Leônidas da Silva, se porventura não é o maior jogador da história do São Paulo, é o maior responsável pelo fato do Tricolor ser um clube grande, como o é, hoje. Contratado a peso de ouro e com toda a desconfiança possível por não jogar havia mais de um ano, Leônidas tomou parte da revolução que transformou o Clube da Fé no Rolo Compressor dos anos 40, o time em que conquistou praticamente tudo.
Carioca, Leônidas nasceu em 6 de setembro de 1913. Hoje completaria 99 anos de vida. O craque faleceu, entretanto, em Cotia - curiosamente o atual berço das maiores jóias e promessas do futebol são-paulino - em 27 de janeiro de 2004.
Em meados de 2010, a viúva do jogador, Dona Albertina, doou ao São Paulo Futebol Clube exemplares da autobiografia do Diamante Negro. Em homenagem ao eterno ídolo, eis a transcrição da passagem da contratação e estreia daquele que consagrou a famosa "bicicleta" e que também se consagrou na história do futebol:
Memórias de Leônidas (XXI)
O São Paulo recebeu-me em triunfo
Faltavam poucos dias para deixar o exército, onde apesar de minha condição, eu construíra novo círculo de amizades. O período em que lá permaneci serviu-me para consolidar a operação a que me submetera, relativa a extração do menisco e ruptura dos ligamentos cruzados do joelho. Estava agora apto a reiniciar as minhas atividades esportivas, com a ajuda, inclusive, de Mário Américo. Apesar das desilusões que tais acontecimentos me provocaram, eu estava com minha consciência tranqüila. [...]
[...] Deixei a Vila Militar, regressando aos meus afazeres particulares e, justamente no dia em que fora visitar os amigos sinceros que lá deixei, ao voltar para casa encontrei a minha espera o meu amigo Silvio Caldas, e os membros da diretoria do São Paulo, Porfirinho, Silvão e Roberto Gomes Pedroza, seu diretor de esportes. Traziam-me a proposta para eu defender o Tricolor Bandeirante, afirmando que, sobre a compra do meu passe, eles já haviam se antecipado, estabelecendo condições com o Flamengo.
Relutei a princípio, pois pretendia seguir em demanda com o clube carioca até alcançar o meu atestado liberatório. Além do mais, temia uma mudança radical na minha vida, e, como é natural, as dificuldades de adaptação de minha progenitora, já idosa. Roberto Gomes Pedroza, também carioca, habilidosamente convencera minha mãe de que essa nova fase em nada mudaria meu prestígio, pois o mesmo ocorrera com ele.
Tricolor
Estávamos em plena Quaresma e, depois de tudo acertado, os representantes do São Paulo distribuíram um noticiário à imprensa que, por coincidência, caiu no dia 1º de abril. Isto provocou uma série enorme de comentários. O São Paulo atravessava nova fase, pois já contratara Luizinho, Waldemar de Brito e outros valores. Uns acreditavam na notícia e outros julgavam que era piada de 1º de abril. Desse modo, deixei o Flamengo, que, entretanto, ganhara outro ídolo, Silvio Pirilo, para ocupar o meu lugar.
Alguns anos mais tarde - vejam a coincidência - ele também foi vítima das ingratidões do clube. Fato curioso: Todos os que foram considerados ídolos no Flamengo, foram também injustiçados, como Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto (que teve sua camisa queimada), Zizinho, Rubens, que o substituiu, e mais recentemente, Gerson e Dida.
Apoteose
Nos primeiros dias de abril, quando aqui vim ratificar o meu compromisso, acompanhado de Silvio Caldas, recebi homenagens apoteóticas do povo paulista, na Estação do Norte. Cerca de 10 mil pessoas aguardaram a minha chegada, carregando-me nos braços. Contam até uma piada de que uma senhora idosa, vendo aquela multidão toda carregando um homem de cor nos braços, dissera: "Será o Benedito?!"
Os jornais, com estardalhaço, noticiavam o quanto custara a minha transferência para o São Paulo: 200 contos de réis! Era realmente uma verdadeira fortuna, quando na época um cafezinho custava 200 réis (20 centavos) e um quilo de carne, mil e quinhentos réis!
Apesar de toda a minha experiência, aquela homenagem calou-me profundamente até os dias de hoje. Sentia aumentar a minha responsabilidade, a fim de justificar a confiança que em mim depositou a diretoria do São Paulo Futebol Clube, cujo presidente era Décio Pacheco Pedroso. Parado há mais de um ano, teria que me desdobrar para atingir a condição atlética necessária e conquistar a platéia paulista, o que em parte se tornou fácil, pois fui muito ajudado pelo incentivo dos diretores do clube, entre os quais estavam Paulo Machado de Carvalho, Virgílio Lemos, Sebastião Paes de Almeida, Porfírio da Paz, José Maria Cabello Campos, Piragibe Nogueira, Cícero Pompeu de Toledo, entre outros os quais peço desculpas por não lhes lembrar o nome.
Diamante guardado no bolso
Firmei contrato com o meu novo clube, instalando-me em São Paulo num apartamento da Rua Vergueiro. Desde o início dos treinamentos, uma luta pessoal se tornou necessária: combater o excesso de peso. Apesar de me encontrar há algum tempo em São Paulo, não conseguia encontrar o meu peso ideal para a estréia. Estava excessivamente gordo. Os treinamentos especiais com camisas e macacões inteiriços de lã, mandados confeccionar pelo clube e outras tentativas semelhantes não foram bem sucedidas.
Apelamos então para o regime alimentar. Uma professora dietética foi contratada pelo clube e só então passei a alcançar os resultados desejados. Iniciei os treinos coletivos com bola, integrando-me no plantel. Minha primeira impressão era a de que havia desaprendido de jogar. A paralisação tão longa das minhas atividades havia me afetado profundamente. Porém, lutava contra todas essas dificuldades, a fim de justificar a minha contratação.
Estilo
Não senti, absolutamente, qualquer descrédito por parte daqueles que assistiam aos ensaios, e muito menos por parte da diretoria, que me dedicava uma atenção toda especial. Apesar de conhecer pouco dos integrantes do plantel, eles demonstravam-me a melhor das boas vontades. Mas, no íntimo, sabia não obstante todo esse interesse e dedicação, que não se tratava apenas de um problema de entrosamento na equipe, mas de outro, qual seja um estilo diferente de futebol, mais rápido talvez devido ao próprio clima.
Lembro-me de que nos treinos, quando eu conseguia livrar-me de um adversário, procurando construir a jogada, via-me novamente acossado por aquele que já havia batido. Isto diz bem a movimentação dos atletas paulistas. Apesar de toda a experiência e bagagem trazidas, cheguei mesmo a descrer da minha recuperação. A esta altura, o clube marchava bem no campeonato, deixando minha estréia para algumas rodadas mais tarde, a fim de que eu ganhasse condições técnicas ideais e estreasse num clássico paulista.
Ambiente
Finalmente anunciou-se o meu aparecimento na equipe, cercado de curiosidade incomum pelo grande público, devido ao destaque que a imprensa dera ao fato. O nosso adversário era o valoroso Corinthians, campeão paulista do ano anterior, que tinha em seu plantel nada mais nada menos do que sete integrantes do selecionado paulista campeão brasileiro de 1941. Eu via, assim, aumentada a minha responsabilidade nesse primeiro compromisso.
O clube procurava salvaguardar-me, antecipando que eu não estava ainda na melhor das condições técnicas, mas que estrearia mesmo correndo o risco de ser mal sucedido, uma vez que somente jogando eu queimaria o excesso de peso, ganhando inclusive mais confiança.
Nosso adversário acreditava, entretanto, que tais declarações fossem um despistamento, pois não concebiam que estando eu aqui há alguns meses não houvesse ainda me recuperado. Era norma, nessa época, quando marcado um clássico, que seus participantes não interviessem na rodada anterior. Preparava-se, assim, uma expectativa maior para o acontecimento.
As concentrações se faziam com quinze dias de antecedências, nas dependências do Estádio Paulo Machado de Carvalho. Apesar do longo tempo de concentração, longe de nossas famílias, quase não estranhávamos, dadas as recreações que nos eram proporcionadas pelo clube: passeios, caminhadas pelo bairro, teatros e circos, além da assistência dos dirigentes, prestada pessoalmente, quando nos traziam revistas, jornais e estímulo. Como vêem os leitores, o ambiente era ótimo.
Estreia
Chegamos às vésperas do clássico que marcava a minha estréia. Nessa madrugada (25 de maio de 1942), despertamos com o vozear tremendo do público que formava fila para a compra dos ingressos, pois os portões só abririam às 10 horas da manhã. Por isso não dormimos bem e, pela mesma razão, o clube transferiu o local da concentração para o bairro do Itaim.
Enfrentamos um adversário que era o de maior expressão na época, uma vez que o São Paulo estava, a esse tempo, reformulando ainda o seu plantel. Mesmo assim, vencíamos até os instantes finais, por 3 a 2, quando cedemos o empate, num gol alcançado por Servílio. Eu não conseguira agradar. Sofrera uma vigilância permanente do consagrado e experiente astro brasileiro José Augusto Brandão, destacado para vigiar-me implacavelmente.
No dia seguinte, os comentários sobre a minha estréia eram os mais desabonadores. Aqui e ali ouvia-se falar no mau negócio que o São Paulo fizera ao contratar-me, pois havia "comprado um bonde por 200 contos de réis". Outras piadas ainda como a de que o meu marcador, o Brandão, havia sido preso porque fora encontrado com um diamante no bolso... Em parte, esses comentários eram perfeitamente justificados, porque eu, realmente, não me encontrava bem. Pela primeira vez me via duramente criticado do ponto de vista técnico.
Se, de um lado, essas críticas me atingiram, certamente serviram-me de estímulo maior, tocando em meus brios de atleta e de homem e fazendo-me reagir para contraria os incrédulos e justificar a confiança dos que me haviam contratado. Mas, se ela marcou um descrédito técnico em minha carreira, não é menos verdade de que também essa estréia me trouxe uma grande alegria pela presença daquela extraordinária torcida no Estádio Paulo Machado de Carvalho, constituindo até hoje recorde de espectadores, pois o público pagante atingiu a 70.218 pessoas!
Não podia deixar de me impressionar profundamente a visão maravilhosa desse aglomerado humano, que de maneira tão vibrante testemunhou a esperança e a admiração a um craque, sentimentos esses de que sou eterno devedor.
Leônidas da Silva
Centroavante
Era considerado, quase por unanimidade, o melhor jogador do mundo dos anos 30 e 40. O São Paulo o comprou do Flamengo, na transação mais cara da história do futebol sul-americano até então, no valor de 200 mil. Por ter passado um período em baixa, naquela época, corintianos e palmeirenses falavam que o Tricolor tinha comprado um bonde por 200 contos. Sua contratação, entretanto, pode ser considerada marco da consolidação do SPFC como time grande. Com Leônidas como estrela maior, o time ganhou cinco campeonatos paulistas em sete anos. Era tão bom que se credita a ele a invenção da bicicleta. Tinha apelidos auto-explicativos, como Homem de Borracha e Diamante Negro. Disputou pelo Brasil as Copas de 34 e 38. Foi o artilheiro desta última com 8 gols.
Jogos disputados pelo SPFC: 211
Estreia: 24/05/1942
Último jogo: 03/12/1950
Gols Marcados no SPFC: 144
Nascimento: 06/09/1913. Rio de Janeiro (RJ).
Títulos conquistados no SPFC: Campeão Paulista de 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949.
Leônidas - 99 anos do Diamante Negro
O maior jogador de futebol brasileiro, antes de Pelé, completaria hoje 99 anos de vida
Fonte Site Oficial
6 de Setembro de 2012
Avalie esta notícia:
8
3
VEJA TAMBÉM
- ONDE ASSISTIR: São Paulo tem duelo decisivo contra o Bahia na briga pelo G4!- São Paulo encerra sua preparação pra enfrentar o Bahia; Confira a provável escalação!
- Flamengo pode liberar Cebolinha de graça ao São Paulo em negociação envolvendo Marcos Antônio
- DE VOLTA: Marcos Antônio tem evolução importante e pode voltar antes no São Paulo!
- Lucro absurdo: São Paulo alcança superávit financeiro multimilionário em 2025