Jogar no São Paulo: uma grande moleza para uns, um inferno para outros

por Pedro De Luna

Fonte Globo Esporte
Janeiro de 2017: o sorriso tímido
Ainda com o forte hálito da Sidra Cereser afetando meus julgamentos, me sentei à beira da piscina em que passei o réveillon e me pus a fitar o nada, sob o sol fritante do primeiro dia de 2017. Enquanto Lux, o cão, tentava sem sucesso me fazer aquilo que os jovens chamam de "sarrar", comecei a imaginar o novo ano que começava para o Tricolor. Já pensou se Rogerio, apesar de ter o currículo em branco, se provasse um grande treinador? E se Michael Beale pusesse em prática o que desenvolveu nos seus 9 livros sobre métodos de treinamento e efetivamente transformasse o São Paulo num dínamo ofensivo, como pregava seu novo patrão? De repente um 3-4-2-1 igual ao do Antonio Conte, reinventando algumas posições de jogadores, sei lá. E se Leco revertesse o vórtex de apequenamento que assola o auto-proclamado Soberano e sustentasse um projeto de médio e longo prazo pela primeira vez na década? Dentro de campo, estava claro desde então que o elenco da temporada se montaria em torno de 5 pilares: a dupla Maicon e Rodrigo Caio atrás e o trio David Neres, Cueva e Wellington Nem aprontando um salseiro à frente. Podia dar samba. Um sorriso se formou em minha face, enquanto me desvencilhava de um persistente Lux, o cachorro sarrador.

Além disso, seria hipócrita negar uma pontinha de satisfação com as perspectivas pouco animadoras que se rascunhavam para o Corinthians. Endividado, fora da Libertadores e repleto de reforços questionadíssimos, o clube do Parque São Jorge irritou sua torcida ao, aparentemente, deletar os vestígios vencedores da passagem de Tite por lá. A incerteza começava pelo próprio banco de reservas: após ouvir seguidos nãos de Jair Ventura, Dorival Junior, Reinaldo Rueda, Guto Ferreira e Eduardo Baptista, a direção alvinegra confirmou que o ex-interino Fabio Carille seria o treinador. Nos bastidores, um pepino para testar a habilidade diplomática da gestão: com contrato até o fim do ano, Rodriguinho só faltou implorar publicamente para ser liberado para o Fenerbahçe, mas a contragosto foi convencido a ficar e teve seu vínculo renovado. O cheiro de dúvida pairando pelo ar da Zona Leste paulistana satisfazia os anseios ligeiramente sádicos de um são paulino bêbado numa casa no interior do Estado.
Fevereiro de 2017: empolgou (mas não conta pra ninguém)
A inesperada venda de David Neres por uma altíssima soma contou com a compreensão do torcedor. O São Paulo precisava muito de dinheiro e a oferta do Ajax era irrecusável. Se um dos 5 pilares deixava o clube, outros surgiam: contra muitas expectativas, Luiz Araújo, o pupilo menos badalado de Cotia, emendou uma sequência de grandes atuações, ganhando não apenas a titularidade mas o status de xodó das arquibancadas após decidir um San-São na Vila Belmiro. Se Wellington Nem se lesionou na estreia do Paulista, o torcedor ganhou motivos para sorrir quando Jucilei e Lucas Pratto foram anunciados e apresentados com pompa, diante de um Morumbi lotado. Sem nenhuma dúvida, o Tricolor havia ganho três novos pilares, totalizando agora 7 peças em torno das quais a equipe de 2017 se construiria: Rodrigo Caio, Maicon, Jucilei, Cueva, Wellington Nem, Pratto e Luiz Araújo.
De quebra, o futebol altamente ofensivo e envolvente, alguns bons resultados no Paulista, o aproveitamento de diversos garotos da base (após anos negligenciando-os em detrimento de medalhões caros de qualidade duvidosa), o discurso audacioso e perfeccionista de Rogerio Ceni, a surpreendente ascensão de peças como Gilberto, Junior Tavares e Araruna e a renovação sequencial de contratos de atletas como Thiago Mendes, Cueva, Lucas Fernandes, Shaylon e Luiz Araújo sinalizavam que Leco, a dois meses de concorrer numa acirrada eleição, nutria ambições esportivas e tinha um plano claro para atingí-las: interromper o entra-e-sai infinito que marca a política de compras e vendas do São Paulo desde 2010, construir, valorizar e manter uma base vencedora. O sorriso do réveillon só aumentava, ainda que o favoritismo passasse longe da Barra Funda. Éramos franco atiradores e esse papel nos cabia bem.
Junho de 2017: de volta à estaca zero
Após uma queda brusca e notória no desempenho, com direito a três eliminações em um curtíssimo espaço de tempo, o São Paulo se vê com apenas uma competição a disputar em meio ano. Pior: com míseros 11 pontos conquistados em 30 possíveis, o Tricolor atualmente patina sobre gelo fino, apenas 1 ponto acima da zona de rebaixamento, com quem perigosamente flertou em 2013 e 2016, e desde a largada já dá todos os sinais de que não terá a mínima aspiração ao título. A antiga irregularidade entre as partidas deu lugar à irregularidade durante as partidas: após 20 bons minutos, não é raro ver os comandados de Rogerio Ceni terem blackouts criativos que se arrastam até o final do jogo, com o vazio de ideias sendo brevemente maquiado por espasmos em forma de cruzamentos para a área. O estilo intenso, veloz e propositivo do verão deu lugar a doses cavalares de pragmatismo, que num primeiro momento surtiram efeito, como um paliativo para a falta de repertório do time. As convicções de fevereiro foram momentaneamente postas de lado em nome do que mantém a cabeça de um treinador pressionado: os resultados. A bem da verdade, mesmo estes abandonaram o São Paulo há mais de mês.
Ceni, por sua vez, teve momentos de negação dos fatos ao longo do primeiro semestre de sua carreira como manager e parece ter sido o último a se render à realidade de que o "time que ataca bem" que ele enxergava não apenas passou a atacar miseravelmente mal como também pouco se fortaleceu defensivamente, vitimado por falhas individuais grotescas, mas também por erros coletivos que expõem a linha de defesa a um frequente deus nos acuda. Entre casos de fair play mal digeridos internamente, uma condução trágica da renovação de contrato do maior ídolo da torcida, um departamento médico sempre lotado e jogadores se apresentando com físico roliço em pleno meio de temporada, ficou claro que algo se perdeu. O fio da meada, talvez.
Fogueira para uns, calmaria para outros
Em forma técnica e física que em nada lembra o excelente zagueiro que em 2016 motivou a diretoria a abrir os cofres para comprá-lo, o ex-capitão e God of Zaga Maicon foi negociado com o futebol turco sem que o clube fizesse qualquer esforço para mantê-lo. Seu substituto poderia ser Lyanco, apontado por Marcelo Bielsa e Osorio como um fenômeno em potencial, mas, por preço semelhante, o garoto de 20 anos também zarpou meses antes rumo ao Calcio. Precisando de minutos de jogo, Breno requisitou um empréstimo e foi prontamente atendido. Rogerio Ceni tentou então valorizar a prata da casa, dando oportunidades a Lucão, há anos marcado pela torcida. O garoto desmoronou, falhou seguidas vezes e, em meio a mais um inferno astral, se esquentou frente aos microfones. Foi afastado, multado e será negociado. Está fadado ao degredo da pior forma possível. Douglas, nas poucas chances que ganhou, mostrou mais poréns do que motivos para ser confiado. Eder Militão, joia de Cotia, subiu jogando feito veterano, teve pequenas oscilações e foi sacado, talvez para ser poupado do risco de seguir os passos que Lucão trilhou desde 2013. Lugano, que há duas semanas era dado praticamente como um ex-jogador em atividade, virou opção para a titularidade, precisamente no momento em que a bola queima no pé de todos. A zaga apenas exemplifica o que é o todo são paulino há anos: uma fogueira. Não há quem sirva para ela. Se servir, é apenas temporariamente, até que o ardor do fogo lhe consuma por inteiro. Alguns apenas se aquecem, cômodos, sem maior envolvimento. Outros arrumam as malas antes de se queimar. A fogueira amedronta.
Em época de São João, a lenha não pode faltar. Giuliano Bertolucci, o mesmo empresário que havia trazido a oferta do Ajax por David Neres em janeiro e que intermediou a ida de Lyanco para o Torino, voltou a bater à porta de Leco. Dessa vez, trazia debaixo do braço propostas do Lille por Luiz Araújo e Thiago Mendes. O primeiro já se foi, o segundo é bem possível que vá, e nada garante que a liquidação pare por aí, seguindo a lógica de que jovens jogadores mal tenham tempo de criar qualquer traço de identificação com o São Paulo. Paralelamente, o empresário de Cueva concede uma incendiária entrevista delineando o roteiro clássico de quem cava uma saída do clube ao alegar "desrespeito" a seu atleta, que, ostentando um shape pouquíssimo atlético, há 3 meses não marca um gol, não dá uma assistência sequer e tem tido participação diminuta no jogo com e sem bola.

A maneira com que o São Paulo lida com isso aparenta ser a mais amena e indiferente possível: concede vaga cativa entre os titulares a seu talentoso camisa 10, ainda que isso custe pontos, tempo e esgote a confiança do elenco. A torcida, então, se vê entre a cruz e a espada: morde a isca do empresário e vaia o irreconhecível Cueva, dando-lhe razões para apontar um "clima insustentável" e solicitar uma transferência ou manifesta apoio à peça mais talentosa do plantel, passando-lhe um recado que pode ser erroneamente interpretado como "você não tem nenhuma culpa pela fase, continue assim"? Bem, a verdade é que essa decisão não deveria caber à arquibancada, e sim a quem gere o clube e tem real poder de mudar o curso da história, que hoje se encaminha para mais um desfecho triste.
Primeiramente, é preciso pontuar que jogadores passam por más fases pelos mais variados motivos: lesões mal curadas, subnutrição, supernutrição, combos de vodka com energético em excesso, Trakinas em profusão, divórcios, traições, problemas de saúde na família, mau relacionamento no elenco, desentendimentos com a comissão técnica, empresários interessados em transferências milionárias, disfunção erétil, vaias, manchetes negativas, boletos vencendo, deslumbramento, assaltos no semáforo, cancelamento de sua série favorita no Netflix, entre outros. Por mais que as contas bancárias às vezes pareçam desmentir, porém, os boleiros são pessoas de diferentes perfis sujeitos a oscilações motivacionais, exatamente como qualquer ser humano. Nós, torcedores, permanentemente temos uma tocha em riste na mão, pronta para apontar o fogo ao culpado da vez, que macula nosso orgulho desrespeitando o clube que amamos. Não aceitamos desculpas e, por vezes, cruzamos a linha entre a cobrança e o patrulhamento, movidos por uma sanha inquisitória e punitivista já há muito naturalizada na cultura do futebol.
O clube, por outro lado, tem obrigação e subsídios para monitorar o dia-dia do atleta, seu desempenho nos treinos e jogos, enfim, seu envolvimento com a causa de maneira geral - o que não significa cercear sua vida pessoal. Para isso, é preciso contato humano, algo que uma gestão marcada pela impessoalidade e a distância entre o gabinete e o gramado claramente não tem sido capaz de dar. Estamos falando de profissionais sob contrato que, por vezes, não passam nem perto de entregar aquilo que precisam. Cabe ao clube ser mais que um simples empregador e buscar saber as razões. Em más fases, existem diversas maneiras de proceder, como mostram exemplos públicos por aí: pode-se optar pelo caminho paternalista de passar a mão na cabeça do jogador fingindo que nada está acontecendo; pode-se discretamente colocá-lo à venda; pode-se adotar postura autoritária e expor seu funcionário ao isolamento e ao julgamento público, dando sua cabeça aos leões e desvalorizando seu próprio patrimônio; ou pode-se tentar a saída mais conciliadora, de convencer o jogador de tudo que está devendo em campo, apelando à sua vaidade, trazendo-o de volta à órbita e conscientizando-o de que tem muito a ganhar se retomar a boa fase com o clube. A lenda do "não há como segurar jogador insatisfeito" tem uma porção de exceções amplamente conhecidas, em que reviravoltas muito bem sucedidas ocorreram, graças ao fato de o clube ter se posicionado de maneira firme. Vide o exemplo mencionado no 2o parágrafo: Rodriguinho, que forçava publicamente sua saída, não apenas permaneceu no Corinthians, como chegou à Seleção e hoje reconhece que teria sido um erro crasso partir para a Turquia em janeiro.
O grande problema do São Paulo é não ter qualquer convicção ao lidar com os casos que lhe aparecem. Para uns, multa de 20% no salário e afastamento definitivo do elenco. Para outros, um incômodo silêncio inerte em vez de uma conversa franca sobre o que precisa ser melhorado. Se em 1993, em meio à maior fartura de troféus de nossa história, Milton Neves cunhou a frase "Torcer para o São Paulo é uma grande moleza", quase 1/4 de século depois é legítimo supor que o bordão poderia mudar para "Jogar no São Paulo é uma grande moleza". Para alguns, claro. Com isso, os atletas vêm e vão sem saberem nem um décimo da grandeza do que representam para milhões de pessoas, da camisa que envergam, da história que podem construir numa instituição desse porte. Costuram com o clube uma relação idêntica àquela que os responsáveis pelo clube costuram com eles: fria, impessoal e, quando muito, meramente profissional. Assim, o São Paulo se consolida como uma reles vitrine, um trampolim para contratos lucrativos na Turquia ou noutros rincões da bola enquanto mói alguns outros tantos jogadores menos renomados pelo caminho.
Cabe, por fim, lembrar que dos 7 pilares de fevereiro, Maicon e Luiz Araújo já foram negociados; ainda espera-se que Wellington Nem efetivamente faça sua real estreia pelo clube; Jucilei está emprestado (o que dificulta que se planeje um futuro a longo prazo consigo); Cueva parece lamentavelmente seguir o passo a passo para conquistar uma transferência e há meses vem muito mal; Rodrigo Caio é sempre cotado como a bola da vez para o futebol europeu e Lucas Pratto, a um ano da Copa do Mundo que sonha em disputar, vê seu novo time ser inteiramente contaminado pela falta de ambição transmitida de cima abaixo pela instituição. Os pilares quase todos ruíram, pois o São Paulo criou condições para que ruíssem, em meio à ferrugem de sua vaidade de acreditar ter uma gestão perfeita. O planejamento do início do ano, para variar, foi rasgado e resetado. Agora vêm Petros, Arboleda, Gómez, Maicosuel, Marcinho. Daqui a pouco o filme se repete e lá vai a torcida se iludir novamente com atores diferentes, vendo sua diretoria firmar novos pilares sobre a areia movediça, como num eterno mito de Sísifo, remando firme para lugar algum enquanto os rivais adicionam mais estrelas à camisa.
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