Bicampeão mundial e da Libertadores pelo Tricolor em 1992 e 1993, o ex-atacante, mesmo após atuar em um palco ainda cheio de falhas por conta dos shows de Justin Bieber e Eric Clapton, ficou convicto de que nenhum dos jogadores que passaram a ser comandados por Emerson Leão merecem vestir a camisa que ele ama - com exceção de Rogério Ceni.
Um bate-papo sobre a atual situação do time se tornou um sincero desabafo de um ex-atleta e torcedor. Começou com as comparações da pressão que o time pode receber nesta quarta-feira, em Assunção, contra o Libertad pela Copa Sul-americana. "Principalmente em Libertadores, quando íamos ao Paraguai, colocavam caixas de som em cima do vestiário para evitar que conversássemos um com o outro, deixavam tudo fedendo. Mas, quando o time é bom, pode ter qualquer situação que qualquer lugar é bom para jogar."
Não é o caso do São Paulo atual na opinião do ex-atleta. Confira a íntegra da conversa com Palhinha, que até abriu mão da carreira de empresários por não suportar jogadores como os que vestem a mesma camisa com a qual ele fez sucesso no início dos anos 1990.
Acervo/Gazeta Press

Palhinha foi bicampeão mundial e da Libertadores com o São Paulo e não vê qualidade no elenco atual
O que você achou da contratação do Leão?
O São Paulo precisa mudar muita coisa. Contrataram mal em todos os sentidos. O time precisava de uma equipe melhor. O Leão, com sete jogos para terminar [o Brasileiro], não vai fazer praticamente nada. Está vindo em uma fogueira. Os jogadores que estão aqui ainda não sabem o que é a camisa do São Paulo.
A diretoria é a principal culpada?
Para quem viu o São Paulo sempre bem montado, o que precisa são os jogadores atuais olharem um pouquinho para a história, ver os times que o clube tinha, o respeito que havia pela camisa. Hoje, ganhar ou perder está dando igual. Eu, que venho ao estádio torcer pelo São Paulo, vou embora sempre chateado.
Para você, então, tanto faz para os jogadores do São Paulo: ganhar ou perder?
Nós os acostumamos mal. Ganhávamos sempre. Podíamos perder, mas sempre honrávamos realmente a camisa do São Paulo. Que me desculpem os jogadores que estão aí, mas muitos deles não têm qualidade para jogar com a camisa que estão jogando. Esse é o time do São Paulo. E nós, que fizemos um pouquinho para o clube ter os méritos de hoje, ficamos chateados. Deve se pensar muito para que, no ano que vem, o São Paulo tenha um time melhor.
Por serem jovens, ainda há salvação?
Não é questão de ser jovem. Tem que ser profissional. Se ele não joga no São Paulo, que tem toda a estrutura e dá condição para desenvolver seu futebol, imagine em clube que não der... Não vai jogar em lugar nenhum. Se não joga em um campo desse [falou, apontando para o gramado do Morumbi], estão brincando com coisa séria.
O ideal seria trocar de time?
Trocar todo mundo. Deixa o Rogério e, do resto, só um ou outro. E é muito pouco, hein? É muito pouco. Deveriam respeitar muito mais a camisa do São Paulo. O torcedor ficou mal-acostumado. O São Paulo teve vários times bons, honrando seu nome, e hoje não se vê isso.
Você demonstra uma tristeza como torcedor...
O problema do futebol é que muitos que comandam nunca entraram em campo, nunca treinaram, não sabem o que é isso. Colocam pessoas que não têm qualidade para cuidar dos times. Quem é o presidente do Vasco hoje? Roberto Dinamite, cara. Olha o nível, o jogador que foi. Tem um cara lá que cuida, que é o Rodrigo [Caetano, diretor de futebol], que jogou futebol, que viveu isso, estudou, foi se profissionalizando. O Ricardo [Gomes, treinador] chegou lá, ajeitou o time dentro de campo. E os jogadores colocam isso na cabeça porque tiveram exemplo. É tão simples. Não é difícil. Futebol não tem segredo, é trabalhar. Hoje, existem vários jogadores em times grandes que, quando acaba o treino, nem tomam banho. Eles saem correndo para ir embora. Vai jogar onde? Não joga em São Paulo, Flamengo, Vasco, Corinthians, Palmeiras... E vemos essa tristeza que está hoje.
É muito dirigente de ar-condicionado no futebol?
Sempre teve. Mas também sempre houve pessoas como treinadores e gente no campo que sabem como funciona isso aqui [falou apontando para o gramado novamente]. Jogar futebol não é só entrar em campo. Talvez seja por isso que o Palhinha está deixando o futebol. Não sirvo porque não aceito a forma como trabalham.
Você gostaria de participar mais ativamente do futebol?
Não participo porque não quero. Para participar um pouquinho, com o nome que conquistei como profissional... Pode levantar minha ficha em todos os grandes clubes por que passei. Posso falar de cabeça erguida que vou a jogos de São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos, e nunca fui desrespeitado em lugar nenhum porque quando jogava respeitava o adversário e ainda mais a camisa que eu vestia.