O processo envolvendo o conselheiro do São Paulo Antônio Donizete Gonçalves (Dedé) e o advogado e também conselheiro José Francisco Manssur pode ainda não ter chegado ao fim, mesmo depois de ter sido arquivado pelo Conselho Deliberativo (CD) do clube, em 2017.
Isso porque Dedé, como é conhecido, enviou um protocolo ao presidente do CD, Marcelo Pupo, pedindo a reabertura da investigação.
No ano passado, a Comissão de Ética do clube arquivou o processo interno contra Manssur. Donizete acusava-o de, em 2016, de vazar informações pessoais suas à torcida organizada Independente e pedir para esta “dar um jeito nele”. O arquivamento se deu uma vez que o Ministério Público (MP) do Estado de São Paulo disse não haver provas para sustentar as acusações.
Agora, em protocolo ao qual ESPN.com.br teve acesso, Dedé pede a retomada das investigações e cita um Inquérito Policial em que o advogado haveria confessado ter vazado os dados íntimos e de conhecer os membros da torcida.
O documento ainda acusa Manssur de ter mentido perante o Conselho ao afirmar que sequer tivesse contato com os integrantes da organizada, o que contribuiu para o arquivamento do processo, no ano passado.
“Em Inquérito Policial o autor do fato (...) veio a confessar que realmente teve contato com o torcedor e entregou meus dados” diz o texto, e continua: “ou seja, (...) também faltou com a verdade perante todos os demais membros (do Conselho)”.
Manssur desde o primeiro instante negou todas as acusações e deixou seu celular à disposição para esclarecer os fatos.
Ainda no protocolo, Dedé escreve que tal ameaça colocou em risco sua “família” e sua “integridade física e moral” e pede “enérgicas providências” por parte do São Paulo.
Outro argumento usado por Donizete é de que, mesmo se Manssur não tiver descumprido com a lei, isso não necessariamente prova que este não tenha descumprido com as norma do clube. Ainda mais, afirma também que as investigações na Justiça ainda não foram encerradas.
“O fato de não haver condenação penal, não isenta da infração disciplinar do clube e menos ainda da reparação civil pelas conseqüências do ato praticado, tanto assim que a apuração está em pleno andamento junto ao Poder Judiciário”, comentou o advogado de Dedé, Victor Rugino, à reportagem.
Além disso, anexado ao que foi entregue a Pupo está um novo processo (datado de janeiro de 2018) no qual Donizete aciona o ex-vice de comunicação pedindo indenização por danos morais.
O documento judicial (ao qual a reportagem teve acesso à minuta) usado por Donizete para reabrir as investigações tramita na 26ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), sob conduta do juiz Felipe Albertini Viaro.
Já o arquivado pelo MP, em 2017, corria na Vara Criminal desde 2016 e a acusação era de calúnia.
O CASO
Em 2016, o ESPN.com.brnoticiou que Antônio Donizete Gonçalves acusara Francisco Manssur de ter entregue à torcida Independente uma foto, tirada do livreto interno do Conselho Deliberativo, contendo dados como endereços comercial e residencial e foto, e pedido que a organização “desse um jeito” no então vice de esportes amadores por supostamente torcer para um clube rival.
Então, Dedé afirmou que a motivação de tal ato seria política: “Não sei porque ele fez isso sem ter fundamento. Será que é porque eu sou um dos coordenadores da oposição?”
Também em contato com a reportagem à época, Manssur disse desconhecer os fatos e afirmou que era perseguido por membros da torcida organizada.
"Antes de qualquer coisa, a acusação de que dei o endereço da casa do conselheiro é mentirosa e desde já coloco meu aparelho telefônico à disposição para ser periciado, mas exijo que o aparelho para o qual eu supostamente encaminhei essa mensagem passe pelo mesmo processo. (...) Apesar das nossas diferenças políticas, (...) eu me solidarizo com o conselheiro Dedé se em algum momento ele de fato foi ameaçado. Sei bem o que é isso; esta é uma realidade com a qual eu e minha família convivemos desde 2013”, explicou o então vice de comunicação do clube.
Dedé entregou um documento relatando toda sua história ao presidente do Conselho Deliberativo do clube à época, Marcelo Pupo, o que deu início ao inquérito posteriormente arquivado.
Também em 2016, o advogado Edgard Galvão, amigo pessoal de Dedé, mediou um encontro entre lideranças da organizada e o conselheiro no qual a torcida teria confirmado o recebimento dos dados, mas apaziguado a situação: “Não temos nada contra você. Você é bem-vindo na Independente”.
Posteriormente, em 2017, o ESPN.com.br também noticiou o arquivamento da investigação interna do caso após o MP de São Paulo afirmar que “não há que se falar que o averiguado tenha ameaçado a vítima de causar-lhe mal injusto e grave”.
OUTRO LADO
A reportagem novamente entrou em contato com Francisco Manssur que, mais uma vez, negou as acusações.
“O pedido de reabertura de um procedimento que acabou de ser arquivado, inclusive pelo ministério público revela um obsessão por mim que, por mais que eu considere um pouco estranha, recebo até como uma homenagem e o reconhecimento da minha capacidade política e gerencial”, declarou Manssur.
Sobre o Inquérito em que teria confessado entregar os documentos de Dedé, disse: “O Inquérito foi arquivado. Se eu tivesse admitido, teria sido?”
Presidente do Conselho Deliberativo, Marcelo Pupo confirmou o recebimento do protocolo na última terça-feira, mas ressaltou que devido à grande quantidade de requerimentos que recebe, ainda não deu início aos processos relativos ao pedido.