
Leão pagou o pato, mas a persistente crise do São Paulo, agora sob nova direção, mostra que a culpa não era dele. A derrota para o Vasco abriu nova ferida no Morumbi, levou a torcida a xingar o presidente Juvenal Juvêncio e pedir sua saída do cargo, além de chamar o técnico Ney Franco de “Ney Fraco” . Luís Fabiano, principal ídolo do time na ausência de Rogério Ceni, também passou a ser hostilizado e, ao deixar o campo, chegou a cogitar a possibilidade de ir embora do clube.
Enquanto o circo tricolor pega fogo outra vez, Leão assiste a tudo de camarote. Nesta quinta-feira, o ex-treinador visitou a galeria de arte Almeida & Dale, nos Jardins, e, entre quadros de pintores famosos, como Di Cavalcanti, concedeu esta entrevista ao DIÁRIO.
Leão deixou o clube depois de entrar em conflito com Juvenal Juvêncio. Contratado para comandar a equipe nos dois últimos meses de 2011, teve seu trabalho aprovado pelo presidente, que renovou seu contrato até dezembro deste ano. Porém, não resistiu às eliminações nas semifinais do Paulistão e da Copa do Brasil.
Apesar de ter feito boas campanhas, a situação se tornou insustentável devido à ingerência de Juvenal em seu trabalho, a partir do afastamento do zagueiro Paulo Miranda à sua revelia. “O Juvenal não é o presidente. Ele é o dono”, define.
DIÁRIO_ Como você avalia sua passagem pelo São Paulo?
LEÃO_ Os índices do São Paulo melhoraram quando assumi o time. Não sou eu que digo, os números levantados pela própria assessoria do clube atestam isso. Sou o treinador que mais ganhou dentro do Morumbi nos últimos tempos. Fui contratado por dois meses e acabei ficando oito. Dos últimos quatro técnicos do clube, eu fui o que durou mais.
O presidente Juvenal Juvêncio atrapalhou seu trabalho?
Não podia concordar com tudo o que o Juvenal queria impor. Quando me senti violentado por sua tentativa de ingerência, já havia chegado a hora de sair.
Você chegou a aceitar o afastamento do Paulo Miranda. Esse foi o início da crise?
Esse episódio foi próximo de uma ingerência, que só se configuraria, mesmo, se ele mandasse tirar um jogador e determinasse qual deveria ser o substituto. Encarei o afastamento do Paulo Miranda como um ato administrativo, embora não concordasse com a resolução da diretoria. Tanto assim que voltei a escalá-lo tão logo foi reintegrado ao elenco. Mas, ali, deteriorou tudo.
O estilo de gestão do Juvenal, de interferir nos aspectos técnicos, está ultrapassado?
Ele falou que poderia ser um bom treinador e eu lhe disse que ele tinha experiência para isso. O Juvenal não é o presidente do São Paulo. É o dono. A tentativa de ingerência dele foi decepcionante para mim.
Chegou a hora de ele sair?
Pelo tempo que está lá, acho que já teve seu apogeu. Se fosse árbitro, estaria jubilado. Mas ninguém consegue roubar o mérito dele. O São Paulo se tornou um dos maiores clubes do mundo, só que deixou de ser o melhor time faz tempo.
A equipe tem trocado seguidamente de técnico, reformulou o elenco e não consegue sucesso. Onde está o defeito?
Se o problema não era o técnico, nem os atletas, que já foram trocados e ainda assim não deu certo, então deve haver um terceiro problema. Mas não sou mais o técnico do São Paulo para apontá-lo.
Você indicou reforços?
Depois dos dois meses em que comandei o time no fim de 2011, o Juvenal disse que o problema não era o treinador, mas sim o elenco. E resolveu trocá-lo. Vendeu uma porrada de jogadores e contratou outra porrada. Trouxe todos por opinião própria, sem consultar o treinador. Mas não posso reclamar. Desde o primeiro dia, eles avisaram: “Você é isso aqui e acabou”. Só não podia aceitar ser violentado.
E quanto aos jogadores, houve resistência a seu comando?
O jogador que se julga dono da posição e não é escalado sempre vai ter uma rejeição ao treinador. Assim como aquele que era reserva e passou a ser titular sempre vai ter admiração.
Isso deve causar conflitos...
Hoje é muito mais difícil trabalhar com atletas do que antigamente. Na minha época, a gente não discutia hierarquia. Atualmente, se o técnico não escala o jogador, o agente dele já faz pressão na diretoria, diz que vai tirá-lo do clube. A juventude do futebol, às vezes, é difícil. Eles viraram superstars.
Você já acertou as contas com o São Paulo?
Não dei baixa na carteira, não fiz rescisão de contrato. Chamei um advogado porque não quero brigar com amigos. Não quero cobrar um real a mais do que tenho direito. A legislação diz que devo receber 50% do tempo restante de contrato.
Quais são seus planos?
Fiz 63 anos e vou trabalhar mais dois como técnico. Antes de virar diretor executivo de futebol.
Já tem algum convite?
Quando saí do São Paulo, recebi uma proposta por telefone a caminho de casa. Disse que queria dez dias para descansar. Agora tive convite para dirigir um time no Irã, mas, na minha idade, não corro mais atrás de dinheiro. Corro atrás de satisfação.