A noite do maior público do Brasil neste ano foi também do maior tumulto entre torcedores. A praça Roberto Gomes Pedrosa, em frente ao Morumbi, virou um campo de guerra por aproximadamente trinta minutos. O susto tomou conta até de quem estava dentro do estádio e ouvia às bombas com as quais a Polícia Militar reagia aos ataques das torcidas uniformizadas do São Paulo. Antes da batalha, 62 mil torcedores assistiram à vitória do Atlético Nacional na semifinal da Copa Libertadores. As arquibancadas estavam lindas.
Contraste com os 492 torcedores no Raulino de Oliveira para assistir Fluminense 1 x 1 Ypiranga. Antes, no sábado passado, havia 917 espectadores em Fluminense 0 x 0 Coritiba. Atenção! O jogo de quarta-feira valia pela Copa do Brasil e no sábado era Campeonato Brasileiro da Série A. Não era jogo de estadual para decretar que a falência dos torneios do início do ano produz públicos ridículos.
O São Paulo levou público na Libertadores, porque o jogo era pesado. O Fluminense em décimo segundo lugar no Campeonato Brasileiro não atrai sua imensa torcida, como atraía ao Engenhão e ao Maracanã nas campanhas dos títulos brasileiros de 2010 e 2012 ou do vice-campeonato da Libertadores de 2008. “É por isso que eu canto, visto este manto, orgulho de ser tricolor'', cantavam felizes as arquibancadas cariocas naquele tempo.
“O Fluminense vai viver provavelmente o pior ano de sua história'', disse Levir Culpi enquanto insinuava seu pedido de demissão na quarta-feira à noite. Teve gente que não entendeu. Levir falava sobre um time sem casa. As viagens para Volta Redonda explicam em parte o fracasso de público. Em parte, apenas.
Há outros fatores e até hoje não se fez no Brasil o diagnóstico certo sobre as razões de o torcedor ir ou fugir dos campos.
Enquanto Corinthians e Palmeiras levam 33 mil e 26 mil em média a seus estádios por causa do efeito novidade de seus estádios e pelo sucesso dos planos de milhagem — quem vai a todos os jogos tem prioridade na compra e vantagem no preço — os demais clubes brasileiros seguem a receita histórica de confiar no sucesso dos resultados e nas festas das arquibancadas para venderem ingressos.
Este modelo é que está falido. Não os campeonatos, sejam estaduais, nacionais ou continentais. É possível fazer um Campeonato Brasileiro que atraia gente aos estádios em todas as rodadas se houver um árduo trabalho para isso.
Mas é preciso tentar diagnosticar sem preconceito o que o público deseja, sem chamar de elite quem paga em média R$ 27 por bilhete e lota o Gol Norte do Allianz Parque, ou desembolsa R$ 50 e vai a Itaquera com tranquilidade e sem brigas.
Se no Raulino de Oliveira, o ingresso custa R$ 24 e isso atrai 492 torcedores, e no Morumbi o bilhete médio a R$ 121 levou o maior público do ano ao estádio, é porque há outras razões para o vazio das arquibancadas além do preço. Se a violência não frequenta os arredores de Itaquera e rua Palestra Itália, há motivos para haver gente em grande quantidade em suas tribunas.
Muitos dos que pagaram caro para assistir à derrota do São Paulo dirão nesta quinta-feira que não pretendem voltar ao estádio pela dificuldade para sair do Morumbi vendo a guerra entre a PM e a Torcida Independente. As experiências pessoais justificam o discurso e não adianta alguém dizer que vai aos jogos desde os 5 anos sem jamais ter levado um tapa, como é o caso deste colunista, que passeia pelas escadarias dos estádios como um leão caminha nas savanas. Se você sabe onde está o perigo, evita-o. Nem todo mundo tem no estádio seu habitat natural.
Dá vontade de chorar pensar que o país demora sete meses para levar 62 mil pessoas ao estádio e a confusão espalha a percepção de que o espetáculo não vale a pena. Ninguém fala do sucesso e da festa no Allianz e em Itaquera. Vamos falar de novo da pancadaria e do vazio das arquibancadas, no Morumbi e no Raulino de Oliveira.
O ciclo vicioso prossegue. Na semana que vem, vai haver 5 mil são-paulinos no Morumbi no Brasileirão. Com sorte, vai haver mil tricolores em Volta Redonda ou em Édson Passos. E ai de você se tentar convencer alguém de que há festa também. Terá de ouvir que você é um louco por permitir que seu filho vá aos jogos, mesmo que ele também os frequente desde os 5 anos sem jamais ter levado um tapa.
Meu velho companheiro de arquibancada, Sílvio Álvaro Coelho, que hoje vive em Feira de Santana, costumava observar: “A gente vai, senta a bunda no cimento sujo, fica exposto ao sol e à chuva, e na semana seguinte vai de novo… Por quê mesmo? Porque a gente gosta pra caramba!''
Quem gosta para caramba são os 15 mil da média de público histórica do futebol brasileiro. Esses que voltarão na semana que vem, mesmo que alguém lhes diga que não vale a pena.
Os dois lados do inferno
Fonte Blog PVC
7 de Julho de 2016
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