Então tricampeão brasileiro, o São Paulo, oito anos atrás, chegou ao torneio nacional com troca de técnico, já que Muricy Ramalho havia sido demitido - contra a vontade da torcida, assim como Rogério Ceni nesta semana -, e com péssimo início. Como nesta temporada, também tinha perdido um clássico para o Corinthians fora de casa, em 2009 por 3 a 1, com gol tricolor marcado por Richarlyson, que, em entrevista exclusiva ao Esporte Interativo, explicou aquele momento que a equipe, à época comandada por Ricardo Gomes, viveu.
"Era uma ocasião diferente (da que é hoje). Vínhamos de três títulos consecutivos (2006, 2007 e 2008), e existe um certo relaxamento, que é normal. Aquele grupo tinha 'gordura', na gíria do futebol. A gente sabia que era um relaxamento natural por ter ganhado o título no ano anterior, mas sabíamos que não poderíamos manchar o título de 2008 com um rebaixamento em 2009", disse.
Para a reviravolta, o volante, hoje no Guarani, explicou que o pontapé inicial foi uma reunião em que os jogadores expuseram seus pensamentos, pontos negativos e positivos do time, além do que poderiam melhorar individualmente.
"Nos reunimos, foi uma reunião entre nós, jogadores, e cada um avaliou o que estava fazendo de bom e o que não estava fazendo. A partir desse momento, das avaliações individuais, conseguimos dar a reviravolta e quase fomos campeões. É mais a questão de você readquirir confiança, futebol não tem segredo... Era um momento diferente do que é hoje, mas houve um relaxamento normal, que não poderia acontecer, porém quando avaliamos individualmente, dentro de campo conseguimos dar a resposta que sabíamos que éramos capazes".
Naquela ocasião, Richarlyson conta que o mentor da reunião entre os jogadores foi Rogério Ceni, capitão do time. Na visão do volante, os jogadores mais experientes e identificados do atual elenco têm que tomar atitude parecida.
"(Quem reuniu) Foi o Rogério. Não tem jeito, o Rogério era esse líder. Houve uma diferença porque nossa pressão era diferente da que eles, hoje, têm. Nosso questionamento era por que tínhamos parado de jogar. Hoje talvez não seja esse questionamento que eles vão abordar, se abordarem... Agora vai caber ao Dorival, com sua experiência e sabedoria, que já trabalhei com ele e conheço, trazer o grupo novamente para essa realidade, que é difícil para o São Paulo, como instituição, não só os atletas. Às vezes o Pratto, o Lugano, o próprio Rodrigo Caio, jogadores com mais identificação com o clube, têm que chamar a responsabilidade, a liderança, e avisar a galera que a água está batendo no pescoço e não tem mais para onde ir, vamos nos afogar".
Na parte de baixo da tabela naquele ano, o Tricolor venceu o Santos por 2 a 1, na 12ª rodada, e então alcançou uma série de nove jogos sem derrota, sendo oito triunfos, o que o colocou entre os líderes da competição. A arrancada, inclusive, foi o começo de um grito que virou constante nas arquibancadas do Morumbi: "o campeão voltou".
"O mais gostoso de tudo é que a gente conversou e colocamos o que foi conversado em campo. Todo clássico é igual. É diferente dos outros jogos, mas é igual. E clássico dá mais ânimo. Sabíamos que vencendo um clássico a torcida voltaria a acreditar, existe toda uma mística. No vestiário, depois, conversamos e falamos que esse era o São Paulo que conhecíamos, que foi campeão. A torcida sabia que tinha um grande elenco, e que talvez o momento não fosse bom, mas poderiam contar com o time. A qualquer momento, dando um estalo, o campeão poderia voltar, e hoje não tem isso. Dentro de campo para nós era uma motivação a mais. 'O campeão voltou', vish, até arrepia".
Por fim, Richarlyson, que atuou pelo São Paulo de 2005 a 2010, tendo sido campeão do Mundial e três vezes do Brasileiro, deu uma dica ao atual elenco para sair dessa situação incômoda.
"Hoje eu falaria o seguinte: vamos fazer o simples. Não é feio você ganhar de 1 a 0 e se defender por um resultado. Isso não é feio, é estratégia de jogo. Às vezes está bonito 32 finalizações, 30 cruzamentos, posse de bola, mas não vence. E aí, onde está o bonito? Zona do rebaixamento é bonito? Não tem nada de bonito... Agora é fazer o simples, lutar até o último minuto como se fosse o último jogo, decisão de campeonato, resgatar a confiança e reviver os bons momentos, porque futebol é igual andar de bicicleta, você não esquece. É pegar a bicicleta, andar de forma correta sem desconcentrar ou brincar, que aí não vai ter acidentes", completou.
O São Paulo encara o Santos no próximo domingo (09), na Vila Belmiro, às 19h (de Brasília). Com 11 pontos, o Tricolor é o 17º na tabela, enquanto o rival ocupa a 5ª posição, com 17.