Estamos prontos para hoje? - Layla Reis

Fonte SPFC.Net
Quarenta e cinco dias de paralisação que soavam como descanso ou aperfeiçoamento transformaram-se em um teste de fé e raça. Há um mês atrás nos sentíamos invencíveis, o jogo contra o Atlético parecia ter sido nosso maior desafio, era questão de tempo para conquistarmos a América. Rimos ao assistir o Atlético Nacional sendo desmontado e perdendo seus principais nomes no início da janela. Parecia garantido, tudo em paz para gente, certo? Errado. O futebol é assim, muda da noite para o dia. Transforma dia ensolarado em tempestade de neve. Eles reforçaram-se com 7 jogadores, nós lutamos para manter apenas um: Maicon. Perdemos Ganso e Kelvin e temos o capitão sem ritmo de jogo voltando de lesão.
Você sofreu naquela falta no minuto final contra o Atlético? Prepare-se para amanha.
Raciocinando direito: do primeiro jogo até hoje quantas vezes já sentimos exatamente este mesmo sentimento? Quantas vezes estivemos "fora" da Libertadores? Desacreditados, eliminados precocemente, humilhados. Pegamos o grupo da morte, já entramos criticados pela mídia e eliminados por consideração.
Primeiro jogo provamos que o Pacaembu não é a nossa casa: perdemos gol feito sem goleiro, jogamos mal pra caramba, levamos gol de jogada ensaiada do The Strongest. Noite triste. Não foi o começo perfeito, o presidente foi embora chorando. Fomos pra Argentina, Ganso decisivo meteu golaço e Denis tão decisivo quanto frangou espalmando, empatamos com clima de derrota, tinha que vencer. Aí vinha Trujillanos, a zebra do grupo da morte, o time que entrou pra ser goleado, "treino chique" ele era chamado. Vai levantar a auto-estima, né? Errado, o raio caiu duas vezes no mesmo lugar. Gol do Maestro, falha da zaga e do Denis, empatamos.
Chegamos até a metade da primeira fase assim: grupo rachado, salário atrasado, briga por lei do silêncio, elenco desunido, imprensa criticando, rivais caçoando, clube em crise. Nós já nos considerávamos eliminados. E ainda tínhamos os argentinos e a altitude contra nós pela frente. Era vexame na certa a seguir.

São Paulo x Trujillanos, voltamos ao Morumbi. Noite em que o Calleri vestiu a armadura e consagrou o "Toca no Calleri que é gol". Desencantou, Michel Bastos deu seus primeiros sinais de redenção. 6 x 0, 4 do Calleri, fora o baile. Alegria no Morumbi, torcida agitada, clima de Libertadores no ar. Lavamos a alma. Não deu tempo nem de comemorar direito. Vencemos da zebra, "grande coisa", nos criticavam, tão chegando os argentinos e se perder já era. A torcida lotou o estádio, esmagou o ônibus e trouxe de volta ao Morumbi o clima de Libertadores. Foi daquele jeito que só o São Paulo sabe. Jogo pegado, cotovelada, braço que sobra, carrinho de pé levantado, teve briga com Lugano ajudando e tudo. Calleri mais uma vez brilhou, mandou seus principais rivais (desde a época do Boca) se calarem, marcou 2 em cima de quem os provocou a semana inteira e fez a imprensa o engolir. Denis também deixou sua marca, frangou no final pra nos deixar aflitos até o juiz apitar. Se empatássemos mudava tudo pra gente. Vencemos. Ufa! Quem diria? Tínhamos o luxo de empatar ou vencer em La Paz. Não estávamos classificados.
A altitude veio como nossa principal adversária. É importante lembrar desse jogo em que Ganso só entrou no final. Wesley brilhou, saiu carregado e chorando. Deu toda a raça que tinha, deu o ar que possuía, deu a vida pela classificação. Era pesado correr, era difícil bater de frente. Eles abriram o placar com 30 minutos, a esperança ficou pequenininha, o coração parava e depois explodia. Como recuperar? Parecia impossível. Aos 47 do primeiro tempo, tocaram para o Calleri e ele cumpriu o combinado. GOL! Tudo igual em La Paz. Que de paz não tinha nada. Tensão no segundo tempo, não podia levar gol, e se levasse tava fora. De olhos grudados na TV, com a vela acesa e a bíblia na mão assistimos Denis ser expulso aos 46 do segundo tempo. Restavam 4 minutos de acréscimos. Vai dizer que você não pensou que tudo acabava ali? Mas o futebol é extraordinário, meu amigo. Maicon colocou as luvas de Denis, troca de camisa e veste a armadura de goleiro. Dos 47 aos 53 minutos, você assistiu Maicon socar a bola no cruzamento do The Strongest e depois agarrar e salvar o lance do gol. Juiz apitou em seguida, os jogadores caíram no chão, era choro pra todos os lados! Nós gritamos feito loucos: CLASSIFICADOS! Contra tudo e contra todos!
Nós, os desacreditados, o time que menos contratou na janela de Janeiro. O time sem dinheiro, em crise, de elenco brigado, a menor folha salarial dos paulistas estava classificado para as oitavas! Era sorte, eles diziam na TV.
Pegamos o Toluca, até então considerado o melhor time da primeira fase do campeonato. A imprensa disse que não iríamos passar, que estávamos ferrados. Era o nosso fim da linha. Mais uma semana de tensão. Quatro a zero primeiro jogo no Morumbi, noite de alegria. Segundo jogo perdemos, mas garantimos a classificação. Fomos para as quartas, o time que não passaria da primeira fase.
Eles zombaram, disseram que pegamos o Toluca desfalcados no primeiro jogo. Ninguém lembrou que garantimos com time completo no segundo com sufoco. Houve comentarista falando e foi legal até aqui mas pra não se empolgar. Chegou o Atlético Mineiro e com ele veio o Tabu.
O Tabu do São Paulo era time brasileiro na Libertadores. Todos os jornalistas fizeram questão de nos lembrar do retrospecto. O próprio Atlético já nos eliminou anteriormente com Ronaldinho Gaúcho. Não foi fácil, o sentimento era de tudo ou nada. Uma dúvida no coração. O primeiro jogo no Morumbi nos mostrou as dificuldades. Sem Calleri o ataque ficou desfalcado. Jogo enjoado, partida pegada, ânimos alterados, arbitragem omissa. A torcida pedindo por Michel que voltava de lesão. Foi aquela noite que em 3 minutos Bastos entrou e, literalmente, despencou o Morumbi nos dando a vantagem. Aquele golaço gritado do fundo da alma! Foi a redenção de Michel após tantas brigas com o elenco e torcida. Um espetáculo assistir a união voltando ao time, dava segurança. Mas um gol não nos garantia nada. Sete dias de apreensão.
Fomos pra Minas Gerais com o coração na mão. Assistir TV aquela semana era impossível, só se falava na possibilidade de virada do Atlético. Nós não eramos os favoritos mais uma vez. O tabu ainda estava em jogo. Eles escolheram o Horto e fizeram dois gols nos primeiros 11 minutos. Estávamos fora da Libertadores. A torcida tricolor calou, o Horto explodiu, 2 x 0 e o tabu na nossa cara. Foram 6 minutos fora da competição oficialmente. Aos 17 o "goleiro" que nos salvou em La Paz, faz de cabeça e nos coloca na competição. Obrigada por ficar Maicon. Sejam bem-vindo de volta à Libertadores! Dai por diante não podíamos tomar gol se não estávamos fora e eles não podiam levar se não teriam que fazer mais dois. Foi de igual para igual, batalha de gigantes, duelo de titãs. Aquilo foi teste cardíaco de verdade. Jogo de Libertadores que mata qualquer um.
Foi quase humanamente impossível chegar aos 45 do segundo tempo com vida, a cada cinco minutos algum lance nos matava. Pior ainda foi assistir a placa de 5 minutos de acréscimos levantar na nossa frente. Os cinco minutos finais foram pior que os 90 anteriores. O Atlético cresceu, foi para o tudo ou nada, apelou com todas as forças que tinha. A bola não saiu da nossa área, era falta, escanteio, lateral, uma emoção atrás da outra sem parar. Aos 49 eles perderam Leandro Donizete e nós comemoramos, aos 50 Bruno toca a bola com a mão perto da grande área dando falta perigosa pra eles. Você morreu naquele momento e ressuscitou logo depois.
Eu demorei um mês pra escrever sobre isso, lá no Horto ao meu redor vi muito marmanjão ajoelhado no chão chorando enquanto rezava, do outro lado alguns não queriam assistir a falta e seguravam a cabeça com as mãos. Eu nunca ouvi tanta prece junta. Um minuto que definia a classificação ou o tabu. Eu tive certeza ali: o clube da fé voltou. Falta mal cobrada e a bola foi pra fora em seguida o juiz apitou. Todos ao meu redor caíram no chão. Parecia cena de filme, em slow motion, passando devagar. Depois da prece, eu nunca vi tanta gente chorando no estádio, nem mesmo em noite de título! Muita gente que não se conhecia estava se abraçando, pulando e cantando. O Horto esvaziava e nós chorávamos comemorando. Eu não conseguia parar de pular. Todos ao redor estavam descontrolados e alguns minutos depois os jogadores voltaram para o gramado pra comemorar. Todos nós, os 3 mil torcedores ali presentes, viramos um só "Vai lá, Vai lá Vai lá, Vai lá de coração! Vamos São Paulo, Vamos, São Paulo! VAMOS SER CAMPEÃO!". Eu assisti os jogadores se emocionarem conosco. Sintonia animal.

Ninguém dormiu aquela noite. E acredito que ninguém irá dormir hoje ou nos próximos 7 dias. Eu espero que não haja sono nas próximas semanas, pra falar a verdade. Por pior que fossem as situações e condições, aos trancos e barrancos, com a imprensa criticando, não sendo nunca os favoritos, nós passamos. No desespero, no nervosismo, nós classificamos.
Eu não sei se vocês estão preparados para amanha com Ytalo no meio, sem Ganso e Kelvin contra um time reforçado e desde sempre considerado forte. Mas o que mudou? Novamente, nós não somos os favoritos, todos estão contra e as condições não são favoráveis. Mas somente nós sabemos como disputar uma Libertadores e amanha, meus amigos, será quarta-feira de Libertadores no Morumbi. Não é um dia qualquer. Amanhã o inferno sobe pra Terra. Nós não estamos preparados, definitivamente, mas nunca estivemos e mesmo assim, chegamos até aqui.
Boa sorte para nós em mais um jogo em que tudo está dando errado mas que no final pode ser isso que faça tudo dar certo.
Te encontro no inferno!
Layla Reis
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