O São Paulo vai entrar em seu mês mais importante dos últimos anos de forma turbulenta, principalmente depois da eliminação ainda nas quartas de final do Campeonato Paulista a última quarta-feira, após derrota nos pênaltis para o Penapolense. Em abril, em data ainda a definir, o clube tricolor decide o presidente que irá suceder Juvenal Juvêncio no cargo, em eleição que terá uma oposição mais forte do que o habitual, com Kalil Abdalla na disputa contra o candidato da situação Carlos Miguel Aidar na disputa para substituir o atual mandatário há oito anos no poder.
Adversário de Aidar – o mesmo que defendeu a CBF no caso Portuguesa e Fluminense – no pleito máximo da agremiação do Morumbi, Abdalla é ex-diretor jurídico do São Paulo, em cargo renunciado no meio do ano passado, e tem em Marco Aurélio Cunha seu vice imediato. Em entrevista exclusiva ao Terra, ante da surpreendente na última quarta, o candidato falou sobre seu oponente, comentou sobre a troca Jadson-Pato, analisou a gestão Juvenal, além de ter respondido sobre outros temas como cobertura do Morumbi, CBF e até os motivos que levaram ao seu desligamento da atual diretoria.
Confira a seguir, na íntegra, a entrevista concedida por Kalil Abdalla ao Terra:
Terra - O Aidar, que vai concorrer pela situação, tem aparecido na mídia regularmente como advogado pró-CBF no caso Portuguesa/Flamengo x Fluminense. Como candidato da oposição, como o senhor enxerga esta situação?
Kalil Abdalla - Há dois aspectos que devem ser considerados neste caso. Primeiro, como colega de profissão, creio que o Carlos Miguel tem toda a condição de defender juridicamente qualquer indivíduo ou instituição - e o faz com brilhantismo, aliás. A aproximação com a CBF, estreitando laços e abrindo canais mais amigáveis, é totalmente aderente a nossa própria plataforma, pois consideramos que nos últimos tempos a atual gestão do SPFC tem se distanciado perigosamente de todos. Por outro lado, entendo que em uma eventual discussão com a entidade - e a história do nosso clube mostra que recorrentemente fomos críticos a CBF em diversos episódios - o mérito fica prejudicado, pois há um claro conflito de interesses. Por esta razão, prefiro considerar que o Carlos Miguel não deveria defender a CBF nesta discussão, principalmente agora que ele pleiteia o cargo de presidente do São Paulo.
Nota da redação: Em entrevistas anteriores, Aidar alegou que defendeu a CBF em ações contra torcedores que entraram na Justiça Comum, e não contra os clubes. Com a ameaça de a Portuguesa, como instituição, dar continuidade à sua luta contra o rebaixamerto na Justiça, o cansdidato a presidente do São Paulo adiantou que não defenderia a CBF diretamente contra outro clube.
Terra - Recentemente, a troca do meia Jadson pelo atacante Alexandre Pato com o Corinthians deu bastante repercussão. Qual foi sua opinião sobre esse negócio? Acha que o Pato vai dar certo no São Paulo?
Kalil Abdalla- Tenho a impressão de que o SPFC perdeu dinheiro. Mandamos um jogador em definitivo e ficamos com outro por empréstimo. Torço muito para o Pato dar certo, é um grande jogador. Nosso problema tem sido as contratações sem planejamento, pagando altos salários e depois repassando o mesmo para outros clubes. Gostaria de saber o motivo de jogadores dispensados pelo SPFC darem tão certo em outros clubes, caso do Arouca, Cícero, Jadson e Wallyson e outros. Isso é má gestão!
Terra - Além do Marco Aurélio Cunha, quem mais de nome conhecido pela mídia e pelo grande público de um modo geral apoia a chapa da oposição para a eleição no São Paulo?
Kalil Abdalla- Muitos são-paulinos que tem desejo pela mudança e querem ver o SPFC de volta ao topo estão o SPFCforte. Só de ex-presidentes temos o Fernando Casal De Rey, José Eduardo Mesquita Pimenta, Paulo Amaral e o José Douglas Dallora. Ídolos do São Paulo também estão conosco como é o caso do Dario Pereyra que é sócio do clube e o Careca. São-Paulinos ilustres também como o Henri Castelli, são-paulino fanático e nosso candidato ao conselho, o ator Lima Duarte, o músico Jair de Oliveira e muitos outros. A grande massa de torcedores está conosco. Tenho recebido muito apoio nas ruas.
Nota da redação: Dias depois da entrevista, Henri Castelli anunciou que pode ser retirado da candidatura ao cargo ao conselho
Terra - A situação já está no poder do São Paulo há um tempo considerável. Em sua opinião, quais são os malefícios de se manter uma mesma linha de raciocínio no poder de um clube por tantos anos?
Kalil Abdalla- A alternância de poder é saudável em qualquer situação. No SPFC não é diferente. É preciso oxigenar o clube com novas ideias, uma nova gestão, novas pessoas. Nossas propostas vão modernizar o clube, melhorar os serviços na área social e colocar novamente o futebol no caminho das vitórias.
Terra - Por que o senhor pediu desligamento do quadro de departamento jurídico da atual diretoria?
Kalil Abdalla- Justamente por não conseguir implantar novas ideias e projetos que considerava importantes para o clube. A verdade é que, num ambiente de gestão tão centralizadora - como é o caso atual do SPFC - a maioria dos diretores são quase figurativos. Na prática, eu tinha bem pouca participação no dia-a-dia das decisões do clube, e isso me incomodava muito. Quando entendi que não conseguia mais contribuir com o São Paulo estando nesta posição, rompi com o presidente Juvenal e busquei um novo caminho, que agora se traduz neste belo movimento de renovação que chamamos SPFCforte.
Terra - Quais críticas você faz à gestão Juvenal Juvêncio ao longo dos anos no São Paulo?
Kalil Abdalla- É preciso deixar claro que avalio os primeiros anos da gestão do presidente Juvenal Juvêncio como muito bons, talvez entre os melhores da história do clube. Entretanto, o último período, que culmina justamente no seu terceiro mandato, tem sido desastroso. Decisões equivocadas, tomadas sem nenhum compartilhamento das ideias. Infelizmente, o presidente Juvenal também se cercou de pessoas que não têm necessariamente a melhor experiência em áreas importantes - lembre-se do período crítico em que o futebol profissional ficou sob a responsabilidade de Adalberto Batista. Depois de algum tempo, as ideias se esgotam, isso é normal para qualquer um. Por isso, defendemos que é necessário haver uma remodelação geral na equipe diretiva do clube.
Terra - A situação acusa a oposição de "boicote" na reunião de cobertura do Morumbi’. O que houve de fato na ocasião?
Kalil Abdalla- O que houve é que naquela data, ao contrário do que foi amplamente divulgado pelo grupo situacionista, nós não tínhamos conhecimento por completo de todos os detalhes do contrato ou da obra de cobertura do Estádio do Morumbi e, por isso, nos recusamos a aprovar um instrumento que poderia deixar o clube com suas receitas comprometidas por até 20 anos. Efetivamente, até hoje não conseguimos ver uma planta de engenharia sequer, por exemplo. Como conselheiros, temos responsabilidade sobre o patrimônio de todos os sócios do clube que, segundo este princípio, é nosso patrimônio e de nossos filhos e netos também.
Terra - Os arquirrivais Corinthians e Palmeiras apresentam em 2014 suas novas arenas, mais modernas e preparadas para o atual momento do futebol. Em sua opinião, o Morumbi precisa de uma reforma para não ficar atrás dos rivais?
Kalil Abdalla- Certamente que sim! Tanto que nunca fomos contrários a projetos de modernização em si. A cobertura, por exemplo, certamente significará um ganho considerável à comodidade de nossos torcedores, e achamos isso fundamental. Temos diversas outras preocupações em nosso plano de gestão. Consideramos fundamental, por exemplo, acesso à internet em alta velocidade para todos os usuários do Estádio e do Clube Social, e pretendemos aplicar este e outros tipos de melhorias se ganharmos a eleição.
Terra - O senhor vê a oposição no São Paulo hoje mais forte do que há muito não se via? Acha que, mesmo que não dê para levar essa eleição, o crescimento da oposição pode ganhar coro com um bom retorno nas urnas dessa vez e, no futuro, enfim tirar a situação do poder?
Kalil Abdalla- Eu não tenho dúvidas que o nosso Movimento SPFCforte veio para ficar! Hoje, pra lhe dizer a verdade, o clube está dividido. Os sócios estão discutindo os temas e expondo suas ideias como há muito tempo não víamos. E o melhor: com esperança de que a mudança é possível! Estou certo da vitória já nestas eleições, o grupo é muito bom!
Terra - Qual você acha que deve ser o posicionamento do São Paulo na próxima eleição da CBF?
Kalil Abdalla- Ainda não estão postas as candidaturas que pleiteiam à presidência da CBF, portanto não posso avaliar com mais certeza nenhuma tendência ou proposta administrativa e, assim, não consigo determinar qual deveria ser o posicionamento do SPFC. O que posso dizer é que gostaria muito que o São Paulo continuasse a sua trajetória de críticas ao que consideramos equívocos, mas sem promover rompimento unilateral das relações, como vemos nos dias de hoje. O São Paulo é um dos protagonistas do futebol em nosso país, temos a 3º maior torcida, somos um dos clubes mais vitoriosos do mundo - por isso, estou certo de que nossas ideias serão sempre consideradas.
Terra - Como é sua relação com o Marco Polo del Nero? Acha que ele deve mesmo assumir a CBF ou é necessária outra linha de pensamento?
Kalil Abdalla- Vejo decisões acertadas e outras equivocadas na gestão de Marco Polo del Nero frente a FPF - e acho isso normal em qualquer liderança. Pessoalmente, tenho boas relações com ele, já de longa data. Não sei se ele realmente será indicado para concorrer a Presidência da CBF, mas, em caso positivo, penso que pode sim ser um bom nome. Apesar disso, não me considero “fechado” em seu nome, até porque ainda não temos com certeza quem serão os demais concorrentes.
Terra - Há algumas semanas, a diretoria do SPFC divulgou nota oficial questionando palavras suas no programa Estádio 97, dizendo que o clube não atrasou o pagamento das contas de água e luz. Inclusive, acusou o senhor de sequer ter aparecido na mencioada reunião do Conselho, alegando estar em "um churrasco". O que tem a dizer sobre isso?
Kalil Abdalla- Se você buscar a entrevista, perceberá que eu não disse que o clube tinha contas atrasadas. Eu fui indagado sobre quais eram os boatos dentro do clube a respeito da nossa saúde financeira, e respondi que os boatos diziam que, ao que parecia, havia até mesmo contas atrasadas, mas que eu não poderia ser leviano em cravar esta informação. Eu marquei presença sim na reunião do Conselho. Estava no saguão para entrar até que recebi uma ligação e tive que ir para casa resolver problemas pessoais.
Chapa de oposição tem como outro nome forte o ex-dirigente Marco Aurélio Cunha