- Esses meninos acabam se tornando profissionais, mas sem ter passado por todas as etapas de formação. E se você fizer um paralelo com o sistema de ensino, é como se o menino saísse da educação infantil direto para a universidade – explica Lucho.
Nizzo tem 22 anos de trabalho na formação de jogadores e por conta desta experiência faz um alerta aos clubes brasileiros e cita alguns exemplos de jogadores que podem ter a formação prejudicada por conta de uma pressa dos treinadores em lançá-los na equipe principal. É o caso do Neymar, do Santos, Zezinho, do Juventude, Philippe Coutinho, do Vasco, e Dodô, do Corinthians.
- Há dois ou três anos, o treinador da seleção brasileira sub-20 tinha dificuldade de convocar uma seleção para um mundial ou um sul-americano, pois ambos os jogadores já estavam atuando nas suas respectivas equipes. Hoje o processo está começando a ocorrer com a sub-17. Quer dizer, hoje eu fui para um sul-americano em que eu não pude levar o Neymar – lamenta o treinador.

O alerta não foi ignorado por alguns treinadores. Porém, muitas vezes precisam lutar contra a vontade da torcida que deseja ver as jovens promessas em campo, como acontece com Vanderley Luxemburgo e Neymar, no Santos. O técnico do Flamengo, Andrade, lembra do caso de Bruno Mezenga e Fabiano Oliveira, que foram lançados no time principal como solução dos problemas do ataque rubro-negro, sem estar devidamente preparados.
- Uma coisa é o time que não tem condição e lança o jogador precoce porque tem que lançar o jogador precoce e que trabalha para colocar jogador no mercado e a outra é você colocar o jogador para ser um jogador talentoso. Achei que foi muito precoce a entrada do Neymar, com aquele físico dele, sem estar preparado. Tem que jogar na seleção de base. Na história do futebol, o grande jogador jogou na seleção de base. O Ronaldo jogou, o Ronaldinho, Alex, Romário, Bebeto, tem que ter amadurecimento – lembrou Luxemburgo em entrevista coletiva.
Lucho Nizzo ressalta também que esse processo acaba por eliminar muitas promessas e muitas mais poderiam surgir se todos concluíssem o processo de formação de forma completa. A falta dela é percebida quando o jovem mostra pequenas falhas durante o jogo e acaba tendo que viver com a pressão da torcida muito cedo.
- Você está vendendo um atleta que não está realmente formado. E isso é preocupante, porque você vai ver um jogo de futebol e vê um jogador que chega na cara do gol e perde porque não consegue finalizar com a perna esquerda, perde um gol de cabeça porque não sabe cabecear e a torcida transfere toda essa situação para o atleta. É um processo difícil, é um funil, em que entram muitos e vão sair dois ou três, mas poderiam sair mais, dez, quinze. Mas talvez esses meninos não tenham suportado todo esse processo e sucumbido – alertou Nizzo.
