Rivais não escondem amor e torcem (quase) em silêncio

Com a decisão do Atlético-PR e do Ministério Público de jogos com torcida única, torcedores de Cruzeiro, Santos e São Paulo se adaptam para acompanhar - e até apoiar - seus times fora

Fonte Globo Esporte
(Foto: Fernando Freire)
Atlético-PR e MP-PR (Ministério Público do Paraná) planejavam testar jogos com torcida única na Arena da Baixada, mas o amor de alguns torcedores falou mais alto. Cruzeirenses, santistas e são-paulinos entraram descaracterizados e driblaram as proibições para acompanhar - e até apoiar - seus times.

"Infiltrados", os torcedores adversários assistiram aos jogos no meio de atleticanos e receberam orientação de seguranças contratados pelo clube paranaense para que não cantassem músicas de seus times nem mostrassem camisas, faixas ou bandeiras.
Mas... como esconder o amor quando seu time faz o gol da vitória no mata-mata? Ou quando ele quebra um tabu histórico e vence pela primeira vez na Baixada? E como quebrar a tradição e não cantar "a imagem do Cruzeiro resplandece" mais forte durante o hino nacional?
O cruzeirense Thiago Loregian, que viajou de Belo Horizonte para Curitiba para assistir à vitória por 2 a 1 do Cruzeiro, no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil, contou sua experiência. Ele também criticou a decisão e afirmou que "estão acabando com o futebol".
- Cantamos o jogo todo, e nos gols, não consegui segurar a emoção e tirei a blusa de frio que cobria a blusa do Cruzeiro. Os seguranças pediram educadamente, diga-se de passagem, para que não mostrasse nada relacionado ao clube. Porém, quando marcamos o segundo gol, a emoção falou mais forte (risos). Quase todos mostraram suas camisas, declarando o amor pelo clube. Espero de coração que revejam essa decisão, estão acabando com o futebol - afirmou Thiago Loregian.
Espero de coração que revejam essa decisão, estão acabando com o futebol
O são paulino Julian Paiva da Fonseca, que viu o São Paulo ganhar pela primeira vez na história na Baixada, também não conseguiu controlar a emoção. Apesar da "rivalidade" entre os clubes, ele e dezenas de são-paulinos festejaram o gol e a vitória pelo Brasileirão.
- Eu estava com a minha mãe no estádio quando vimos pela primeira vez o nosso time de coração entrar em campo. Quando o São Paulo roubava uma bola ou quando o Sidão realizava uma grande defesa, batíamos leves palmas para esses guerreiros. O São Paulo ganhou, nenhum ato de agressão aconteceu, é isso que importa. Mas, como torcedores de coração, jamais iremos deixar de nos curvar para a nossa bandeira tricolor são paulina - comentou Julian Paiva da Fonseca.
Nem todos os torcedores "infiltrados", porém, conseguiram torcer em paz, principalmente nas retas do estádio (setores Getúlio Vargas e Brasílio Itiberê). Para evitar confusões, seguranças do estádio retiraram torcedores das arquibancadas nessas três partidas.
No setor atrás do gol, a Coronel Dulcídio superior, onde os torcedores adversários têm se concentrado, o clima também não tem sido ameno. O Atlético-PR tem reforçado a segurança nesse local.
- Era notório o surgimento de vários seguranças entrando para a ala da torcida visitante. Se gritássemos, nos advertiam. Se apenas olhássemos nosso time de coração, olhos de fúria nos enchiam de medo, mesmo sendo a equipe de segurança. Jogo encerrado, mas ainda ficamos 30 minutos dentro do estádio para evitar uma possível repressão da torcida rival - completouo são-paulino Julian Paiva da Fonseca.
A ideia do MP-PR com a torcida única era diminuir o número de policiais nos estádios para que eles aumentassem a segurança nas ruas. Porém, um levantamento feito por G1 e GloboEsporte.com, mostra que essa decisão não altera registros de violência em Curitiba.
Além dos jogos do Atlético-PR contra Cruzeiro, Santos e São Paulo, o duelo do Paraná com o Atlético-PR também teve torcida única. A diretoria tricolor preferiu não vender ingresso para os visitantes pelo risco de não poder contar com sua torcida no jogo do returno, na Baixada.
O próprio Paraná e o Coritiba, porém, não têm seguido a sugestão do MP-PR para partidas com torcida única. O duelo entre Paraná e Cruzeiro, às 19h30 de quarta-feira, pelo Brasileirão, por exemplo, terá normalmente a presença de torcedores visitantes.
Em enquete realizada entre os dias 12 e 16 de maio, publicada pelo G1 Paraná, 82,21% dos torcedores mostraram-se contra a ideia de torcida única. Já 17,79% concordam com a proposta do MP-PR.
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