Bellini: o galã matuto que arrasou corações de São João da Boa Vista

Cidade lamenta morte do capitão da Seleção, que saiu do Sanjoanense para fazer história e deixou fãs, amigos saudosos e mulheres apaixonadas

Fonte Globo Esporte
Capa de revista: Bellini recebe beijo de Miss Brasil (Foto: Arquivo Pessoal/Claudionor Sibila)
Ao erguer a Jules Rimet em 1958, na Suécia, Hideraldo Luís Bellini se tornou imortal e tomou o mundo em suas mãos. Mas seu mundo, durante três anos, se resumiu a poucos quarteirões da acanhada São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. A república onde morou, a alfaiataria do amigo, o colégio de freiras onde estudou sua namorada, a barbearia onde trabalhou e a Sociedade Esportiva Sanjoanense, clube que defendeu de 1948 a 1951, e que hoje vive apoiado no orgulho de ter apresentado os dois primeiros capitães campeões mundiais pela seleção brasileira: Bellini e Mauro Ramos de Oliveira.
Conhecido na cidade como Esportiva, mas tratado formalmente por Bellini como Sanjoanense, o clube conta com oito mil sócios, mas há 26 anos não tem atividade de futebol profissional. O campo onde o jogador fez peneira (nome popular dos testes no futebol) ainda está lá. Na época, era chamado de "carrapateiro". Pode-se imaginar sua qualidade...
Há poucos resquícios da passagem do zagueiro por São João da Boa Vista. Uma fotografia aqui, uma lembrança acolá. O GloboEsporte.com vasculhou a cidade de aproximadamente 84 mil habitantes onde está o Sanjoanense, e descobriu que o clube, por meio do coordenador de esportes, Marcelo Siqueira, quer pleitear, pela segunda vez, sua inclusão no Guinness, o livro dos recordes. A alegação: ser o único a revelar dois jogadores que levantaram a Copa do Mundo.
Na primeira tentativa, não houve retorno. Enquanto o feito não alcança as páginas, é propagado pelas ruas do pequeno município, orgulhoso de Mauro, falecido em 2002, e Bellini, que descansa desde a última quinta-feira, após lutar contra o Mal de Alzheimer.
O MATUTO
"Um caipira na Cidade Maravilhosa". Assim, ele se definiu para os amigos quando o Vasco o contratou do Sanjoanense. "Ele não era de falar muito", "calado e muito tímido", entre outras, são as referências.

Ronaldo Noronha, amigo do ex-capitão Bellini (Foto: Alexandre Lozetti/GloboEsporte.com)
Não havia características mais flagrantes do que sua simplicidade e a educação impecável, fruto de família extremamente humilde, mas presa às formalidades da década de 1930.
- Ele mal sabia falar direito quando veio pra cá. E, anos depois, eu ouvia suas entrevistas no rádio e pensava: onde ele aprendeu? Ele era uma pessoa sensacional. Acho que a taça de campeão do mundo nunca foi entregue a uma pessoa tão boa. É um orgulho ter sido amigo dele - recorda o amigo Ronaldo Noronha, de 80 anos, companheiro do primeiro treino dele em São João.
Antes do Sanjoanense, Bellini havia vestido a camisa do Itapirense, time da cidade natal, Itapira. O sotaque diferente, com pronúncia acentuada de algumas consoantes, despertava gozações da turma. E sua divisão de tarefas provocava curiosidade: jogador de futebol e barbeiro.
Foram míseros três meses numa barbearia que não existe mais. Para trabalhar lá, o rapaz precisou até que um alfaiate lhe fizesse uma calça nova. O responsável pelo traje foi Claudionor Sibila, que se tornaria um grande amigo.
- Principalmente aos sábados e domingos, nos sentávamos no banco da praça e conversávamos. Depois, íamos ao cinema atrás da igreja. E ao bar do Enéas, famoso. Mas o Bellini não bebia nada. O Mauro gostava mais - diz o alfaiate de 84 anos, ainda em ação na máquina de costura.

Homenagem do Sanjoanense a Bellini e Mauro dentro do clube (Foto: Alexandre Lozetti/GloboEsporte.com)
O LÍDER
Como pode um sujeito tão tímido ter sido líder da seleção brasileira? É a questão que povoava o cérebro dos habitantes de São João da Boa Vista. O fato é que, dentro de campo, seu jeito tímido se transformou numa seriedade que impunha respeito e medo nos adversários e parceiros, até mesmo os mais nobres.
Antonio Carlos de Oliveira, popular Leivinha, historiador da cidade, diz que o legendário Nilton Santos o elegeu capitão ainda no vestiário da Seleção. E Bellini não se fez de rogado, aceitou. Sibila, o alfaiate, se diverte ao puxar a própria orelha e relembrar o gesto que o amigo repetia a Pelé quando o Rei passava dos limites de sua habilidade na Copa de 1958.

Leivinha, historiador da cidade e amigo de Bellini (Foto: Alexandre Lozetti/GloboEsporte.com)
- Ele olhava pro Pelé e puxava as orelhas. Botava todo mundo na linha. O Pelé morria de medo dele (risos).
O que pouca gente sabe é que a carreira do capitão poderia ter sido diferente, não fosse a interferência de dois personagens quase anônimos: Eleutério Pomeranzi foi o técnico do Sanjoanense que o convenceu, a duras penas, a se transformar de lateral-direito em zagueiro. E o Dr. David, diretor do clube que estudava medicina no Rio de Janeiro, voltou a tempo de evitar que a transferência para o Palmeiras, já acordada, fosse sacramentada. Ele trouxe uma proposta bem mais lucrativa do Vasco.
O interesse de grandes clubes era o reconhecimento ao seu futebol, mas principalmente à sua postura. Em vez de lateral do Palmeiras, foi zagueiro do Vasco. E de lá para a imortalidade.

Estádio do Sanjoanense, onde Bellini e Mauro jogaram quando jovens (Foto: Alexandre Lozetti/GloboEsporte.com)
O GALÃ
Aos 21 anos, o jovem deixou São João da Boa Vista e dezenas de mulheres desiludidas. Nem mesmo os homens se controlam quando se lembram do quanto Hideraldo era bonito. É como se juntasse a timidez de Messi e a aparência de Cristiano Ronaldo, com direito a gel no cabelo. Só não tinha telão...
Mas tinha namorada: Diva Asad, uma bela jovem de traços árabes que estudava no colégio de freiras com uma das melhores amigas do jogador, Lucila Martarello, compositora do hino da cidade. Da janela, era possível ver a república onde Bellini morava. As moças, ouriçadas, marcavam hora para abanarem mãos e lenços para ele. Até o dia em que Diva se exaltou.
- Ela não tinha nada para abanar, então tirou o saiote e balançou. Ficamos lá na varanda e, quando olhamos para trás, estava a freira. Ficamos todas de castigo - relata Lucila, que, faça-se justiça, se recusou a citar o nome da amiga Diva, já falecida. Ela foi "entregue" pelo alfaiate.
Diva era tão ciumenta a ponto de ter invadido a concentração na capital paulista para dar uma surra numa cantora que insistia em paquerar Bellini, já na capital. O namoro terminou graças ao pai da moça, que proibia relacionamentos com jogadores de futebol. Eles eram discriminados na época. O mundo dá voltas...

Bellini e jogadores antes de embarcarem em excursão do Sanjoanense pelo interior (Foto: Arquivo Pessoal/Leivinha)
Bellini vivia cercado de musas. Quando desembarcou no Brasil, com a Jules Rimet nos braços, um dos primeiros beijos que ganhou foi da então miss Adalgisa Colombo. O registro feito pela revista "O Cruzeiro" está impecavelmente conservado na alfaiataria. Um trecho da legenda mostra o preconceito contra atletas: “...o porte elegante num amassado terno de viagem. Não parecia um jogador de futebol”.
O zagueiro não tinha só uma namorada. Tinha também uma “namolada”. Era assim, de forma infantil e carinhosa, que ele tratava Maria Cristina, sobrinha de Lucila e filha do seu Nildes, um dos diretores que o levaram ao Sanjoanense. Sempre que ia à cidade, Bellini se hospedava em sua casa. A menina tinha sete anos quando ele chegou do Mundial, campeão, e lhe trouxe uma roupa de lã de presente.
- Ele me chamava de “minha namolada” porque estávamos sempre juntos. Minhas amigas todas vinham à minha casa para vê-lo. As mulheres levavam flores para minha mãe, mas, no fundo, queriam ver o Bellini. Era um moço muito bonito e se tornou um velho bonito. Tem velho que desmancha. Ele não.
Em 1963, o belo matuto conheceu Giselda, com quem se casou e viveu até o fim. Desde então, já deixara viúvas aos montes.

Bellini, agachado, junto a outros companheiros do Sanjoanense (Foto: Arquivo Pessoal/Leivinha)
O AMIGO
A mistura de responsabilidade, liderança e personalidade reclusa o tornou figura admirada, confiável. Sentimentos que cresceram em São João da Boa Vista quando, mesmo aclamado pelo mundo, Bellini manteve laços com a cidade. Já zagueiro do Vasco e da Seleção, ele retornou logo após a Copa de 1958 para descansar por 15 dias.
Mal podia imaginar que o local se transformou por sua causa. São João não viu seu gesto ao vivo, mas ouviu e comemorou muito.
- Na época não havia televisão, então ouvimos todos juntos em volta do rádio. Era dia da minha primeira comunhão. Meu pai se emocionou tanto, chorou, fomos para a calçada ver o foguetório - lembra-se Cristina.
- Comemoramos até a alta madrugada - confirma Ronaldo, que teve o privilégio de ver o amigo chegar à cidade da janela de seu escritório.
Imagine o capitão da Seleção caminhando pelas ruas da cidade após levantar a Copa do Mundo. Ronaldo estava no Banco do Brasil quando observou do alto o zagueiro cercado de crianças andando pela praça. No roteiro de visitas estava, evidentemente, o Sanjoanense. Bellini chegou, vestiu a camisa da equipe e tirou foto com uma criança de seis anos que vestia o uniforme do Brasil. Era Leivinha, justamente o responsável por reunir suas memórias tantos anos depois.
- Guardo a foto com o maior carinho. Depois, ele voltou ao clube quando eu já tinha 17 anos para enfrentar uma equipe do rádio pela seleção sanjoanense. Ele nunca se esqueceu daqui.
Na verdade, se esqueceu. De tudo. Lucila, a velha amiga, encontrou Bellini nas bodas de ouro de seu sobrinho. Foi cumprimentá-lo com euforia e saudade, e recebida com desdém. O Alzheimer já agia.
- Fiquei muito assustada. Ele foi seco, sério. Depois soubemos que ele estava doente. Foi uma pena.

Bellini e Mauro estiveram juntos em vários encontros em São João da Boa Vista (Foto: Arquivo Pessoal/Leivinha)
A DUPLA
Das histórias mais curiosas do futebol. Menos de três meses separaram o nascimento de Bellini, mais velho, em Itapira, do de Mauro, em Poços de Caldas, interior de Minas Gerais. Bellini substituiu Mauro no Sanjoanense e no São Paulo. Mauro substituiu Bellini como capitão da seleção brasileira. Ambos levantaram a taça Jules Rimet. Os dois participaram do bicampeonato mundial, em 1962. Mas nunca, jamais atuaram juntos, como parceiros de zaga.
Em 1962, o técnico Aimoré Moreira trocou Bellini por Mauro durante a vitória do Brasil por 2 a 1 sobre Portugal, no Pacaembu. Três anos depois, Vicente Feola repetiu a substituição no empate por 2 a 2 com a União Soviética, no Maracanã. Um capricho.

Bellini, no Vasco, e Mauro, no São Paulo, no jogo em que se conheceram (Foto: Arquivo Pessoal/Leivinha)
Os defensores despontaram no Sanjoanense. Mauro foi de lá para o São Paulo após anular Leônidas da Silva num amistoso durante a pré-temporada tricolor. Bellini partiu rumo ao Vasco. Quando paulistas e cariocas se enfrentaram, em 1952, o jornalista de São João da Boa Vista, Ito Amorim, os apresentou no gramado do Pacaembu. Teve início uma amizade eterna.
- Eles não se largavam e jamais houve rivalidade, mesmo com a passagem da faixa para o Mauro, que praticamente se escalou na Seleção em 1962. Sempre questionaram os dois sobre isso. Em 62, o São Paulo contratou o Bellini para fazer dupla com o Mauro, terem dois campeões mundiais, mas o Santos levou o Mauro e impediu, mais uma vez, que eles jogassem juntos - diz o historiador Leivinha.
Do início dos anos 80 ao fim dos 90, os heróis frequentaram o encontro de amigos em São João da Boa Vista. Reunião que minguou nos últimos anos em razão da elevadíssima faixa etária dos participantes. A maioria já faleceu. Era uma festa. Perguntas, fotos, churrascos e cerveja, mas só nas mãos de Mauro. Bellini manteve o hábito.
Admiração à parte, não há um sujeito que tenha visto os dois e ache Bellini melhor. É consenso: Mauro foi superior. Mas o matuto foi mais aguerrido.
- Eu encerrei minha carreira aos 23 anos para ser alfaiate. Eu não era bom. Mas se o Bellini podia jogar, eu também podia. Já o Mauro, esse era bem melhor que nós (risos) - analisa Sibila.
Inseparáveis fora de campo, nunca juntos dentro dele, Bellini e Mauro estão à beira do gramado da Esportiva, dos velhos Tigres da Mogiana. Eternizados num desenho que faz alusão à Jules Rimet. Dentro desse cantinho em São João da Boa Vista, cabe o mundo.
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