Cada um com quatro lugares reservados no auditório.
O São Paulo preencheu dois deles com membros de suas comissões técnicas - os outros dois ficaram vazios. Até poderiam ter sido ocupados por um representante de sua diretoria que compareceu ao local, mas preferiu ficar sentado nas últimas filas. Entre os demais dirigentes, a impressão foi de que tentavam mais uma vez se esconder após as acusações de aliciamento que resultaram num boicote na Taça BH e na Copa 2 de Julho, no primeiro semestre.
Na última semana, novos casos voltaram a surgir envolvendo o clube. Uma das medidas avaliadas é um boicote na maior competição do calendário da categoria, a Copa São Paulo, e até mesmo devolver na mesma moeda, conforme ameaça o rival Corinthians.
"Eles querem esse jogo? É esse jogo que vai ser jogado. Se me interessar um jogador em Cotia, vou assediar e vou trazer", promete o diretor de futebol de base alvinegro, Fernando Alba.
A transferência do goleiro Lucão, um dos destaques da Ponte Preta na Copa Brasil Sub-17, desencadeou mais uma revolta no mercado. O atleta convocado para a seleção da categoria teve ofertas formais de Cruzeiro e Corinthians negadas, estava pronto para fechar contrato e sumiu antes de sua assinatura, se apresentando diretamente em Cotia. Ao tomar conhecimento do destino do atleta, o gerente executivo do futebol de base Pedro Zalla notificou os outros times.
"Os presidentes já se falaram na época que o São Paulo tentava a contratação do Cicinho (hoje no Santos), mas eles respondem que não sabem bem, se fazem de desentendidos", afirma Zalla ao ESPN.com.br. Não é a primeira vez que a equipe sofre com o tricolor - no começo do ano, três atletas dos infantis foram levados. Portuguesa e Vitória também reclamam de assédio.
"O que chateia é que o São Paulo não deveria precisar disso. Mas, não, precisa mostrar a sua força, como se necessitasse se afirmar e não necessita. A BH foi um bom início, mas eles desdenharam um pouco", analisa o gerente de divisões de base do Fluminense, Fernando Simone.
Em seu contrato, a revelação do time campineiro teria multa de 10 milhões de euros para o exterior
O gerente de futebol são-paulino Gustavo Vieira de Oliveira foi procurado pela Ponte, porém, argumentou que responde apenas pelo profissional. O passo seguinte foi ir ao Morumbi, no confronto entre os clubes, e bater na porta do vestiário atrás do diretor das categorias de base Marcos Tadeu. Ausente, ele explicou no dia seguinte, por telefone, que acabara de reassumir o cargo e conversaria com Juvenal Juvêncio.
Em contato com um dirigente tricolor, o ESPN.com.br ouviu que Lucão já havia sido oferecido ao clube cinco anos atrás e que vinha sendo observado desde então. Existe internamente a convicção de que o caso não configura aliciamento.
Com salários em torno de R$ 5 mil e pagos religiosamente em dia, o São Paulo consegue fisgar os garotos principalmente por conta de toda a estrutura que oferece em seu centro de treinamento, com bolsas de estudo em escolas particulares, cursos de idiomas e até mesmo alojamento com ar condicionado, TV a cabo e internet sem fio. O encantamento de atletas e familiares é rotineiro.
O assunto ferve nos bastidores e chega até mesmo à CBF, que, conforme mostrado ontem pelo ESPN.com.br, vem provocando a insatisfação dos clubes ao realizar períodos de treinos de suas seleções em Cotia, facilitando supostamente o acesso são-paulino aos garotos.
Boa parte dos clubes já conta com a chancela de seus respectivos presidentes para tomar uma posição mais forte contra a equipe do Morumbi. "Querem tornar o São Paulo um Real Madrid ou Barcelona para acabar com o resto, mas não vamos permitir que façam isso. O (Alexandre) Kalil já me autorizou a sair das competições em que estejam presentes", diz o gerente de base do Atlético-MG, André Figueiredo.
"Não tem outro caminho de diálogo. Se não contamos, não tem o que fazer. A não ser que a CBF interviesse, mas pelo contrário ela leva para Cotia para eles ‘roubarem'", completa o coordenador de categorias de base do Vitória, João Paulo Sampaio.
O próximo encontro dos dirigentes da base será realizado em novembro, em Porto Alegre, mas uma articulação já está sendo feita através da internet para anunciar novas medidas.
A reportagem do ESPN.com.br esteve em contato com o São Paulo desde a semana passada e recebeu do clube a informação de que não irá se manifestar.
O goleiro Lucão se transferiu para o São Paulo somente após a convocação