Na noite de 31 de dezembro de 2008 o São Paulo FC chegou à comemoração do Reveillon no ponto mais alto de sua história, depois de conquistar o Campeonato Brasileiro da Série A pela terceira vez consecutiva, a sexta acumulada. Apenas três anos antes, o time fora Campeão Continental e Campeão Mundial.
O balanço patrimonial fechado nessa data revelava uma receita total da ordem de R$ 158,0 milhões, a maior do Brasil. Nesse momento, o clube era dono da maior e melhor estrutura para futebol existente no Brasil, tanto em instalações e equipamentos, como em pessoal.
Desde então, o São Paulo conseguiu se manter relativamente bem no tocante às receitas, a ponto de em 2013 ter, novamente, a maior receita total entre os clubes brasileiros, mas afundou inapelavelmente dentro de campo. Em cinco anos completos, conquistou um único título, assim mesmo em um torneio de importância secundária e numa final extremamente polêmica, com apenas um tempo de jogo disputado.
A eliminação da reta final do Campeonato Paulista na noite de ontem, foi mais um fracasso numa lista respeitável, que incluiu a ausência do time em duas edições da Copa Libertadores. No jogo de ontem, menos importante que perder para o Penapolense, muito bem treinado por Narciso, foi a forma como isso se deu, que em tudo repetiu o que o torcedor são-paulino viu durante o terrível ano de 2013.

Marcante, também, nessa derrota, é o fato do Penapolense ter uma folha de pagamento de meros R$ 400 mil por mês, segundo informou o especialista Amir Somoggi, equivalendo a algo como R$ 5 milhões por ano. Do outro lado, somente com o futebol profissional e de base, o São Paulo FC dispendeu em 2013 o total de R$ 248 milhões.
Uma despesa, somente com o futebol, 50 vezes maior que a de seu adversário, cuja despesa mensal pode ser coberta com sobras por apenas um dos grandes salários pagos pelo São Paulo a alguns de seus atletas.
Ainda sem conhecer os números completos do balanço de 2013, o São Paulo gastou a fantástica soma (para clubes brasileiros) de R$ 142,0 milhões em contratações de jogadores no período 2009/2012. Nenhum outro clube gastou tanto assim. Com um detalhe: praticamente todos foram contratados à revelia dos treinadores de plantão, negócios fechados, basicamente, pela cabeça do presidente do clube e seu assessor.
Mais à frente, no final de abril, começo de maio, com o balanço divulgado, voltarei ao assunto receitas, despesas e investimentos, não só do São Paulo como também de outros clubes. Por enquanto, em números, paro por aqui.
Em abril de 2011, contrariando o disposto no Estatuto do clube, o presidente Juvenal Juvêncio buscou mais uma reeleição. Conseguiu, graças a uma manobra jurídica, daquelas que descobrem que a vírgula da frase número oito do adendo de alguma coisa estava mal colocada. De forma surpreendente, ou não, essa eleição acabou sendo validada pela justiça, o que não tira, de forma alguma, seu desrespeito em relação à letra do estatuto. Com essa medida, o presidente Juvêncio completará em poucos dias, oito anos à frente do clube.
Depois dos três primeiros anos de sucesso, esses últimos cinco anos de gestão do atual presidente viram o clube mudar da água para vinho. Antes grande vencedor, deixou de conquistar títulos, chegando ao ponto de ser seriamente ameaçado de rebaixamento em 2013. De clube modelo em termos de administração e critérios, demitiu os profissionais responsáveis pela que era em seu conjunto, até então, a melhor comissão técnica do futebol brasileiro.

De clube que mantinha treinador, fez nada menos que oito profissionais passarem pelo comando técnico da equipe em pouco mais de quatro anos. Esse número, naturalmente, inclui Muricy Ramalho duas vezes.
Muricy, por sinal, foi demitido pouco tempo depois de conquistar o terceiro Brasileiro seguido. Ricardo Gomes, que bem ou mal levou o time a uma semifinal de Copa Libertadores, também foi dispensado. Ney Franco, que levou o time a fazer a melhor campanha do segundo turno do Brasileiro de 2012 e último momento de bom futebol da equipe, também foi dispensado.
Passou a valer a mesmice tupiniquim: perdeu, troca o treinador.
A situação no futebol chegou ao ponto de o goleiro e capitão da equipe, de maneira até espalhafatosa, desautorizar uma decisão do treinador durante um jogo oficial. Naturalmente, nada aconteceu, além da demissão do treinador meses depois. Não é de se estranhar a sequência de fracassos da equipe.
Fora de campo o São Paulo também viveu um período cheio de problemas. Embalada pelas conquistas, a área de marketing do clube criou uma das mais infelizes campanhas vistas no futebol, chamando o clube de “Soberano” e consolidando uma visão de soberba e arrogância de que a direção, em especial o presidente, já era acusada, depois de sucessivos choques políticos com clubes rivais, federação e dentro do Clube dos 13, alguns deles abordados por esse OCE no decorrer desse período.
Ainda nessa fase, foi marcante a questão envolvendo a escolha do estádio paulistano para a Copa do Mundo. Considerado inicialmente como o estádio da Copa em São Paulo, o Morumbi foi preterido pela construção de um novo estádio em Itaquera. Muitos pensam, e alinho-me com eles, que a postura política de Juvenal Juvêncio em muito contribuiu para a derrota do Morumbi.

Essas foram, enfim, as marcas deixadas por esses cinco anos: seguidos fracassos no futebol e polêmicas fora de campo, que, em alguns casos contaram com a participação de bandos organizados apoiando o presidente contra seus adversários, tanto no Morumbi como em outros estádios – no Canindé, por exemplo, antes de um jogo contra a Portuguesa. Houve um momento em que a ação dos ditos elementos foi mais longe e adentrou a própria área social do clube, numa confusão que gerou indignação em muitos sócios.
Mesmo numa análise rápida, sumária, fica claro que a responsabilidade pelo conjunto da obra pode e deve ser creditada à gestão do clube. Que vinha bem, tal como o Costa Concordia, até que de repente... A diferença é que o “de repente” tricolor não se deu de uma só vez, numa só pancada, mas sim por meio de um processo, até rápido, quando olhamos para todo o quadro do futebol.
Impressionante no caso do São Paulo é que o clube é dotado de uma massa crítica respeitável, para dizer o mínimo. Estrutura, história, um estádio de excelente tamanho e boa qualidade para os padrões brasileiros e a terceira maior torcida do Brasil. Não é pouca coisa. Tudo isso nos passa a impressão de um grande navio, um transatlântico em marcha de cruzeiro, grande e forte o bastante para superar obstáculos diversos, independentemente do comandante e da tripulação.
Essa era a impressão no Reveillon de 2008 para 2009.
Essa também era a impressão dos passageiros do Costa Concordia, que se julgavam a salvo de tudo 13 dias depois de um outro Reveillon, o que marcou a passagem de 2011 para 2012. Infelizmente, essa sensação foi jogada no mar, literalmente, por um comando inepto.
O São Paulo não foi a pique, até chegou perto em 2013, mas mostrou na noite de ontem que não há transatlântico, não há clube com maior massa crítica que seja que consiga resistir a uma gestão desastrosa.

Hoje, dada a complexidade cada vez maior do futebol e tudo que o cerca, é impensável um grande clube ser dirigido de maneira autocrática, centralizada. Temos os muitos exemplos de grandes clubes europeus, nos quais a direção é sempre produto de um grupo, o que ocorre inclusive nos clubes com donos, com gestão colegiada (em certo sentido) e profissional. A figura do grande dirigente, responsável por tudo e por todos, está em declínio por exigência dos novos tempos e suas necessidades. No futebol essas figuras ainda resistem, ora com mais, ora com um pouco menos de concentração de decisões, mas o mercado e o futebol cobram caro por esses casos.
A eliminação do Campeonato Paulista acrescenta um novo e talvez poderoso ingrediente ao quadro eleitoral do clube. Uma boa campanha no Paulista era a última chance do presidente Juvenal Juvêncio terminar bem seu mandato e puxar preciosos votos para sua chapa. Com a derrota, o quadro que já estava aberto segundo muitos que conhecem o clube, ficou ainda mais aberto e a oposição ganha mais fôlego e argumentos na reta final da campanha.
Na Itália, o Costa Concordia foi recuperado das águas. Não voltará a navegar, segundo foi informado, mas, bem ou mal, foi recuperado.
Recuperação deverá ser a palavra de ordem da nova gestão do São Paulo, seja ela da situação ou da oposição. Tarefa que não será das mais fáceis, uma vez que a principal competição do ano, o Campeonato Brasileiro, está a poucas semanas do início. Talvez a parada para a Copa do Mundo ajude os novos dirigentes a encontrarem um novo rumo para o time, o que precisará ser feito, basicamente, com os mesmos profissionais que já estão contratados. Porque haverá dificuldades financeiras para contratações na janela de verão e porque só contratar não adianta, é preciso montar um time e isso toma tempo.
Tempos duros esperam a nova gestão tricolor.
