Dólar em forte alta influencia em negócios firmados por clubes brasileiros

Fonte UOL
Foto: Guga Matos/ JC Imagem
O que a alta do dólar significa na nossa vida? E na de um clube de futebol? A atual crise cambial pode não aparecer em campo, mas tem enorme influência na administração e pode ser bem ruim (ou boa, dependendo do caso) para muita gente.

A moeda norte-americana tem subido progressivamente desde o início do ano, mas a alta se acentuou nos últimos 30 dias. O dólar comercial, que era cotado a R$ 3,70 no início do mês de agosto, bateu R$ 4,14 nesta semana e não dá indícios de desaceleração. Entre os principais motivos de alta estão a apreensão sobre a 'guerra comercial' entre Estados Unidos e China e, principalmente, a cautela dos investidores quanto ao cenário político no Brasil — devido à proximidade das eleições gerais. Cotado a R$ 4,82, o euro segue a mesma tendência.
No geral, os clubes operam as obrigações do 'dia a dia' em real, da manutenção da sede social ao pagamento de funcionários, mas o dólar e o euro entram na jogada com frequência, sendo usados em negociações com clubes estrangeiros por terem, na visão do mercado, maior credibilidade do que o real. O mesmo vale para os salários de atletas que venham de fora; daí o cuidado necessário para tratar do câmbio.
Um caso emblemático é o do Palmeiras, que em 2014 contratou quatro jogadores argentinos por solicitação de seu então treinador, Ricardo Gareca. Os contratos de Allione, Cristaldo, Mouche e Tobio previam salários pagos em dólar, sem proteção quanto à variação cambial. A moeda valia R$ 2,26 em agosto daquele ano e em 12 meses foi a R$ 3,60 (alta de 59%). O salário do quarteto subiu por causa do dólar, e o Palmeiras perdeu alguns milhões no processo — dos citados, apenas Cristaldo já deixou o clube de forma definitiva.
A variação cambial, portanto, tem importância no futebol brasileiro. Tanto que foi um dos assuntos das edições do Encontro de Diretores Financeiros, que reuniu profissionais de vários clubes em julho e agosto deste ano, época em que o dólar já ameaçava disparar. As reuniões foram privadas, mas o UOL Esporte apurou que os clubes abordam a flutuação cambial com diferentes estratégias.
Como os clubes lidam com o câmbio

Ao se resguardar na compra de Petros, São Paulo 'sofre menos' com alta do dólar
Um departamento financeiro tem algumas alternativas para evitar que a variação do Dólar cause problemas. Há, por exemplo, operações financeiras que "congelam" a dívida e tornam a flutuação da moeda irrelevante. Outra possibilidade é negociar um piso e um teto na conversão da moeda, para que nenhuma das partes envolvidas perca muito dinheiro na variação.
Em termos práticos, um bom exemplo de proteção é a contratação de Petros pelo São Paulo em junho de 2017. Ficou acordado o pagamento em dólar para o Hortolândia-SP, clube dono de uma fatia do jogador, que receberia o valor estipulado em 40 parcelas. O UOL Esporte teve acesso ao contrato, que previa limites de variação da moeda, entre R$ 3,30 e R$ 4,10. Desta forma, a disparada do dólar não afeta tanto o clube quanto aconteceria se o teto não existisse.
Tudo depende da negociação
No futebol, lidar com o câmbio é negociar principalmente com jogadores e outros clubes, de acordo com o poderio de cada parte e os pedidos dos atletas. No Palmeiras atual, por exemplo, a maioria dos jogadores de alto nível preferiu não ancorar seu salário no câmbio do dia da assinatura do contrato. Desta forma eles recebem em dólar flutuante, e a alta da moeda infla a folha salarial alviverde.
O Santos também tem perdido dinheiro com o câmbio atual. O clube tem de pagar 5 milhões de euros à Doyen no próximo dia 30, e a disparada da moeda (que chegou a R$ 4,81) só faz a dívida crescer. Em outro negócio, o time "deixou de ganhar" R$ 6 milhões por simples má sorte: caiu em julho a primeira parcela da venda de Rodrygo ao Real Madrid, no valor de 20 milhões de euros (equivalente a R$ 89,6 milhões na cotação do dia). Apenas para efeitos comparativos, se este pagamento acontecesse nesta semana, com o euro em forte alta cerca de dois meses depois, seria convertido a até R$ 96 milhões.

Dá para lucrar com a alta?
Se o dólar alto prejudica as dívidas, também pode inflar as receitas. O caso mais comum é a venda de jogadores para o exterior, que é mais lucrativa à medida que a moeda se valoriza. Outro possível cenário é o acerto com parceiros que pagam na moeda americana, como a relação do Corinthians com a Konami, que adquiriu direitos de imagem para videogame e também um espaço na camisa alvinegra. Segundo o diretor financeiro do clube, Matias Ávila, neste caso a alta da moeda estrangeira é algo "positivo para o clube".
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