Na entrevista pós-jogo, realizada na zona mista, Daniel Alves estava visivelmente irritado. E jogador aborrecido costuma abrir a “torneira da verdade”. Mesmo para um multicampeão com moral para falar o que pensa há sempre um certo verniz nas declarações. Uma polidez. Mas não desta vez. E o que falou revela muito sobre o São Paulo e também o futebol no Brasil.
O camisa dez são-paulino tinha até razões para estar incomodado. Atuando pela primeira vez na lateral direita no Brasileiro, participou bem menos dos ataques e viu Hernanes centralizar demais o jogo. Evolução coletiva zero. Daniel Alves disse que a imprensa não era capaz de entender suas dificuldades em campo porque os jornalistas nunca jogaram.
Curiosamente, este blog registrou logo no anúncio da contratação que era um desperdício não aproveitá-lo no meio-campo. Como um “oito” ajudando na articulação, não um meia centralizado e avançado jogando de costas para a marcação. É contraproducente e não precisa ser um gênio ou ter entrado em campo para perceber.
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O atleta veterano também deixou claro que os protagonistas do futebol não gostam muito do contraditório: “A imprensa sempre está para gerar um certo desconforto e debates. Não podemos gerar debates”, criticou. Bem, se as quatro vitórias e seis empates em casa, enfrentando reservas do Flamengo e Grêmio, não podem provocar uma discussão séria e responsável sobre o desempenho são-paulino que não se reflete nos resultados é porque a noção de liberdade de expressão do jogador é um tanto enviesada. Ou elogia ou fica em silêncio porque “nunca chutou uma bola”? Democrático, não?
De positivo, a postura de líder ao não jogar a toalha e afirmar que o título não é do Flamengo – conclusão óbvia com um turno ainda em disputa, mas necessária pelos dez pontos de distância na tabela. Também uma observação importante sobre padrão de jogo: “Às vezes as pessoas acham que um padrão de jogo é feito em treinamento. Padrão de jogo é feito mais em formação teórica do que tática”, explicou Daniel.
Perfeito. Ainda mais no país em que se acreditava, e muitos ainda acreditam, que padrão se alcança repetindo o time em treinos e jogos. É bem mais que isso, com definição de princípios de jogo que vão ajudar na construção do modelo. Primeiro a forte base teórica, depois a prática. Daniel aprendeu com Guardiola, Thomas Tuchel, Massimiliano Allegri e outros treinadores. Cuca acredita em construção intuitiva, jogo a jogo em função do adversário. Fica mais complicado.
O lateral da seleção brasileira já percebeu que a missão de resgatar a autoestima e o espírito vencedor do São Paulo será mais complicada do que ele imaginava. O clube parece estacionado em uma espécie de “zona morta”. Sem um fundo do poço para se reconstruir do zero, nem o “turning point” para virar tudo do avesso e mudar a história na década que entra na reta final apenas com o título da Sul-Americana de 2012. É muito pouco para um gigante do futebol brasileiro. Se nada mudar, Daniel Alves ainda sairá incomodado muitas vezes do Morumbi.
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