O argentino segue seu ritual de sempre, dando uma volta atrás do gol do portão principal para só então pisar no gramado de volta. Uma mania quase religiosa, que se repete jogo a jogo no Cícero Pompeu de Toledo.
Na Argentina, dá-se o nome de “cábalas” (assim mesmo, com acento tônico no primeiro "A") para essas mandingas dos boleiros. Algo que Pratto carrega desde o início de sua carreira, na base do Boca Juniors.
Josué Ayala, hoje goleiro do Temperley, da Argentina, e à época companheiro do são-paulino, é quem "denuncia" uma dessas manias do centroavante.
– Ele levava bonequinhos dos Simpsons dentro das chuteiras. Claro que para jogar ele tirava. Simplesmente os deixava dentro das chuteiras quando não as usava. Depois das partidas, voltava a colocá-los dentro – revela Ayala ao GloboEsporte.com.
Pratto é fanático pelos Simpsons, tendo inclusive tatuado uma imagem dos personagens Homer e Bart na perna direita.
Quem reforça o mito da adoração pelos Simpsons é seu próprio irmão, Leandro.
– Ele sempre teve um par de santuários. Minha mãe e eu sempre gostamos muito de cinema, então sempre o presenteamos com bonecos. E montou uma espécie de santuário com esses bonecos – conta Leandro.
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Tatuagem na panturrilha direita de Pratto: Homer pegando Bart pelo pescoço (Foto: Léo Simonini)
A carreira de Lucas Pratto foi se desenvolvendo, assim como suas cábalas. Na Universidad Católica, do Chile, onde chegou na metade de uma temporada e teve de atuar com a camisa de número 2, fez bastante sucesso e chamou a atenção de clubes europeus.
O Genoa, da Itália, venceu a concorrência e contratou o argentino, que teve a opção de escolher seu número para a temporada que se iniciava. E você acha que ele escolheu a 9, típico número do centroavante goleador?
– Ele chega e escolhe o número 2, o que para um atacante é muito raro. Mas ele já havia utilizado na Católica, então fez isso por superstição. Era muito divertido vê-lo com essa camiseta – diz Cristóbal Jorquera, chileno que foi companheiro de Pratto na Itália.
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Pratto usava o número 2 no Genoa, da Itália (Foto: Claudio Villa / Getty Images)
A passagem do atacante pelo Genoa não foi das melhores, mas um chamado do Vélez Sarsfield o atraiu de volta para a Argentina. No clube, Pratto foi bem e ganhou o carinho da torcida, conquistando um Campeonato Argentino. O sucesso no Fortín pode ser também explicado por um ritual sagrado seguido em todos os jogos do time.
– Cada vez que saía para o campo, tinha que sair com uma bola debaixo do braço e chutava ela para algum canto – afirma Diego Canali, amigo pessoal do jogador e ex-companheiro na base do Boca.
No Atlético-MG, onde Pratto desembarcou após o Vélez, as cábalas atingiram um novo patamar. Quem conta é o zagueiro Edcarlos, ex-colega dele no Galo e responsável por descobrir um ritual bastante curioso do argentino no CT da equipe atleticana.
– Eu sentava do outro lado (do vestiário do CT), lado oposto dele, e a porta de saída já era do lado dele. Ele dava uma volta... E (passaram) dois dias, três dias, eu falei: "cara, por que toda vez ao invés de sair ali ele vem cá, depois volta?". Pensei que ele vinha cumprimentar alguém ou algo do tipo. Mas era para dar a volta no baú, para depois sair (risos). Teve um dia que eu peguei e fechei. Peguei o baú, peguei mais uns negócios e fechei a passagem do meu lado para que ele não conseguisse dar a volta. Foi o dia que todo mundo rachou o bico com ele e descobriu. "Tá de brincadeira, cara. Todo dia você dá a volta aqui, pelo amor de Deus!". Todo jogador tem sua superstição, sua intimidade com essas coisas. Confesso que é engraçado – diz Edcarlos, ex-São Paulo.
No Tricolor, Pratto chegou com a camisa 14. Quando o argentino Chávez foi embora de volta para o Boca, a 9 ficou sem dono. Com o time na zona do rebaixamento, Pratto resolveu mudar e assumiu a numeração do centroavante nato. Desde então, porém, fez só dois gols. E ainda passou pela situação absurda de levar uma joelhada (involuntária, claro) de um companheiro de time (Hernanes) logo em seu primeiro jogo com a 9, diante do Palmeiras, na arena do rival.