Tarefa árdua é manter a imparcialidade e fazer predominar a razão quando o tema - futebol - é pura paixão e quando o assunto - a aposentadoria de Rogério Ceni - envolve o adeus ao último grande ídolo do esporte no Brasil. Quando o goleiro adentrar o túnel do vestiário do Morumbi pela última vez e apagarem-se os refletores do estádio, os brasileiros terão se despedido do único jogador ainda em atividade que esteve, durante toda a carreira, atrelado a um clube e a uma torcida.
Será apenas pela história que as gerações futuras saberão do tempo em que jogador vestia a camisa de um time por algo que vale mais do que os milhões que caem todo ano em suas contas bancárias. É contra todos os argumentos do coração, portanto, que os fatos sentenciam: é chegada a hora do mito pendurar suas luvas.
Diante dos maus resultados do São Paulo Futebol Clube este ano, muitos engrossaram o coro de "aposenta, Rogério", chegando a responsabilizá-lo pela crise que quase acabou em rebaixamento. O arqueiro, nas últimas partidas, calou a boca dos críticos, fechando o gol tricolor. Mostrou, também, que seu casamento com o time é verdadeiro, sincero, no amor e na dor, na saúde e na doença, pois muito cômodo seria abandonar os gramados após o título da Copa Sul Americana do ano passado; quem ama de verdade, porém, joga no sacrifício e arrisca sua vitoriosa carreira pra salvar a equipe da queda.
Mas esta temporada mostrou, ainda, que Rogério faz cada vez mais força pra continuar sendo Rogério. Ele, que certa vez afirmou, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, que "bom goleiro não é aquele que pega bolas impossíveis, mas sim o que pega todas as possíveis", tornou-se sua própria contradição e é hoje o atleta que opera milagres debaixo das traves ao mesmo tempo em que comete falhas que seriam inconcebíveis anos atrás - e estamos deixando a série de quatro pênaltis perdidos de fora. Os anos passam e a regularidade, sua marca registrada, está cada vez mais distante de suas atuações.
Retomando o amor do jogador por seu clube, a história recente está repleta de casos de esportistas que, apaixonados por seu trabalho e pela agremiação que defendiam, tornaram-se vítimas de sua própria obsessão - Michael Schumacher, na Fórmula 1, teve um vergonhoso retorno às pistas e quase manchou sua biografia; Marcos, do Palmeiras, enfrentou uma série de momentos embaraçosos antes de reconhecer que seu físico não o permitia mais entrar em campo; e Romário, um gênio dentro da área adversária, teve uma patética despedida dos gramados, perseguindo uma marca que nada acrescentaria à sua carreira (viu, Túlio?) e acumulando as funções de técnico e jogador no Vasco da Gama. Que não seja este o caminho escolhido por Rogério Ceni.
Se a aposentadoria de Rogério pode ser saudável para a biografia do jogador, será ainda mais para o São Paulo Futebol Clube. Há tempos o futebol brasileiro não produz uma safra de goleiros com grande potencial e são bastante restritas as opções do mercado, o que torna ainda mais difícil a procura pelo substituto do ídolo.
Nomes como o de Júlio César pipocam pela imprensa, mas o provável é que o reserva Dênis, já com alguma experiência e com boas atuações no currículo, herde a camisa 1 são-paulina. Se a troca é inevitável, que seja feita antes mais cedo do que tarde demais, para que o time tenha tempo para se entrosar e que Dênis adquira ritmo de jogo até o início das grandes disputas do São Paulo em 2014, após a Copa do Mundo, que podem recolocar a equipe na sua competição predileta, a Copa Libertadores da América.
É preciso considerar, por fim, que 2014 é um ano decisivo para o tricolor. As últimas eleições do clube foram conturbadas, mas este processo eleitoral promete ser o mais disputado, com reais possibilidades de vitória da oposição. Inclusive por já ter manifestado interesse em uma atuação política dentro do São Paulo, no ano que vem Rogério Ceni pode ser mais decisivo para o time atuando nos bastidores do que dentro das quatro linhas, quem sabe credenciando-se como um futuro candidato à presidência.
Que descanse o mito, repousando em sua coleção de títulos e seus recordes pessoais.
Os números impressionam, mas não são tudo, nem mesmo a parte mais importante: Rogério é goleiro, e seu valor se mede principalmente por sua atuação debaixo das traves; Rogério é capitão, e sua capacidade é expressa pela liderança que exerce dentro do elenco. Graças a ele, jovens torcedores foram colocados em pé de igualdade com seus pais, tios e avós que, nostálgicos, relembram o Palmeiras de Ademir da Guia, o Corinthians de Rivelino, o Flamengo de Zico, o Santos de Pelé. São-paulinos como este que lhes escreve viram, e para sempre guardarão na memória, o São Paulo de Rogério Ceni.
A defesa final de Rogério Ceni
Último Grande ídolo Do Futebol Brasileiro Deve Confirmar Sua Aposentadoria
Fonte Yahoo
12 de Novembro de 2013
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