, do desânimo com o trabalho do treinador. A começar pelo presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Augusto Barros e Silva, Leco.
A situação está perto do insuportável com a incrível revelação da esposa de Muricy.
"Ele precisa fazer uma operação de vesícula. O médico já falou isso, mas como ele está trabalhando ainda, ele fica assim sobre ter de parar para fazer esta operação, onde o retorno é de 20 dias, mais ou menos. Ele tem uma pedra na vesícula e o médico já falou que é bom ele tirar.
Eu não sei de onde está surgindo este boato que ele vai parar, mas ele só quer dar uma parada pra fazer esta cirurgia de vesícula, pois é necessário. Primeiro ele pensa no São Paulo, apra depois ele pensar nele. Eu não sei se está certo isso. Primeiro tem que pensar na saúde dele pra depois ele ficar bem, pra daí ele pensar no São Paulo.
Ele só vai deixar mesmo se estiver passando mal. É o jeito dele. Ele está no limite, mas está dando preferência ao São Paulo, por mais que as pessoas não estejam vendo isso. Ele ainda está se sacrificando por causa do São Paulo, então eu gostaria que ele parasse para se tratar, fazer a cirurgia. Porque se esta pedra descer para o pâncreas, fica pior, é perigoso. Mas é um jogo atrás do outro, não tem tempo pra ele fazer."

As declarações que Roseli Ramalho deu para o UOL, foram chocantes. Por causa do futebol, o treinador está adiando uma operação importante que precisa fazer. Como ela mesmo disse se a pedra na vesícula 'descer para o pâncreas', será perigoso para a saúde do técnico. Embora não pareça, Muricy completará 60 anos em novembro.
Carlos Miguel tem uma grande oportunidade. Se o São Paulo for eliminado da Libertadores, ele pode dispensar Muricy para se operar. E não há como ficar três meses sem treinador. Estaria livre para buscar um outro técnico. O nome de Leonardo, ex-treinador do Milan e da Inter, é cada vez mais comentado entre conselheiros. Ataíde já defendeu publicamente a contratação de um europeu.
Enquanto isso, o clima no São Paulo é péssimo depois da derrota contra os argentinos. Há uma verdadeira caça às bruxas. Rafael Tolói que falhou infantilmente, tomando um chapéu previsível do uruguaio Cauteruccio, pode perder sua posição no time. Denílson tomou o terceiro amarelo e não enfrenta o Danubio no Uruguai. Alan Kardec sofreu torção no joelho direito ontem e será avaliado. Luís Fabiano segue tratando contratura na coxa esquerda.
O jogo contra os uruguaios só acontecerá no dia 15, daqui a 13 dias. Será muita pressão sobre Muricy. O treinador não confia nem um pouco em Carlos Miguel Aidar. Desde que o presidente o cobrou publicamente por títulos, depois de ter acertado a contratação de Centurión.
"Ele está devendo essa para gente. Nós montamos o time que ele quis. Ainda quer um jogadorzinho, mas com o que tem agora ele precisa ganhar. Quem vai cobrar publicamente dele sou eu. Não é mais ele que cobra da diretoria", avisou o dirigente, em janeiro.
Desde então os dois praticamente não se falam. Aidar já fez várias visitas em treinamento. Nelas cumprimenta Muricy para a imprensa ver e fotografar. Assiste as atividades e depois vai embora. Não há nenhuma proximidade entre os dois. Ainda mais agora depois que o São Paulo corre risco de eliminação.
Ao avisar que está pronto para dar três meses para Muricy operar sua pedra na vesícula, Aidar só piora o ambiente. Este recado foi dado na pior hora possível. Logo após uma frustrante derrota. O recado está dado. Só não entende quem não quer. Bastou o São Paulo ser eliminado da Libertadores e muita coisa no futebol vai mudar. Nenhum conselheiro acredita nas negativas pífias do presidente. Muito menos Muricy.
"O Muricy está sendo 'cozinhado' em fogo baixo pelo Carlos Miguel", resumiu Juvenal Juvêncio ontem para a TV Folha. Muita gente no Morumbi concorda...