Como de hábito, o sacrificado foi o técnico. Caiu o jovem Jardine, um ícone vencedor do São Paulo nas categorias de base, precipitadamente alçado ao time principal, assim como em 2017 havia sido o ídolo Rogério Ceni, que foi usado como peça de marketing para a reeleição do presidente.
Quem foi ao Morumbi viu pela primeira vez um forte protesto contra a diretoria. O único título relevante que o outrora time mais vencedor do Brasil ganhou na última década foi uma Sul-Americana em 2012. Fora isso, vive um jejum inédito em tudo, de Paulistas a Libertadores, passando pela sua pior performance em clássicos, principalmente fora de casa. No Paulista atual, hoje o São Paulo não figura entre os 8 classificados.
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Os resultados futebolísticos da atual gestão são de novo os piores da história do clube. Por ser o presidente, não há como eximir Leco da responsabilidade. Ele é quem manda e desmanda. No vai e vém dos técnicos ele segue, recebendo salário e andando de BMW do clube. Mas nas derrotas sai pelos fundos, escondido.
Por trás da ineficiência da diretoria, entretanto, o São Paulo tem um problema estrutural ainda mais sério. Com uma política envelhecida e radicalizada, não existe a menor perspectiva de renovação. O presidente atual foi eleito de forma indireta, por um Conselho em que 160 dos 240 membros são vitalícios, com uma idade média perto de 70 anos. A última eleição foi disputada entre octogenários.
Qualquer grande empresa no mundo põe uma idade limite para sua diretoria, geralmente entre 63 e 68 anos. Mas no São Paulo esse tema nem sequer é discutido, pois isso afetaria o status - e os sonhos de poder - justamente dos que dirigem o clube.
A falta de renovação e a vitaliciedade sobrepõem interesses e vaidades pessoais dos conselheiros aos interesses da instituição, e o envelhecimento natural faz com que os líderes não tenham mais a visão e a energia necessárias. Essa gerontocracia asfixia o São Paulo.
E a paralisia afeta o futebol. Os jogadores, em vez de receberem liderança, amparo e motivação do comando, só veem vazio, comportamento errático e oportunismo. Diante da pressão de uma década sem títulos, os fracassos se repetem.
A saída do São Paulo passa pela mudança urgente desse sistema político, permitindo, por exemplo, o voto direto dos sócios do clube e de sócios-torcedores qualificados pelo tempo e valor de contribuição. Mas, se quiser mesmo voltar a ser o grande vencedor, o São Paulo precisa virar uma empresa de futebol e ter donos, como funcionam hoje a elite do futebol europeu e as franquias de todo o esporte profissional americano (NBA, NFL, MLS). E a torcida poderá ser acionista!
Enquanto não fizer isso, as vitórias do Tricolor continuarão a ser mais fruto de sorte circunstancial do que do planejamento e da inteligência que levaram às grandes conquistas do passado. E o São Paulo, que já foi a referência de modernidade e estrutura, se fixará cada vez mais como símbolo do atraso.
Luís Roberto Demarco - empresário de tecnologia, sócio do SPFC e são-paulino de coração.
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São Paulo, Texto, " A tragédia tricolor",Luís Roberto