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Uniformizadas, risonhas, dispostas e unidas, elas estavam aglomeradas em frente ao portão 6 do Morumbi, como de costume, para a concentração e espera das demais meninas. Debaixo de sol forte, conversa vai e conversa vem, até que alguém pergunta “cadê a faixa?” e logo em seguida, empunhada com muito entusiasmo, a faixa com os dizeres “pelo orgulho de ser mulher, pelo orgulho de ser São Paulo” se fazia notar entre as outras que indicavam a localidade do torcedor organizado.
Tudo teve início na internet, quando cansadas da falta de opções de camisas e outros materiais esportivos femininos, um grupo de torcedoras se uniu e criou a hashtag #SãoPaulinasUniformizadas, o que levou a mudanças no vestuário são paulino, mas ainda insuficiente. Em 2018 era hora de se reunir para lutar por um espaço na arquibancada, mas só em 2019 o nome e o status quo tornaram-se o Movimento São PraElas, com cerca de 720 meninas participantes em grupos de WhatsApp e mais de 400 no grupo oficial do movimento no Facebook, sem contar ainda os seguidores do Instagram e do Twitter, que já abarcam tanto homens quanto mulheres.
“Quando eu venho para cá, eu sempre coloco a camisa quando chego na estação e encontro com as meninas, por causa do preconceito e dos caras que sempre mexem comigo. Antigamente eu vinha sozinha e sempre mexiam, ouvia aquele ‘tá indo porque gosta de macho’ e agora, com elas, não mexem tanto, mas ainda soltam piadinhas”, contou Maria Mille, uma das integrantes do movimento.
“Depois que iniciamos, as meninas se sentem muito mais seguras para frequentar o estádio, afinal, elas perceberam que podem contar com a gente. Quanto à opressão, estamos evoluindo aos poucos, até porque não depende só da gente, é algo que vai além de nós e precisamos da conscientização dos homens também”, disse Giovanna Serafim, uma das líderes.
Uma das integrantes, que pediu para não ser identificada, contou que já visitou a arena de um clube rival inclusive, enfrentando não só o natural clima hostil de um estádio, como estava no meio da torcida adversária, só por amor ao tricolor. “Na semifinal do Paulista eu fui, e quase morri de nervoso com aquele ‘sai gol, anula gol’. Queria comemorar a vitória, mas não podia. Tive de xingar meu time porque precisava gritar algo”, comentou aos risos a torcedora, ao relembrar da classificação são-paulina nos pênaltis dentro do Allianz Parque, casa palmeirense.
Embora sejam um grupo considerável de mulheres, isso não inibe que situações de preconceito ou machismo aconteçam (enquanto as acompanhávamos nada aconteceu, mas relatos não faltam). “No jogo do Campeonato Paulista do ano passado [2018], contra o Red Bull, um torcedor jogou um copo cheio de água na gente só porque estávamos torcendo, nessa partida a organizada decidiu realizar o protesto Morumbi Zero e esse cara era integrante“, recorda Giovanna.
O intuito delas agora também passa por prestigiar o futebol feminino, desde ações nas redes sociais do movimento como também ir às partidas da equipe são-paulina, porém, a dificuldade de obter informações sobre a realização dos jogos dificulta um pouco o acompanhamento e a presença delas nos estádios. “Nós temos um cronograma certinho dos jogos e, quando fomos montar, não havia informação nenhuma sobre jogos delas no site, comparando com o site do Corinthians, por exemplo, há informações até do xadrez”, apontaram.
Em 8 de março de 2018, o São Paulo lançou um manifesto em prol dos direitos das mulheres nos estádios, se comprometendo a ter ações que disseminassem e melhorassem as condições para que frequentarem o estádio do Morumbi. Um ano e meio após a divulgação, nós buscamos contato com o departamento de comunicação do clube, mas nossas ligações não foram atendidas.
Mesmo com todas as dificuldades encontradas, elas vão conquistando seu espaço nas arquibancadas e dentro dos campos (o sucesso a Copa do Mundo Feminina é prova) e o Movimento São PraElas esta aí para provar que, no esporte dito mais democrático do mundo, elas também têm voz e vez.
SPFC, Movimento Feminino, Torcida, São PraElas