Entenda por que gigante adormecido da Europa pode ser trampolim ou 'cemitério' para David Neres

Fonte ESPN
David Neres, revelação do São Paulo
Com apenas oito jogos como profissional do São Paulo, o atacante David Neres, de 19 anos, deve ter oficializada sua venda para o Ajax por 15 milhões de euros (R$ 50 milhões). A transação, caso seja oficializada nesse valor, será o segundo mais alto pago pelo maior campeão da Holanda por um atleta - atrás apenas dos 16,25 milhões de euros que o clube desembolsou para tirar o sérvio Miralem Sulejmani do Heerenveen em 2008.
Mas o que esperar de Neres, ainda uma promessa do futebol, no tetracampeão da Champions League?
O lugar certo para aparecer para o mundo
Desde que ganhou a Uefa Champions League pela última vez, em 1995, o Ajax sofreu para se adaptar à mudança de cenário econômico do futebol europeu, no qual deixou de ser protagonista e virou coadjuvante. As cifras holandesas ficaram bem atrás das pagas nos grandes centros (Itália, Espanha, Inglaterra) e também em alguns outros secundários, como Turquia, Rússia, e obviamente o mundo árabe e mercado asiático.
Para manter as contas em dia, algo em que o clube se tornou exemplar hoje em dia, o Ajax resolveu apostar na sua base ou comprar jogadores bem antes deles explodirem, para ser uma vitrine dos grandes europeus.
E isso tem dado certo. Desde o início do milênio, o Ajax revelou ou "apresentou" para o mundo craques de nível alto. Esses são os casos de Zlatan Ibrahimovic (comprado do Malmo-SUE em 2001, aos 19 anos), Luis Suárez (que veio do Gronigen-HOL, em 2007, aos 20 anos), Wesley Sneijder (criado na base), Christian Eriksen (base), entre outros.
Isso sem citar as revelações que apareceram no Ajax campeão da Copa da Uefa em 1992, da Champions e do Mundial de Clubes em 95 e finalista da Liga dos Campeões no ano seguinte: Edgar Davids, os irmãos De Boer, Dennis Bergkamp, Patrick Kluivert, Clarence Seedorf...
Essas noites de Amsterdã são perigosas e têm levado muitos jogadores a não conseguirem ter uma evolução boa
Wamberto, brasileiro de maior sucesso no Ajax
"O Ajax é um time que sempre teve a filosofia de formar jogadores para vender para o mundo. Nos últimos tempos, o time teve uma decadência muito grande nessa questão de formar jogadores. Hoje, com a nova filosofia, está querendo voltar a ser o Ajax do passado. Então eles são obrigados a se enquadrar na filosofia de outros clubes grandes, de contratar jogadores que já têm um pouco de nome e até fazer um investimento mais alto, o que era difícil de acontecer, já que a intenção era revelar. E é o que está acontecendo no caso do Neres", disse o ex-atacante Wamberto, brasileiro que teve passagem de sucesso pelo clube entre 1998 e 2004, ao ESPN.com.br.

Wamberto (dir.) comemora gol do Ajax com Ibra e Sneijder (18)
Sucesso nas contas, decepção no campo
Mesmo sempre bem na situação financeira, a aposta nos jovens veio a um preço, e o Ajax deixou de figurar entre os gigantes da Europa, para assumir um papel secundário. E dentro de "casa" o clube também ficou para trás.
Desde 2000, o Ajax ganhou seis títulos do Campeonato Holandês. Seu maior rival neste período, o PSV Eindhoven, venceu nove.
De campeão da Champions em 95 e finalista em 96, o Ajax jogou a fase de grupos da competição oito vezes desde 2000 e só avançou ao mata-mata em duas oportunidades: 2003 (quartas de final) e 2006 (oitavas).
O PSV disputou sua 11ª edição da Champions desde 2000 e passou para o mata-mata quatro vezes: 2005 (semi), 2006 (oitavas), 2007 (quartas) e 2016 (oitavas).
O clube não gosta muito de brasileiros

Suárez fez 81 gols - 49 em 09-10 - em 110 jogos no Ajax
Nos últimos 20 anos, apenas seis brasileiros jogaram no Ajax. O atacante Wamberto, o de maior sucesso, ficou seis anos e meio por lá. Maxwell, hoje no Paris Saint-Germain, ficou cinco. O meia-atacante Leonardo Santiago, dois, assim como o zagueiro tetracampeão do mundo Márcio Santos. Kerlon e Zé Eduardo ficaram apenas uma temporada e não atuaram pelo time. Hoje no Atlético de Madri, Filipe Luís também ficou um ano lá e pouco jogou.
Apesar de contar com revelações do mundo todo, o Ajax na sua história recente não teve muitos brasileiros. A maioria deles, com exceção de Márcio Santos, pouco jogou aqui no Brasil e saiu daqui desconhecido. O zagueiro, por sinal, foi um exemplo que não se adaptou ao clube e à cultura do país.
"Existia uma filosofia dentro do Ajax que os caras não gostavam muito de brasileiro. O Márcio Santos não se adaptou à cultura, no sistema, no primeiro jogo foi expulso. Mas depois disso o Ajax me contratou e mudou toda aquela maneira deles de pensar. Eles viram que eu fiquei seis anos e meio no clube. Depois o Maxwell chegou e me ajudou muito. Eu ajudei muito ele, é meu melhor amigo no futebol e ele me agradece muito", contou Wamberto.
Dicas de quem sabe
A expectativa em cima de David Neres é grande. Por isso, Wamberto, o jogador brasileiro que melhor conhece a cultura e filosofia do Ajax, deu conselhos à revelação são-paulina.
"A dica que eu dou para ele é que ele tente colocar o pé no chão, chegar em Amsterdã e não focar em outras coisas, mas sim no trabalho do Ajax porque o clube trabalha não só dentro de campo, mas fora de campo também é muito importante, que foi o meu caso, do Maxwell, que se adaptou bem também. Eu creio que o brasileiro, sul-americano que melhor se adaptou em todos os tempos do Ajax fui eu. Eu conheço muito bem o clube, até hoje tenho contatos, casa em Amsterdã. Eu aconselho ele a colocar o pé no chão, trabalhar, porque Amsterdã oferece muitas coisas boas que para um jogador de futebol é um pouco delicado", afirmou.
"Amsterdã é uma cidade encantadora. Uma das coisas que para nós sul-americanos, tem que estar focado só no trabalho do Ajax porque essas noites de Amsterdã são perigosas e têm levado muitos jogadores a não conseguirem ter uma evolução boa. Uma das coisas que eu sugiro para ele é não se envolver com qualquer um, saber os ambientes que frequentar, porque Amsterdã é um pouco complicado, principalmente para quem joga no Ajax", completou Wamberto.
Estrutura de clube grande
Quando chegou ao Ajax, Wamberto tinha sido revelado pelo Sampaio Corrêa-MA e teve uma breve passagem pelo futebol belga. E na época o time holandês fez de tudo para ele se sentir em casa.
"Eles dão uma estrutura muito boa, dando casa, carro. E normalmente eles sempre colocam à disposição uma pessoa que fala os dois idiomas. No meu caso, quando eu cheguei na Holanda, sabia só falar francês e português. Então eles colocaram uma garota argentina, a Priscila, que me ajudava e que acompanhava meus filhos, minha esposa, me ajudou bastante. Eu tinha aula de holandês três vezes por semana, às vezes antes do treino ou depois", lembrou Wamberto.
Com David Neres, mais nova aposta do "gigante adormecido", não deve ser diferente.
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