Metodologia de jogo de Carlos Biachi época do Boca. (Texto super-longo)
Apelidado de “Mr. Libertadores”, endossou a alcunha através dos títulos conquistados com o Boca e a sua sapiência para esmiuçar, em detalhes, o estilo de jogo dos seus adversários. Um autêntico mestre da tática que tinha em mente cada passo que seus jogadores poderiam dar em campo e, estudioso de sempre, definia de forma meticulosa as funções que desempenhariam em campo.
Bianchi já era um velho conhecido dos brasileiros em função da conquista alcançada com o Vélez Sársfield em 1994. Naquele ano, o seu time bateu o até então bicampeão São Paulo na final realizada no estádio do Morumbi. Mas, para os que gostam de futebol, foi em 2000 que “El Virrey” ganhou ainda mais notoriedade ao levar o Boca Juniors ao título da Libertadores que não vinha desde 1978.
Foi preciso blindar o time para alcançar voos mais altos. Defender bem e atacar em velocidade foi o esquema adotado por “Pelado”. Seu discernimento da situação fez com que a sua equipe voltasse a ser temida – principalmente fora de casa. Bianchi demonstrou ser ávido por vitórias e ter consciência de que somente bons jogadores não renderiam ótimos resultados. Seria preciso ampliar sua sabedoria tática e alocar com perfeição suas funções estratégicas.
O esquema encontrado para dar mobilidade e corpo ao time não era de total desconhecimento por parte dos brasileiros. Em contrapartida, as designações dentro de campo e a capacidade individual de cada atleta foram essenciais para a conquista da Libertadores de 2000.
As nuances daquela campanha foram finamente adequadas ao esquema adotado. Seria preciso gentrificar [enobrecer> a entidade Boca Juniors para o caminho das glórias. O time começou a ser moldado ao vencer o torneio Clausura e o Apertura de 1999. Tudo pronto para a guerra.
O ESQUEMA
A adequação/entrosamento dos atletas, misturados às necessidades dentro de campo, fizeram Bianchi utilizar o 4-3-1-2. O posicionamento base dos jogadores dependia dos vários condicionantes, dentre eles o 4-4-2 na hora de defender. Eram duas linhas ferrenhas compostas por quatro jogadores e a compactação era rápida.
Este time tinha como característica o rápido ataque e, principalmente, as movimentações dinâmicas. Não existia um ponta fixo, mas sim a troca constante de posicionamento dentro da partida.
DEFESA
Como antes citado, a equipe se defendia no 4-4-2 britânico (duas linhas com quatro jogadores). Tendo esse padrão, a pressão era intensa para recuperar a bola rapidamente e, sendo assim, pegando o adversário nos contragolpes. O nascedouro do ataque era justamente a boa colocação na hora de defender.
Os laterais Ibarra e Arruabarrena pouco iam ao ataque para dar maior segurança à zaga. A segunda linha com quatro jogadores contava com Battaglia (que pegava, geralmente, o lateral) e Basualdo (dinâmico, pressionava o adversário até que fosse induzido a errar o passe). Para atender à necessidade do esquema, precisavam ter habilidade e condições técnicas de atuar pelas faixas laterais.
Espaços fechados traziam segurança maior aos zagueiros Bermudez e Samuel. Já Traverso era o homem que pressionava para dar o primeiro bote. Os extremos fechavam os lados, a cobertura estava postada e as linhas de passe do adversário eram interceptadas em função da pressão, pelas costas, ao jogador que estivesse com a bola. Dependendo do adversário, eram Riquelme e Battaglia quem marcavam os extremos. Esta era a hora de adentrarem na partida fazendo a contenção.
Os espaços estavam totalmente preenchidos e as linhas de defesa bem próximas. O adversário teria de optar por abrir as jogadas ou partir para o lance individual. Com a forte marcação, o time se acostumou a desarmar o oponente. Estava na hora de sair para o contragolpe.
SAÍDA DE JOGO
Geralmente, o zagueiro desempenhava esta função. Bianchi costumava iniciar o seu ataque através de Ibarra. O lateral procurava o apoio de Battaglia. Enquanto isso, Traverso e Basualdo ficavam postados na guarnição aos zagueiros em caso de perda de bola.
Manter a posse de bola era uma das características desse Boca em 2000. Se a saída pela direita não obtivesse sucesso, a paciência para girar o jogo e encontrar Basualdo deveria ser ímpar. O médio receberia e entregaria a bola para Riquelme organizar as melhores alternativas. O 4-4-2 já começava a ser remodelado e o 4-3-1-2 entrava em ação.
Caso o adversário marcasse os médios, a solução seria tentar encontrar, através dos passes longos, a alternativa para sair com a bola. Através dessa aplicação, os lados de campo começavam a dar “frutos” e os espaços apareciam. Muitas vezes, Battaglia e Basualdo tiveram campo para jogar e fazer os cruzamentos para Palermo e Schelotto. Esses cruzamentos foram a arma deste time, principalmente na final diante do Palmeiras.
CARRILEROS
São os volantes que caem pelos lados do campo, neste caso, Battaglia e Basualdo. Os dois precisavam ter um preparo físico invejável para se enquadrarem à proposta de Bianchi.
A orientação era a de marcar e sair para o jogo de forma ofensiva pelos lados e, sendo assim, abrir espaços para que Riquelme flutuasse de um lado para o outro, fazendo a bola girar. A criatividade deveria estar impregnada para a bola poder chegar à linha de fundo. Combinação perfeita para um time como o Boca, com laterais mais presos. Dessa forma, eram os carrileros que adotavam a postura aberta.
Na retomada da bola, fincavam o posicionamento pelos flancos. Porém, se o adversário recuperasse a gorducha, lá iriam eles, recompondo e voltando como volantes, pelo meio. A função pedia que fossem bons passadores e chutadores de média distância e demandava profundidade na hora em que saíam pelo meio e entravam em diagonais pelos lados.
ENGANCHE
Equivalente ao armador no basquete ou o levantador no vôlei. O dono desta função era Riquelme. O camisa 10 cadenciava o jogo no momento em que precisasse inverter as jogadas com calma. Porém, com espaço, introduzia-se em diagonal e procurava Battaglia ou Basualdo para trocar passes curtos e encontrar o caminho para os cruzamentos. O 4-3-1-2 permitia que Riquelme tivesse total liberdade para isso.
Em plena forma física, Román dava dinamicidade ao time. Caso os flancos estivessem marcados, a solução seria entrar em diagonal e buscar Schelotto, que saía mais da área. Diante desse cenário, a zaga iria para o embate e abriria espaço pelas laterais. Acontecendo isso, o enganche encontraria o apoiador e entraria, por trás da defesa, como elemento surpresa, chegando em GOL de forma famigerada. Ou então a bola seria cruzada para dentro da área em busca do seu finalizador: Palermo.
Era o enganche quem fazia as jogadas individuais e procurava o drible como forma de desmontar a zaga adversária. Além disso, teria o controle da posse de bola, organização de jogo, movimentação voraz e rápida e chegada em GOL.
O 4-3-1-2
Se procurarmos nos alfarrábios [livros velhos, ou há muito editados, e que têm valor por serem antigos> do futebol tático argentino, a resposta poderá ser encontrada em vídeos e reportagens. O esquema virou algo padrão nas equipes da década de 1960. Bianchi, como ex-jogador, sabia disso. Tanto que o time do Vélez, em que ele atuou, tinha esse modelo como padrão. Claro, com algumas inversões.
Não é o melhor esquema do mundo e não pode ser executado com primazia sem ter as peças ideais para realizá-las. No caso dos Xeneizes, foi suntuoso e de acordo com as características dos jogadores.
Este esquema em losango foi adotado para que o Boca obtivesse sucesso com o ressurgimento dos carrileros e a dinâmica dada ao enganche. Sem esquecer, é claro, do atacante (Schelotto) que dava opção de passe.
O time campeão da Libertadores em 2000 era aplicado na marcação, rápido na saída de bola e mortal nos contragolpes. A movimentação era extremamente intensa e buscava a objetividade. Graças a tamanha aplicação, os argentinos ainda venceram o Real Madrid na do mundial de clubes.
Já em seu retorno, Pelado utilizou o 4-4-2 no campeonato argentino. Pouco a pouco, o 4-3-1-2 será aplicado. Se vai dar certo ou não, só o tempo dirá. Mas quem duvida da capacidade de Carlos Bianchi?
CAMPANHA DE 2000
Primeira fase
23/02 – Blooming (BOL) 1 x 0 Boca Juniors
02/03 – Boca Juniors 2 x 1 U. Católica (CHI)
16/03 – Peñarol (URU) 0 x 0 Boca Juniors
22/03 – Boca Juniors 6 x 1 Blooming (BOL)
12/04 – U. Católica (CHI) 1 x 3 Boca Juniors
19/04 – Boca Juniors 3 x 1 Peñarol (URU)
Oitavas-de-final
03/05 – Nacional (EQU) 0 x 0 Boca Juniors
09/05 – Boca Juniors 5 x 3 Nacional (EQU)
Quartas-de-final
17/05 – River Plate (ARG) 2 x 1 Boca Juniors
24/05 – Boca Juniors 3 x 0 River Plate (ARG)
Semifinal
31/05 – Boca Juniors 4 x 1 América (MEX)
07/06 – América (MEX) 3 x 1 Boca Juniors
Final
14/06 – Boca Juniors 2 x 2 Palmeiras (BRA)
21/06 – Palmeiras (BRA) (2) 0 x 0 (4) Boca
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