Itaqueirão: tudo que aconteceu e que a imprensa não quiz falar.

Itaqueirão: tudo que aconteceu e que a imprensa não quiz falar.

milicotricolor

A obra é grandiosa. Os R$ 500 milhões de dinheiro público ajudaram. Levou imponência a uma área muito carente da cidade. Isso ninguém discute. O que não aceito é a maneira como o estádio nasceu. Vou falar sobre o estádio em si. Fui pela primeira vez na quarta-feira, no reconhecimento da arena pela Seleção e pela Croácia. Foi assustador. Vários operários trabalhavam cobrindo com lonas gigantescas as arquibancadas móveis. Na calçada ainda havia cimento fresco. Vi um casal de namorados escrevendo seus nomes e desenhando um coração. Ao meu lado havia uma equipe japonesa de televisão. O câmera careca só olhou para mim e balançou a cabeça de reprovação. Me senti o próprio Andrés Sanchez. Tentei achar uma desculpa, mas não consegui.

No caminho até a sala de imprensa, muito barulho. Eram empilhadeiras transportando lonas e mais lonas. Parecia que chegava para um circo. Essa lonas serviam para ''envelopar'' o estádio como um todo. Não só as arquibancadas móveis. Era evidente que havia vários pontos a terminar.

Sento em uma das bancadas e instalo o meu computador. Comecei a ouvir gemidos e não entendia o motivo. Bastou fazer a conexão e entendi. Havia cabos e wi-fi. Nenhum dos dois com sinais estáveis. Caíam constantemente. Fotógrafos são sempre os mais estressados em grandes coberturas. E deles saíam os palavrões mais constantes. Um alemão à minha frente ficou vermelho de raiva. Procurou os funcionários da Fifa e gritou, xingou, sambou. Não falo alemão. Só entendi Brasil e alguns palavrões. Ao retirar o seu computador olhou para mim e bufou. Outra vez me senti o responsável.

Houve a coletiva sem problemas. Daí chegou a hora de subir ao nono andar acompanhar o treinamento. Éramos em 18 pessoas. O elevador travou. Simplesmente parou entre o terceiro e o quarto andar. O ascensorista olhou para nós e disse: "Tem sido assim o dia inteiro. Gente relaxa." Um espanhol entendeu o relaxa. Foi a vez dele começar a xingar a tudo e a todos. Quando o elevador voltou a funcionar, o ascensorista avisou. "Gente, vamos fazer o seguinte. Não vamos deixar ninguém entrar. Aí talvez chegue sem travar." Foi o que aconteceu. Como o elevador foi parando de andar em andar, passamos a impedir as pessoas de entrar. Foram barradas mulheres, um deficiente físico, e muitos repórteres. Dois holandeses na porta se comportavam como leões de chácara, irritadíssimos. Ninguém passava por eles.

O elevador deu vários trancos. Mas conseguimos chegar ao bendito nono andar. Instalei o meu computador e comecei a escrever sobre Neymar. Quando de repente começou a ouvir um zumbido irritante. E não acredito no que vejo. Funcionários no alto das arquibancadas móveis. O que eles faziam? Esmerilhavam e soldavam o piso de alguns lugares. Que ficavam no alto, perto do meu nono andar. Não era possível! A um dia da abertura da Copa do Mundo e as arquibancadas sendo soldadas.

Escrevo a matéria e resolvo dar uma volta no estádio. Percebo que o cimento prevalece em várias lanchonetes e banheiros evidentemente inacabados. A água das torneiras e das descargas estão fortes demais. E sinto a iluminação de alguns setores ser mais fraca do outros. Tudo muito estranho. Não sou especialista, mas fiquei preocupado.

Chega a quinta-feira dia 12 de junho. Dentro do ônibus da imprensa percebo que as manifestações ficarão mesmo longe do Itaquerão. Há várias barreiras de policiais preparadas para impedir qualquer protesto. Em uma delas, nosso ônibus é parado. E entra um soldado com a mão perto do revólver. Pede para ver a credencial de todos os jornalistas no veículo. Sua atitude é intimidadora. Quer ter a certeza que não há nenhum infiltrado. Assim que ele sai do veículo, repórteres italianos e espanhóis ligam para suas redações. Entendo o que dizem. Estão chocados, dizendo que o Brasil está pior do que na ditadura.

Assim que chego ao estádio percebo. É balela a ameaça da Fifa. A que impediria os ambulantes de venderem qualquer coisa perto do Itaquerão. É uma farra. Pernil, hot dogs, coxinhas, empadas. Muitas cervejas. Nenhuma da patrocinadora oficial da Copa. Soldados da Polícia Militar e do Exército não se importam com a farra dos ambulantes. As pessoas comiam e bebiam, inclusive, álcool há menos de 800 metros do estádio.

O engraçado é que encontro jornalistas comendo. Pergunto o motivo. Na lanchonete reservada aos centenas de repórteres e fotógrafos do mundo todo só há dois caixas. A fila é imensa, gigantesca. Mas há outra razão. Essa pior ainda.

Um dos canos de um dos banheiros masculinos do centro de imprensa estourou. Logo me lembrei da água forte demais nas descargas de quarta feira. O banheiro fica bem na direção da lanchonete. O cheiro de urina é insuportável. Jornalistas de todo o planeta passam tapando o nariz. Os funcionários não sabem o que fazer. Desta vez ganho o olhar feio de um repórter indiano, veterano de Copas. Como se a culpa outra vez fosse minha.

Outra vez a Internet está com problemas. Desta vez mais lenta do que quarta-feira. Não acredito. A minha placa de 4G me salva. Vejo vários outros jornalistas usando o mesmo recurso. Abandonando os cabos e wi-fi do Itaquerão.

Subo na minha posição para acompanhar ao jogo. Percebo que entre os locais da imprensa fios expostos de iluminação. Como as bancadas são provisórias, não houve interesse ou tempo de cobri-los. A conexão está um pouco melhor.

Antes de começar a partida, temos a notícia. Não há luz alguma no setor vip. Onde as pessoas pagaram os ingressos mais caro. E também faltam água e comida nas lanchonetes. Muita gente reclamando. Repórteres argentinos riem da situação que encontraram. Pessoas com ingressos passando muita raiva. Não havia cadeiras nos lugares que compraram. Tiveram de sentar no cimento. Outros viram ao jogo em pé, o que é proibido pela Fifa. Uma repórter carioca alerta que viu torcedores com garrafas de cerveja na mão. De vidro. O que é absolutamente proibido.

Continuo a acompanhar a partida. Quando começam a dar panes nos refletores. Todos os jornalistas começam a olhar assustados. Será que haveria um blecaute? Por muita sorte, o jogo acontece durante o dia. Se fosse noturno, seria caótico. Aos poucos o sistema se restabelece. Para cair novamente e depois voltar. Essa é a minha sexta Copa do Mundo. Nunca passei por isso.

Encontro um amigo que veio acompanhar a partida. Ele reclama demais. A loja oficial da Fifa ficou fechada. Ele queria comprar lembranças como se vende em qualquer Copa. Camisetas especiais da abertura do Mundial, entre Brasil e Croácia. Ou mesmo um mero Fuleco. Nada. Tudo fechado. Também foi mais um que, com dinheiro no bolso, passou fome.

A acústica do Itaquerão é sensacional. O local de imprensa fica bem acima dos camarotes onde a presidente Dilma estava. E não tinha ela não ouvir a torcida xingá-la por quatro vezes. O coro foi ensurdecedor. Dava para ver que os mais exaltados a ofendiam e e faziam gestos obscenos para ele. Não se importando se ela estava com a filha. Ela estava encolhida na última fileira do camarote. A cena era lamentável, chocante. Desrespeito inaceitável para uma chefe de Estado. Os seguranças do estádio foram omissos e nada fizeram.

Termino a primeira aventura no Itaquerão na zona mista. Entrevistando os jogadores da Seleção. Quando terminam de passar, percebo a chegada de Andrés Sanches. O responsável pelo Itaquerão. Ele queria avisar à imprensa que a Croácia havia deixado muito sujo o vestiário, após a derrota. Olha para o nosso grupo de jornalistas paulistas e prefere não chegar perto. "Aí tem muitos bandidos'', provoca. Um do grupo se aproxima dele e ouve. "Não vou falar nada, porra. Vocês já disseram que tudo está uma merda. Teve apagão e o cacete. Mas pelo menos escreve que nenhuma arquibancada caiu. Ninguém morreu. Não vai só reclamar da Internet..." É interrompido. O repórter disse que ele não teve problemas. Andrés levanta as mãos para os céus, irônico. "Graças a Deus. Quer dizer que um coisa funcionou na Arena Corinthians. Menos mal."

A minha impressão é uma só. O estádio será sim ótimo. Quando estiver pronto. A Fifa aceitou o improviso. Com problemas elétricos, hidráulicos, inúmeras obras atrasadas, lanchonetes sem comida, locais sem cadeiras, o estádio do jeito que estava não merecia a abertura da Copa. Só expôs o Brasil ao escárnio de centenas de jornalistas do mundo todo. O Brasil não merecia. São Paulo não merecia. O Corinthians não merecia. Ofereceu um estádio inacabado que nunca foi testado com sua capacidade total.

Deus outra vez mostrou que deve realmente ser brasileiro. E não aconteceu nada de sério. Só uma sequência de vexames que entrará para a história da Copa. A Copa das Copas...

Fonte:http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/

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