Ex-auxiliar de Cuca defende futebol raiz: "Hoje, jogador quer curtida"

Fonte UOL
19 de Março de 2019
Conhecido por ter sido fiel escudeiro de Cuca por quase 15 anos, Eudes Pedro vai se lançar em carreira solo. Mesmo com o convite de trabalhar ao lado do técnico no São Paulo, ele quer aproveitar o diploma recém-conquistado no curso de treinadores para colocar em prática o futebol que ele mesmo chama de raiz e sente falta.

Em entrevista ao UOL Esporte, Eudes disse que vê alguns métodos usados por treinadores como ultrapassados e que priorizam o futebol defensivo, deixando de lado o estilo de jogo que ele considera o responsável por consagrar o nome do Brasil no mundo.

Com a ideia de começar trabalhando nas divisões de baixo, o agora treinador afirmou que também é preciso trabalhar com a nova mentalidade dos jogadores de futebol, que muitas vezes priorizam o sucesso pessoal ao coletivo. Para ele, isso se reflete nas atitudes dos atletas em redes sociais.
Confira a entrevista completa com Eudes Pedro:
UOL Esporte: O que te motivou a lançar a sua carreira solo?

Eudes Pedro: Sempre fui auxiliar pelo meu perfil, organizar as coisas, dar os treinos. Conheci o Cuca no Coritiba e ficamos juntos por 14 anos. Depois de fazer a licença A, achei que era o momento. Tem gente que comanda e esquece do DNA do futebol brasileiro. A gente vê mais preocupação defensiva. Ensinaram os brasileiros, que sempre foram criticados pela posição defensiva, a ter esse tipo de conduta. O Brasil melhorou muito neste quesito, mas piorou na frente. Só vejo treino reduzido e treino de dois toques. O jogador perde a percepção de um contra um. Dos últimos quatro mundiais para os garotos, fomos para apenas um.
Como auxiliar não dá para implantar as suas ideias?
Não. Há uma dificuldade com a modernização e padronização. Não podemos transformar o nosso futebol em europeu. Pelo contrário. Eles que vêm aqui e tiram o que a gente tem de melhor. Estamos copiando o europeu e esquecemos o nosso DNA.
Qual estilo de jogo te agrada?
Me agrada ter um Renato Gaúcho. O Grêmio está jogando uma bola com todos os requisitos que eu defendo na minha metodologia. Com posse de bola, um time ofensivo, que procura o gol. O Renato é a cara do futebol brasileiro. Ele pratica o melhor futebol do Brasil. Tem o Sampaoli que chegou aí para mostrar que pode se fazer a diferença, independentemente de onde está jogando e contra quem. É a mesma postura. É isso que eu vejo que realmente eu quero colocar em prática.
Não te balançou a ideia de trabalhar no São Paulo?
Não me balançou porque eu tinha uma coisa só pendente, que era a licença A. Era questão de tempo. Eu fui para o Santos com essa pendência. Depois que o Cuca saiu, fiquei mais um mês com o Sampaoli organizando a base e tudo. E por questões administrativas eu achei melhor não ficar. Ele trouxe a comissão dele. O cara é formidável, adorei ele, mas eu estava com esse objetivo. Tive duas propostas de Pernambuco, mas não pude assumir por conta do curso.
Deu tempo de aprender algo com o Sampaoli?
Aprendi muito. Ele tem uma didática excelente. O jogador tem cada vez menos tempo para pensar com a bola no pé e o Sampaoli valoriza um futebol de intensidade e físico. Ele emprega uma intensidade forte do início ao fim do treino. É para valorizar a bola, buscar o jogo e sem a bola você tenta o máximo recuperar e propor o jogo. Eu levo isso comigo. Ele ensina tudo de uma forma mais didática e dinâmica.
Pelo o que você conhece do Cuca, como ele vai lidar com o atual elenco do São Paulo?
Ele gosta de montar time. O São Paulo só vai ser São Paulo no segundo semestre, quando ele chegar e colocar a mão na massa. Falar esse eu quero e esse eu não quero. É pelo modelo de jogo que ele sempre implementou. Pode ser que tenha jogadores que não agradem e ele vai falar que não quer esse, esse e esse.
Deixando o tático de lado, qual o papel de um treinador no gerenciamento de um grupo?
Tem dois princípios para nortear. Um é o conhecimento em campo e o segundo é você ser um capacitador de pessoas. Tem que gerenciar esses seus comandados. Não são 11, são 23 ou 30 jogadores. O principal papel é gerenciar esses egos. Fazer todos irem para um lado só, que é o coletivo. Qualquer jogador hoje está na mídia, tem rede social e isso é diferente. Há 20 anos, você se preocupava com outros fatores.

Como a rede social afeta um jogador?
Antes, você se preocupava em concentrar os jogadores para não beber, para se alimentar direito e dormir cedo. Hoje você não tem essa preocupação. A nossa é que durma cedo e não fique na rede social até 3h da manhã. Mudou a mentalidade do jogador de futebol. Hoje, a preocupação não é a concentração, sair e beber. Eles são responsáveis, sabem o que querem e onde vão chegar. Mas a rede social preocupa um pouco. Agora, a vaidade é essa. Quantas curtidas eu tive depois de um gol? Hoje, jogador se preocupa com curtida. Nem me preocupo com seleção e já quer ir para a Europa. Está faltando esse jogador raiz. Esse é o nosso papel como profissionais, como comandantes. Para voltar a ter um futebol que é a potência no mundo.
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