Se lesse regulamento, CBF poderia ter vetado vendas de mandos desde início do Brasileirão

Fonte ESPN
12 de Outubro de 2016
Na última terça-feira, após a repercussão negativa pela realização da partida América-MG 0 x 2 Palmeiras em Londrina-PR, tradicional reduto palmeirense, a CBF decidiu proibir a venda de mandos de campo para outros Estados até o fim do Campeonato Brasileiro, sob a justificativa de "preservar o equilíbrio técnico" da competição.
Se tivesse lido seu próprio regulamento, porém, a entidade que rege o futebol nacional poderia ter vetado as vendas desde o início do torneio.
Segundo o Regulamento Geral de Competições de 2016, "em caso de transferência de partida para outros Estados, o clube mandante deverá obter, por escrito, a aprovação e concordância de todos os envolvidos, a saber, a Federação ao qual está filiado, a Federação anfitriã e o clube visitante, cabendo à CBF/DCO o poder de veto, levando em conta os aspectos técnicos e logísticos".
Ou seja, a CBF teve desde sempre o "poder de veto" para caso de desequilíbrio nos "aspectos técnicos", o que ocorre muitas vezes com as vendas de mandos para outros Estados.
Vale lembrar que o "fator casa" é decisivo no Brasileirão, já que os times que jogam com apoio da maioria da torcida vencem 60% das partidas na competição. Ou seja, o mando de campo mais a torcida compõem um "aspecto técnico" totalmente relevante.
Um exemplo anterior ao de América-MG x Palmeiras ocorreu no início de agosto, quando o Santos vendeu o mando e foi jogar na Arena Pantanal ao invés da Vila Belmiro.
Resultado: "invasão" flamenguista e time rubro-negro se sentindo em casa, apesar do 0 a 0. O próprio técnico Dorival Jr lamentou muito a notícia de que teria que atuar no Mato Grosso.
"Sabemos que saindo do Estado de São Paulo teremos 95% da torcida contra", disse, alguns dias antes do duelo em Cuiabá.
Já nesta quarta-feira, a Arena Pantanal voltará a receber uma partida proveniente da venda de mando para outro Estado: Santa Cruz x Corinthians.
Brigando contra o rebaixamento, o time pernambucano vem contando com públicos minguados no Arruda, e tomou a decisão de jogar no Mato Grosso, onde a torcida corintiana é forte, para encher a casa, rentabilizar e tentar amenizar o problema dos salários atrasados.
Diferentemente do Recife, porém, o Santa não contará com o calor de seus torcedores, vendo o "aspecto técnico" da força da torcida ser invertido, assim como no Santos x Flamengo em Cuiabá e no América-MG x Palmeiras em Londrina, que teve torcida quase 100% palestrina.
Até mesmo na Série B isso vem acontecendo. O Paraná Clube, por exemplo, tem prejuízo de quase R$ 30 mil quando joga em Curitiba. Por isso, vendeu o mando da partida contra o Vasco, no próximo dia 22, para o estádio Kléber Andrade, em Cariacica-ES, onde a massa vascaína é forte.
A venda de mandos, aliás, vem em crescente desde a inauguração dos estádios usados na Copa do Mundo de 2014.
No Brasileirão do ano passado, por exemplo, ocorreram diversos jogos fora do Estado, como Flamengo 3 x 0 Avaí, na Arena das Dunas (Natal-RN) e Ponte Preta 0 x 2 Palmeiras, na Arena Pantanal, e Vasco 0 x 4 São Paulo, no Estádio Nacional de Brasília.
Os times que venderam os mandos podem até ter lucrado com bilheterias, mas em campo o resultado foi ruim, com um aproveitamento de cerca de 40% para quem quis jogar longe de casa em troca de dinheiro.
Brecha no regulamento
No caso do América-MG, que está praticamente rebaixado e quer apenas lucrar com vendas de mandos no Brasileirão, há uma brecha no regulamento.
A ordem da CBF impediu que as equipes mandem seus jogos fora do Estado do origem. Porém, o clube de Belo Horizonte pode aproveitar particularidades geográficas para ainda assim lotar estádios com torcedores rivais e lucrar até o fim do torneio.
Em 15 de novembro, por exemplo, o América-MG recebe o Flamengo. Caso opte por jogar em Juiz de Fora, próxima à fronteira com o Rio de Janeiro, o "Coelho" pode lotar o Estádio Municipal Radialista Mário Helênio com rubro-negros, como habitualmente acontece em partidas realizadas na cidade mineira, por vezes usada como sede dos clubes cariocas.
Já contra o São Paulo, em 31 de outubro, os americanos podem jogar no Parque do Sabiá, em Uberlândia, próximo ao Estado de São Paulo, onde a torcida tricolor também é forte.
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