Tigre x São Paulo: como os rivais explicam final que durou só 45 minutos e terminou na delegacia

Denílson, ex-Tricolor, e Maggiolo, ex-Tigre, relembram confusões de decisão da Sul-Americana em 2012, no Morumbi, que acabou com argentinos detidos; 11 anos depois, times se reencontram

Fonte Globo esporte
ASUYOSHI CHIBA/AFP via Getty Images

O clima entre dirigentes é cordial. Apesar disso, as lembranças daquele 12 de dezembro de 2012 circundam o confronto entre Tigre e São Paulo, no estádio José Dellagiovanna.

A tensão daquela noite de quarta-feira no Morumbi surge como um tempero para o reencontro desta quinta, às 21h (de Brasília), pela primeira rodada da Sul-Americana.

Para entender um pouco do clima bélico instaurado no Morumbi, há quase 11 anos, a reportagem do ge ouviu um representante do São Paulo e outro do Tigre. Ambos atuaram os primeiros (e únicos) 45 minutos daquela decisão e testemunharam de perto toda a confusão.

Do ponto de vista do Tricolor, o volante titular Denílson reclamou da postura dos jogadores do Tigre, especialmente com Lucas, hoje jogador do Tottenham e, à época, principal revelação são-paulina. Do lado argentino, Ezequiel Maggiolo, camisa 9 daquele time, ainda lamenta todo o ocorrido.

A tensão no gramado só parou na delegacia, com atletas do Tigre acusando seguranças do São Paulo de agressão e ameaça, enquanto os são-paulinos comemoravam o título confirmado com apenas 45 minutos de jogo – os argentinos não voltariam para o segundo tempo.

Confusão entre Lucas Moura, do São Paulo, e jogadores do Tigre — Foto: ASUYOSHI CHIBA/AFP via Getty Images

Confusão entre Lucas Moura, do São Paulo, e jogadores do Tigre — Foto: ASUYOSHI CHIBA/AFP via Getty Images

Clima hostil antecipado

O ambiente de tensão no Morumbi nasceu ainda na primeira partida da final, no mesmo estádio do duelo desta quinta-feira. O grande símbolo desse embate na Argentina se deu com apenas 13 minutos de jogo, quando Lucas cometeu falta dura no zagueiro Orbán.

O lance gerou cobranças sobre o brasileiro e uma discussão mais ríspida entre Luís Fabiano e Donatti, que acabaram expulsos. O lance serviu, na visão de Denílson, para deixar Lucas visado desde o princípio do confronto decisivo no Morumbi.

– Pelo que me lembre, o pessoal estava com maldade em cima do Lucas. Daí, o lateral-esquerdo, um loirinho cabeludinho, deu uma chegada, se não me engano uma cotovelada. Aí colocam um negócio no nariz dele. Lucas nunca foi um jogador de provocar, pensaram que era outra situação e começaram a bater ainda mais nele – comentou.

Pelo lado do Tigre, o clima hostil no Morumbi era consequência de reclamações são-paulinas no trato recebido ainda na primeira partida. Situação negada por Maggiolo, por sinal.

– Escutamos que eles se sentiram maltratados na Argentina, mas creio que estava tudo dentro dos parâmetros normais de um jogo de Copa; acho que se confundiram. Tínhamos uma maneira competitiva e aguerrida de jogar, e chegamos assim na final, acho que confundiram a partida com o extra, extrapolou – relatou.

– Foi desmedido tudo aquilo. Um clube tão grande e com tantos títulos deveria estar à altura. Tínhamos inexperiência neste tipo de cenário, não fomos preparados para o que precisávamos e lamentavelmente aconteceu o que aconteceu – acrescentou.

Antes mesmo de a bola rolar, os jogadores do Tigre começaram a se questionar sobre o clima extracampo no Morumbi. Dois fatores chamaram a atenção do ex-atacante.

– Não pudemos treinar no dia anterior, o que sempre fazíamos, era comum reconhecer o campo. Depois, não pudemos aquecer no gramado. É algo ainda inexplicável, difícil de entender – recorda-se o então camisa 9 do Tigre.

O estopim

O grau competitivo e de tensão do jogo da ida se repetiu durante todo o primeiro tempo no Morumbi, ainda mais depois de o São Paulo aproveitar as oportunidades criadas e abrir 2 a 0 com gols de Lucas e Osvaldo.

Assim que a arbitragem apitou o fim do primeiro tempo, Lucas foi cercado e cobrado por adversários. A resposta virou um gesto imortalizado para os torcedores, no qual o camisa 7 mostra um algodão ensanguentado na direção de Orbán para reclamar da perseguição. A partir dali tudo mudou.

– Estavam na maldade com o Lucas. O Paulo Miranda chegou tentando apartar, eu também chegar. Foram muitos jogadores chegando para não ter confusão, mas era uma situação de futebol. Em nenhum momento, na minha visão, o Lucas provocou, ele nunca foi disso. Levaram para um outro lado – reclamou Denílson.

Polícia entrou no gramado no intervalo do jogo — Foto: Paulo Whitaker / Reuters

Polícia entrou no gramado no intervalo do jogo — Foto: Paulo Whitaker / Reuters

Maggiolo também se recorda das trocas de hostilidades assim que a arbitragem apitou o fim da primeira etapa. Mal sabia o então atacante argentino que os minutos seguintes apresentariam um cenário lamentável para uma decisão de campeonato.

– Era uma pequena briga. A partir de então fomos para o túnel, e eu fui um dos primeiros a chegar no túnel. A uns 10 metros estava a entrada do vestiário, e na entrada a gente viu gente contratada da segurança do clube. Ficaram encrespando com a gente, sem motivos. Houve ameaças, me pareceu tudo armado – questionou.

Relatos sobre o que ninguém viu

O relato de Maggiolo mostra apenas o início da indignação do Tigre, que resultou na recusa do time em retornar ao gramado para disputar o segundo tempo contra o São Paulo. Até hoje na memória do ex-atacante, aqueles minutos são vistos com tristeza e mágoa.

– Parecia que tudo era orquestrado para a gente ficar mais nervoso, não passar bem, enfim. Havia gente do clube ali rindo, nós respondemos e passamos a nos proteger. Ali criou-se todo o problema e toda a briga, e tudo o que se viu – contou o ex-jogador do Tigre.

– O São Paulo não pareceu estar à altura da organização de uma final, em relação a cuidado e segurança com os jogadores. Para mim isso é o mais triste. Além do resultado negativo, com tanto nervosismo e insegurança, sem saber o que fazer, passou o tempo e o árbitro terminou o jogo, dando o título para o São Paulo. Foi merecido, mas de outra maneira – acrescentou.

As imagens da época mostram o vestiário com sinais de destruição e manchas de sangue pelo embate ocorrido. A versão são-paulina sobre o ocorrido, como lembra Denílson, é diferente.

– Acabamos cansados o primeiro tempo, bebendo água. O Ney Franco deixou a gente se refrescar e começamos a escutar uns barulhos lá do lado de fora. Segundo me lembro, nessa hora, o Rogério Ceni levantou e disse que os caras estavam tentando entrar e disse: “se acontecer é todo mundo, se invadirem é todo mundo junto – disse.

Fim amargo

Os minutos de confusão terminaram de maneira pouco comum. Enquanto a delegação do Tigre se recusava a voltar ao gramado, a arbitragem de Enrique Osses aguardava. Os argentinos não retornaram, e o árbitro decretou o fim de jogo e o título são-paulino, enquanto o clima nos bastidores ainda era de tensão, com direito a ida dos argentinos à polícia.

– Quando fomos à delegacia com o ônibus, alguns companheiros meus desceram. Eu permaneci dentro do ônibus. Simplesmente, eu tinha uma mescla de impotência e tristeza pelo ocorrido e por como tudo terminou – relata.

Três jogadores prestaram depoimento em uma delegacia na região central de São Paulo: o goleiro Albil, Orbán (pivô da confusão com Lucas) e o meio-campista Galmarini.

– Sinto que não merecíamos coroar uma final de um torneio de tal magnitude desta maneira, com tudo o que nos custou – diz Maggiolo, que trabalha como treinador desde o fim da carreira.

O ex-atacante lamenta que todo o clima negativo ainda tenha impedido o time de receber as medalhas de vice-campeão, algo valorizado pelo Tigre por toda a campanha na Sul-Americana.

– A nossa medalha era merecida, honramos, mas não pudemos nem subir para receber a medalha e desfrutar do vice-campeonato, saborear esse momento, diante da situação lamentável e escandalosa que nos fizeram passar – recorda o ex-jogador argentino.

Nem a alegria são-paulina foi plena diante de toda a confusão. As imagens de Lucas ao lado de Ceni acabaram imortalizadas, mas alguns atletas reconhecem o fim estranho da Sul-Americana de 2012.

– Começou uma conversa aqui, outra ali, e ninguém sabia de fato o que estava acontecendo. Falaram que teve agressão no vestiário e que eles não voltariam. Queríamos que o jogo terminasse, mas o tempo foi passando e a gente esfriando. A gente se aqueceu de novo, pois tínhamos dúvidas se voltariam, mas infelizmente não voltaram – afirmou Denílson.

– Quando deu o apito final e fomos confirmados como campeões, beleza, fomos comemorar. Mas sem dúvida deixa um gostinho amargo, porque nós atletas, quando entramos no nosso trabalho, queremos terminar uma partida. Porém, infelizmente, isso não aconteceu, mas não só pelos adversários, mas pela comissão deles – completou.

O sentimento, 10 anos depois

Personagens daquela noite tensa de 12 de dezembro de 2012, Denílson e Maggiolo torcem para cenas como aquelas não se repetirem, obviamente. Porém, há desconfiança sobre como será esse reencontro na Argentina, mais de uma década depois do jogo que “nunca terminou”.

– Esse pessoal é complicado, começam a atiçar coisas que nem tem mais lógica. É passado, mas acho que podem encarar catimba quando chegar na Argentina. Catimba mesmo sem confusão. Vão colocar pimenta na situação, depois de 11 anos, mas é algo que não é lógico para mim. O que passou, passou – opinou Denílson.

Conhecedor do Tigre pelos anos jogados lá, Maggiolo descarta o peso de revanche no duelo desta quinta-feira. As memórias de 2012 ainda são um pouco incômodas, apesar da campanha orgulhosa que o time fez ao chegar em uma decisão sul-americana.

Rodrigo Nestor, Alisson e Pablo Maia na chegada do São Paulo à Argentina — Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Rodrigo Nestor, Alisson e Pablo Maia na chegada do São Paulo à Argentina — Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

– O sentimento depois do vivido, acima de tudo, é agridoce. Pensar que chegamos a uma final merecidamente, contra um grande rival, um grande da América do Sul e do mundo. Além do resultado, a final era um prêmio para a gente, uma festa, queríamos desfrutar. Sabíamos que teríamos chances, mas que não era fácil ser campeão – relembra, antes de torcer por um outro final na versão 2023 do duelo.

– Não, não é uma revanche. É uma oportunidade para demonstrar como se recebe e se atende corretamente a um rival de turno.

É equivocado incentivar e provocar a violência. Tomara que assim seja, em paz, que não se volte a repetir uma situação de tamanha gravidade, pelo bem do esporte – encerrou Maggiolo.

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Comentários

antônio pereira da silva silva
3 1
06/04/2023 13:54:53

Vexame a vista

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