A infeliz noite de Bauza, e o que serve de lição para próxima partida.

Ao desrespeitar própria história e negociar a organização da equipe, técnico coleciona erros em pior jornada desde que assumiu o São Paulo

Fonte Globoesporte.com
Edgardo Bauza teve escolhas polêmicas no jogo da última quarta (Foto: Marcos Ribolli)
Não acompanhei a carreira vitoriosa de Edgardo Bauza de perto, mas acho difícil que ele tenha protagonizado uma atuação tão infeliz quanto a da última quarta-feira. Responsável em boa parte pelo São Paulo chegar à semifinal da Libertadores, muito mais do que sugeria o clube em frangalhos do início do ano, o técnico errou absolutamente tudo na vitória por 2 a 0 do Atlético Nacional, que poderá até perder por um gol de diferença na quarta, em Medellín.
A começar da escolha dos relacionados. Sem Kelvin, lesionado, o Patón deixou fora até do banco o único jogador de características semelhantes: o jovem Luiz Araújo, de 20 anos. Não acho que ele devesse iniciar a partida, pois, de fato, o tamanho do jogo seria desproporcional à sua carreira, mas era necessário ter a opção de lançar alguém que pudesse tentar mudar um cenário negativo, truncado, travado.
A escalação é controversa também. Wesley, notoriamente, tem suas melhores atuações quando progride do meio para o ataque, centralizado. Na posição de volante, em resumo. Como Hudson não se recuperou em tempo, o camisa 11 acabou atuando aberto na direita, no lugar de Kelvin, com João Schmidt e Thiago Mendes de volantes. Não foi bem.
Carlinhos, pelo drible, pela bola parada – alternativa fundamental num time sem Ganso –, parecia a melhor opção. Mas, ok, criticar o Patón por essa escolha seria cruel demais.
Agora, é possível criticá-lo, sim, pelo resto. Sem o hábito de falar antes dos jogos, ele deu entrevista à Fox da Argentina e se mostrou receptivo a um convite da seleção de seu país, que teve o pedido de demissão de Tata Martino.
É evidente que treinar a Argentina seria um desafio incrível, mas o momento não permitia uma mudança de hábito tão significativa.
Em campo, o primeiro tempo transcorreu sem maiores intervenções. Mas no segundo... O técnico tirou João Schmidt, disparado o melhor do São Paulo no jogo. E um contraste com a frase da entrevista coletiva: “Nós tínhamos que ganhar a partida”. Só dos pés do volante saía algo criativo e inesperado, além de tentativas de acionar Calleri na área. Schmidt, além de dominar o meio-campo com interceptações e passes certos, era o caminho mais racional do time até o gol de Armani, mas saiu.
Ainda mais incompreensível foi a decisão de não ter colocado Lugano após a expulsão de Maicon. Bauza, pragmático que é, ex-zagueiro que é, com a fama de retranqueiro no colo, improvisou Mena e Hudson ao lado de Rodrigo Caio, e deixou o ídolo uruguaio no banco.
Por falar na expulsão, exagerada e injusta na opinião do autor deste texto, embora Maicon não pudesse jamais, principalmente por todo o contexto, dar a chance para o azar ou para a influência da arbitragem. De qualquer modo, não se altera uma linha do texto escrito há uma semana: sua contratação foi uma atitude corretíssima da diretoria do São Paulo.
Na entrevista coletiva após a derrota, Bauza justificou sua decisão: precisava ganhar o jogo. Ora, chega a ser ingenuidade, sobretudo num homem de tanto conhecimento da Libertadores, achar que o São Paulo, com 10, superaria o ótimo time do Atlético Nacional, que já era predominante com 11 contra 11. Deixar um time em desvantagem numérica com Daniel, Alan Kardec e Calleri em campo não me parece nada perspicaz.
Era caso para entrar Lugano no lugar de um dos centroavantes e estacionar o bonde na área. Só sair de lá para viajar à Colômbia, de preferência com o 0 a 0 no placar, àquela altura, um espetáculo de resultado.
Aparecer agora com fórmulas para o São Paulo virar o cenário e chegar à final seria o cúmulo do oportunismo. Até porque não faço a menor ideia do que fazer daqui a uma semana contra um time melhor – o melhor da Libertadores, por sinal –, que tem vantagem dentro de casa.
Mas presumo que a lição dada no Morumbi deva servir. Se Bauza tentar jogar pra ganhar, corre o risco de passar vergonha, como passou o São Paulo de Doriva, por exemplo, ao tentar virar pra cima do Santos na Vila Belmiro, na semifinal da Copa do Brasil – levou 3x0 como se fosse brincadeira de criança no ano passado.
O Patón desrespeitou sua própria história. Ao GloboEsporte.com, dias antes da semifinal, disse que “a ordem não se negocia”. Ele negociou, e perdeu.
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