O São Paulo pode dar nesta quarta-feira (26) um passo importante para mudar a forma como o clube é administrado. O Conselho Deliberativo se reúne para votar uma ampla reforma do Estatuto Social, com alterações principalmente na governança, fiscalização, orçamento e profissionalização da gestão.
As propostas tentam reduzir a concentração de poder na presidência e fortalecer órgãos responsáveis por fiscalizar as decisões administrativas.
Mas o que realmente muda se a reforma for aprovada? Quem escolherá os profissionais considerados independentes? E as novas regras são suficientes para transformar a administração do São Paulo?
Conselho de Administração ganha muito mais poder
Uma das mudanças mais importantes envolve o Conselho de Administração.
A proposta aumenta as responsabilidades do órgão, que passaria a ter participação direta na elaboração da proposta orçamentária e no planejamento estratégico do São Paulo para períodos de três a cinco anos.
O Conselho também teria maior poder de fiscalização sobre a administração.
Na prática, a intenção é diminuir a concentração das principais decisões nas mãos da presidência e criar uma estrutura capaz de acompanhar a gestão de maneira permanente.
Presidente deixa de controlar quem o fiscaliza?
Esse é outro ponto importante da reforma.
A proposta modifica a composição do Conselho de Administração e busca aumentar a presença de integrantes independentes.
O novo modelo discutido prevê nove integrantes, com representantes dos órgãos internos do clube e membros independentes.
A ideia é estabelecer uma separação mais clara entre quem administra o São Paulo e quem tem a responsabilidade de fiscalizar essa administração.
Mas quem escolhe esses profissionais?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para entender se a profissionalização funcionará na prática.
A proposta prevê mecanismos para buscar profissionais de mercado para participar da nova estrutura administrativa.
Isso cria um filtro profissional que hoje é muito menor dentro do clube.
Entretanto, a existência de profissionais externos ou classificados como independentes não elimina completamente a participação política do São Paulo no processo.
Por isso, caso a reforma seja aprovada, será importante acompanhar quais serão os critérios de seleção, quem serão os candidatos apresentados, quais experiências profissionais possuem e qual relação tiveram anteriormente com dirigentes ou grupos políticos do clube.
Ser chamado de independente não basta. A independência precisará aparecer também nas decisões.
Compliance deixa a estrutura da presidência
Outra mudança importante envolve o compliance do São Paulo.
Pela proposta, o departamento passaria a responder ao Conselho de Administração, deixando de ficar subordinado à diretoria administrativa, formada pela presidência e vice-presidência.
A alteração busca aumentar a independência do setor responsável por acompanhar procedimentos internos e possíveis irregularidades.
A lógica é separar quem administra de quem precisa fiscalizar os atos dessa administração.
Contratos do futebol terão fiscalização maior
A reforma também aumenta o acesso do Conselho de Administração aos negócios realizados pelo departamento de futebol.
O órgão deverá ter acesso, em prazo determinado, aos contratos de jogadores, integrantes da comissão técnica e intermediários.
Isso inclui justamente uma das áreas que movimentam os maiores valores dentro do São Paulo.
O objetivo é permitir que contratos importantes sejam acompanhados pelos responsáveis pela fiscalização durante a gestão, e não apenas depois que eventuais problemas apareçam.
Orçamento também terá controle maior
O Conselho de Administração não ficaria responsável apenas por fiscalizar despesas já realizadas.
Entre suas novas atribuições está a participação na elaboração da própria proposta orçamentária do clube.
Também estão previstos mecanismos de acompanhamento financeiro e planejamento estratégico de médio prazo.
Isso pode permitir que diferenças entre aquilo que foi planejado e aquilo que efetivamente está sendo gasto sejam identificadas mais rapidamente.
A reforma transforma o São Paulo em SAF?
Não.
A reforma em votação está concentrada principalmente na governança do clube.
Durante as discussões chegou a ser considerada uma mudança no artigo que estabelece o quórum necessário para transformar o São Paulo em sociedade empresária, mas essa alteração ficou fora do texto final apresentado.
Portanto, a aprovação da reforma não significa transformar o futebol do São Paulo em SAF.
Então o novo Estatuto vai resolver os problemas do São Paulo?
A reforma pode entregar ao clube instrumentos de governança e fiscalização mais fortes, mas nenhuma mudança estatutária é capaz, sozinha, de garantir uma boa administração.
Um Conselho de Administração forte depende de integrantes qualificados e independentes.
Um departamento de compliance funciona se tiver autonomia para fiscalizar.
Um orçamento mais rígido funciona se suas regras forem respeitadas.
E profissionais de mercado somente representarão verdadeira profissionalização se forem escolhidos por competência e tiverem autonomia diante das disputas políticas internas.
O Conselho Deliberativo continuará importante
A reforma distribui melhor algumas responsabilidades, mas não acaba com o poder político existente dentro do clube.
O Conselho Deliberativo continuará sendo um dos principais órgãos da estrutura do São Paulo e participando de decisões fundamentais.
Atualmente, o Conselho é formado por 260 integrantes, divididos entre 100 conselheiros eleitos e 160 vitalícios.
Por isso, mudar a estrutura administrativa não significa automaticamente eliminar a influência política sobre a gestão.
Muda de verdade ou é mais do mesmo?
As alterações propostas não são apenas cosméticas.
Fortalecer o Conselho de Administração, aumentar a fiscalização sobre contratos, ampliar o controle orçamentário e retirar o compliance da estrutura diretamente subordinada à presidência são mudanças relevantes na organização do clube.
Ao mesmo tempo, a aprovação do novo texto será apenas o primeiro passo.
A verdadeira avaliação começará depois: quem ocupará os novos cargos, como essas pessoas serão escolhidas e se terão independência para contrariar a presidência e os grupos políticos quando considerarem necessário.
O novo Estatuto pode criar ferramentas melhores para administrar o São Paulo.
Saber se essas ferramentas produzirão um São Paulo realmente diferente dependerá de como elas serão utilizadas.
Votação acontece nesta quarta-feira
O Conselho Deliberativo analisa a reforma nesta quarta-feira (26). O clube disponibilizou oficialmente a proposta de reforma estatutária, as disposições transitórias e os pareceres relacionados ao processo.
Depois da votação será possível saber exatamente quais mudanças foram aprovadas e quais ficaram pelo caminho.
Se você quiser acompanhar o São Paulo FC tem o portal da transparência.
E você, torcedor: acredita que mudar o Estatuto é suficiente para profissionalizar o São Paulo ou a verdadeira mudança precisa acontecer também nas pessoas que comandam o clube?