As cinco irregularidades que tornam Iago numa bomba-relógio para o São Paulo

Atividades suspeitas podem detonar futuro do clube com multas e proibições de transferir atletas e tirar presidente do poder

Fonte Época
Iago Maidana, lateral do São Paulo (Foto: Érico Leonan / São Paulo FC)
Carlos Miguel Aidar, o homem que voltou à presidência do São Paulo em abril de 2014 com o discurso de profissionalização, enfrenta crise sem precedentes no clube que, na década passada, era tido como modelo de gestão do futebol brasileiro. O soco que levou do então vice-presidente de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, é um de muitos episódios controversos em um ano e meio. Houve a namorada, Cinira Maturana, que levaria 20% de contratos que fechasse para o time. Houve a comissão de R$ 18,3 milhões que seria paga à agência Far East Global por intermediar um acordo com a Under Armour que não precisava de intermediários. Mas o “batom na cueca” de Aidar, nas palavras do fanático são-paulino Abílio Diniz em reunião do Conselho Deliberativo tricolor na noite de segunda de 28 de setembro, é Iago Maidana. O jovem que pertencia ao Criciúma e que pode, sem querer, detonar Aidar e o próprio São Paulo.
O caso de Iago foi analisado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na terça-feira (6), depois que o Monte Cristo, time da terceira divisão de Goiás que faz parte da trama, enviou seus documentos. A diretoria de Registros e Transferências da entidade organizou e mandou os papéis ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) na quarta à noite. Na quinta, Paulo Schmitt, procurador-geral, avisou que na semana que vem fará uma denúncia formal. Este é o ponto que pode prejudicar não só o desejo de Aidar de se manter no poder, mas todo torcedor são-paulino. O processo iniciado pela CBF e pelo STJD deve atrair a atenção da Fifa – que virá ao Brasil para investigar transferências em dezembro –, e culminar em multa e proibição de contratar atletas. Em setembro, a federação internacional puniu o Seraing, da Bélgica, com multa de 150 mil francos suíços e proibição de transferir atletas por dois anos.

Recapitulemos. Os direitos econômicos de Iago pertenciam ao Criciúma – 100% no papel, mas havia um acordo verbal para que os pais recebessem 30%. Clube e jogador negociavam a renovação do contrato que estava para terminar. Cláudio Gomes, quem tocou a negociação por parte do time catarinense, diz que o pai de Iago, munido da procuração para representar o filho, já tinha apalavrado a extensão. Em dado momento, dois agentes entraram na conversa e passaram a representá-lo, Lucas e Júnior, ambos da FAI Sports, de Porto Alegre. Detalhe: eles não são registrados no cadastro de intermediários da CBF, portanto não poderiam exercer a função. “Eles queriam aumentar o salário de R$ 2,5 mil para R$ 25 mil. Pediram R$ 250 mil de luvas, depois quiseram R$ 500 mil. É óbvio que são valores fora da realidade do Criciúma. Percebemos que eles forçavam a não renovação”, relata. Os agentes nunca falavam de outro clube. Até que Lucas e Júnior chegaram com a proposta de um investidor, interessado na carreira do atleta, que o levaria ao Monte Cristo. Primeiro foi acertado que o Criciúma receberia R$ 200 mil mais 20% de uma transferência futura, depois só R$ 400 mil.
Este investidor é uma empresa paulista chamada Itaquerão Soccer. Ela tem capital de R$ 500 mil divididos em partes iguais entre dois sócios: Andreia Macedo Marques e Agnaldo Julio de Queiroz Crussi. Os dados constam no registro da empresa na Receita Federal. Agnaldo, em uma rede social, aparece como operador de telemarketing. O endereço da Itaquerão Soccer, Avenída Líder 1.550, aponta para uma loja de automóveis. Ela foi fundada em 17 de julho de 2015, menos de dois meses antes da transferência de Iago do Criciúma para o Monte Cristo. A mera participação desta empresa já violaria uma decisão da Fifa, de proibir investidores de ter direitos econômicos de jogadores desde 1º de maio de 2015. Mas os direitos não ficaram com ela, e sim integralmente com o Monte Cristo. O problema é que o negócio não acabou aí.
Iago rescindiu contrato com o Criciúma em 9 de setembro, quarta, às 15h44. Assinou com o Monte Cristo em 10 de setembro, quinta, às 16h14. Rescindiu com o Monte Cristo em 11 de setembro, sexta, às 17h29. Assinou com o São Paulo em 14 de setembro, segunda, às 16h42. Os dados constam no Boletim Informativo Diário (BID) da CBF. Note que o lateral foi jogador do Monte Cristo efetivamente por apenas 25 horas e 15 minutos. É o tipo de manobra que a Fifa está à caça no mundo todo: o investidor que, como não pode mais ter o direito econômico do atleta, usa um pequeno clube como ponte. “A Fifa quer acabar com transferências que não tenham fim esportivo. O Iago saiu de um clube da Série B para ficar só um dia em um da Série C de Goiás antes de ir para um da Série A. Claramente não havia fim esportivo, e sim econômico”, explica Luciano Brustolini, advogado desportivo e agente de atletas consultado por ÉPOCA.
Os R$ 400 mil que o Criciúma recebeu pela transferência oficializada em 9 de setembro, em dois dias, sem ter havido tempo para um jogo sequer com a camisa do Monte Cristo, foram multiplicados por cinco. O São Paulo se comprometeu a pagar R$ 2 milhões por 60% dos direitos econômicos de Iago – os outros 40% continuam com o Monte Cristo, então o clube goiano voltará a ganhar uma bolada quando, eventualmente, o jovem for revendido para um time europeu. Ao São Paulo, o negócio não faz sentido nenhum. Primeiro porque a multa do contrato com o Criciúma era de R$ 1,6 milhão – menor, portanto, do que o valor pago pelos são-paulinos ao Monte Cristo. Segundo porque o Criciúma, ciente de que perderia o atleta de qualquer jeito, aceitaria qualquer valor. Ou valor nenhum. “O São Paulo poderia ter pago R$ 400 mil. Ou poderia ter levado de graça, apenas com percentuais de uma venda futura, porque sabemos que eles são uma grande vitrine. Mas nunca recebemos uma ligação sequer do São Paulo perguntando sobre nosso atleta”, diz Gomes.
Do lado do São Paulo, a negociação começou quando Júnior Chávare, então gerente executivo das categorias de base, foi procurado por Fernando Moraes para negociar. O jogador fazia parte de uma lista de talentos em potencial do São Paulo desde que jogava no Criciúma, mas nunca tinha havido contato entre os dois clubes. O representante da Itaquerão Soccer dizia que a transferência tinha de passar pelo Monte Cristo. Após o primeiro contato, a negociação seguiu o padrão do futebol são-paulino: a gerência das categorias de base encontra o jogador, monitora, começa as conversas e depois as repassa para a gerência do futebol profissional, ocupada por José Eduardo Chimello. Em alguns casos, o presidente, Aidar, participa do fechamento. Assim aconteceu com Iago, mas houve peculiaridades.
O negócio com Maidana destoou em relação ao dinheiro. O padrão, nas categorias de base do São Paulo, é contratar jovens por empréstimo com opção de compra depois de certo tempo. Assim o clube sente se o jogador aguenta “o peso da camisa” antes de gastar. E aí, se decide usar a opção de compra, paga em torno de R$ 300 mil ou R$ 400 mil por pelo menos 80% dos direitos econômicos do atleta. Iago fugiu totalmente deste padrão. Por ele o São Paulo não só se comprometeu a pagar R$ 2 milhões por 60% dos direitos como pagou antecipadamente: R$ 1 milhão foi pago até 17 de setembro, e o outro R$ 1 milhão será pago em dez parcelas de R$ 100 mil com primeiro vencimento em 20 de outubro e último em 20 de julho de 2016. Os dados constam nos documentos que o São Paulo enviou ao STJD.
O São Paulo já ter pago R$ 1 milhão ao Monte Cristo, na realidade, é o elemento que nenhuma das outras controvérsias que Aidar criou tem: o fato consumado. A partir do momento que o STJD apresentar a denúncia, haverá dois movimentos seguintes. Um, interno, será o pedido pelos documentos relacionados ao caso Iago por parte do Conselho Deliberativo do clube, presidido por Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco. Até agora o conselho são-paulino, único capaz de destituir Aidar da presidência, não teve acesso a nenhum dado.
Outro, externo, será a entrada da Fifa no caso. Há um órgão na federação internacional que investiga transferências chamado TMS. Ele é independente e, depois de fazer a apuração, leva irregularidades para o julgamento do Comitê Disciplinar da Fifa. É lá que o São Paulo pode levar multa e proibição de transferências.
ÉPOCA procurou os envolvidos em cada etapa da operação com Iago Maidana. Fernando Moraes, da Itaquerão Soccer, afirma que não faria nenhum comentário. Albert Zilli, diretor jurídico do Criciúma, considera o clube vítima das transferências de Iago e diz que estuda acionar o São Paulo na Justiça por aliciamento de atletas. André Ribeiro, advogado que representa o Monte Cristo, e Roberto Armelin, advogado que faz este papel para o São Paulo, disseram que não farão nenhum comentário enquanto a denúncia do STJD não for apresentada oficialmente, caso contrário exibiriam as estratégias de defesa e facilitariam o trabalho da Procuradoria.
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