– Temos que ver se já fizemos um jogo com duas mulheres na reportagem.
– Eu me lembro... Eu acho... Na década de 90... Aconteceu".
- Ah! Era Dia Internacional da Mulher ou Dia das Mães, alguma coisa assim.
– Um jogo comemorativo.
O chefe de reportagem da TV Globo de São Paulo finaliza a conversa:
– Nossa! Eu nem sabia que o jogo seria com duas mulheres repórteres. Escalei a Fabíola e pronto. Tinha esquecido que a Nadja é a repórter de rede do Paraná.
Assim nasceu a primeira transmissão de futebol da TV Globo com duas repórteres: Nadja Mauad e Fabíola Andrade. Nós! Histórico. Emocionante. As pessoas mandaram mensagem para gente o dia todo.
Chegar ao estádio e falar do assunto era ainda mais especial. Tinha gente que estranhava:
– Mas só agora? Em 2018?
Tinha gente que elogiava:
– Vieram pra ficar.
Chega a delegação do São Paulo à Arena da Baixada. Jogo decisivo. Copa do Brasil contra o Atlético-PR.
Ricardo Rocha, ex-jogador, ex-colega de profissão pelo SporTV e agora dirigente são-paulino, pediu uma foto:
– Vou postar nas minhas redes sociais. Daqui a muitos e muitos anos vão lembrar deste dia!
A postagem bombou!
Nós duas nos posicionamos para entrar no ar. Aquele bom frio na barriga de sempre se transformou em um redemoinho. Que responsabilidade!
Não éramos eu e a Nadja. Eram todas nós. Muitas. Centenas. Anos e anos buscando espaço, respeito, reconhecimento. Sendo ofendida, ridicularizada no mundo esportivo.
Lançamos o movimento #deixaelatrabalhar há duas semanas. Pedimos voz. Chamamos a atenção para algo que acontece diariamente. E, de repente, todos iam nos ouvir.
Não deu tempo de fazer a entrevista com os treinadores, no começo do jogo. Diego Aguirre, técnico do São Paulo, então me chama e pergunta o motivo.
Eu expliquei que ficou apertado de tempo. E ele me surpreende:
– Eu tinha já pensado em um texto para dizer no ar, na transmissão, e parabenizar você e a outra repórter.
Eu ri e agradeci. Não precisava mais do recado no ar. O recado está dado. Estamos aqui.
- Fizemos o jogo e vamos ocupar nossos espaços, cada vez mais. Para sempre. É só o começo.