Julio Casares trabalha pela pacificação do Tricolor (Fernando Dantas/Gazeta Press)
Durante muitos anos, o São Paulo foi conhecido como um clube modelo. Hoje, afundado em dívidas, ainda sofre com uma crise política sem precedentes, iniciada após o racha entre o ex-presidente Juvenal Juvêncio e seu sucessor, Carlos Miguel Aidar. Com o moral de quem teve papéis importantes nas duas diretorias, o vice-presidente, Julio Casares, iniciou uma cruzada pela paz no Morumbi. “O desafio financeiro é imenso e, todos juntos, auxiliaremos o São Paulo a superá-lo”, aconselha Casares, em entrevista exclusiva ao Blog.
Ex-diretor de marketing do Tricolor, Casares também justificou a seca de títulos – somente um nos últimos sete anos -, detalhou a falta de dinheiro, justificou o sumiço do patrocinador máster, garantiu que hoje não há condição de o clube comprar Alexandre Pato do Corinthians…
BLOG_ Como explicar o fato de o São Paulo estar há 14 meses sem patrocínio máster?
JULIO CASARES_ O São Paulo está sem patrocínio porque adotou uma estratégia de preservar o valor da camisa. Pedíamos R$ 25 milhões, hoje já aceitamos negociar por R$ 18 milhões, mas as propostas que chegaram não alcançam nem metade do valor. E não vamos leiloar nossa camisa, que é nosso grande patrimônio.
E por que o São Paulo só atrai propostas de R$ 9 milhões?
São vários motivos, como o fato de a Copa do Mundo ter levado o dinheiro do mercado para CBF e a seleção. Hoje, a iniciativa privada também tem receio de investir no futebol, por causa dos escândalos da Fifa e a prisão do ex-presidente da CBF (José Maria Marin). Tanto é que a Caixa, que é do governo, patrocina vários clubes.
E a crise política, com direito a brigas pela imprensa, entre os dirigentes do São Paulo. Não pesa?
Claro que pesa. Esse tiroteio na imprensa compromete a imagem do clube e causa medo em quem pensa em fazer qualquer associação da marca. É um dos motivos de não termos patrocínio, também.
O torcedor não deve esperar pelo patrocínio tão cedo?
É o que falei: não estamos leiloando a camisa. Acho que deveremos ter novidade no ano que vem. Não vejo o momento econômico muito comprador, então, o São Paulo deverá ter de esperar até o fim do Brasileirão com essa dificuldade. Embora o marketing já ajude com a entrada de outras receitas.
Mas se não tem a receita do máster?
Mas fechamos recentemente com a Copa, com a Gatorade e com a Under Armour. Estamos falando de pelo menos R$ 25 milhões por ano com estes contratos.
Tanto assim?
O contrato que fizemos com a Under, pelo fornecimento de material esportivo, é excelente. Estabelecemos alguns diferenciais importantes, como os royalts sobre venda de camisa, que chegam a 13%. No mercado, normalmente, esse valor é de 8% a 10%. Eles também são os responsáveis pelo combate à pirataria e assumem os custos jurídicos e diligências policiais. Sem contar as luvas pelo contrato.
E a Gatorade e a Copa?
Também são ótimos e não estão na nossa camisa. Por exemplo, vamos ganhar cerca de R$ 4 milhões por ano com a Copa. E esse valor pode aumentar, porque há gatilhos no contrato. Sem contar a exposição da nossa marca, já que três aviões vão voar pelas Américas envelopados com as cores do clube.
Como vice-presidente, você tem acesso às contas do Tricolor. Há risco de falência, como se especulou na imprensa?
Não. O São Paulo cobriu parte do buraco que tinha com o patrocinador máster, mas é claro que precisa de dinheiro, como todos os clubes. O ano de 2016 ainda será de transformação, em que vamos ter de renegociar contratos e alongar o perfil da dívida, para que, em 2017, comecemos a usufruir e ter mais oxigênio para atuar no mercado.
Você sempre foi um defensor da reforma no Morumbi. Ela ainda tem chance de sair do papel?
Penso que ou o Morumbi será modernizado agora ou nunca mais. Precisamos de uma reforma, porque o são-paulino merece um estádio com mais conforto, cobertura e um anel inferior que chegue mais perto do campo. Só que dependemos de duas partes: uma engenharia financeira e a aprovação de 75% do Conselho Deliberativo. Estamos falando de pelo menos 180 conselheiros, algo que o Juvenal Juvêncio não conseguiu. Deveremos retomar o assunto no ano que vem.
A grande maioria dos diretores que eram ligados ao Juvenal foi tirada da diretoria do Aidar. Por que você continua?
Sobramos eu, o Marcos Francisco Almeida, o Osvaldo Vieira de Abreu, entre outros. Mas nem eu, tampouco eles temos lado. Nós somos São Paulo. Hoje, minha maior campanha é pela pacificação do clube. Já almocei com todos os ex-presidentes e vários conselheiros falando da necessidade de blindar nossa marca.
Mas você continua próximo do Juvenal, depois de virar vice-presidente do Aidar?
O rompimento entre eles não pode, nem deve comprometer a instituição. Tenho uma relação boa com o Juvenal, mas não converso com tanta frequência hoje em dia. O importante agora é encontrar equilíbrio e passar por esse momento de dificuldade e buscar a profissionalização do São Paulo.
Enquanto você prega a pacificação, o Leco e o Roberto Natel deixaram a situação e viraram fortes opositores, com direito a declarações fortes na imprensa.
O que eu sempre digo é que só teremos eleição em abril de 2017. Está muito distante, então o São Paulo precisa de trégua já. Até porque o São Paulo é maior do que qualquer pessoa. Ter oposição é democrático e faz bem à instituição, entretanto, tudo deve ser discutido internamente sempre. Temos de preservar o clube.
O quanto essa crise política interfere em campo?
Não deve interferir em nada, porque o CT da Barra Funda é blindado. A presença de conselheiros é diminuta e até diretores que vão para lá não comentam sobre política. Acho que a crise política só interfere quando é causada pela crise econômica, ou seja, quando há atrasos grandes no pagamento dos direitos de imagem.
Mas ainda há atrasos?
Não. Está tudo quitado, mas o problema sempre se avizinha. O que existe hoje no futebol brasileiro é um descompasso entre receita e despesa. A aposentadoria do Rogério Ceni, por exemplo, vai ajudar a diminuir a folha, já que ele é o maior salário do São Paulo. E continuaremos apostando muito na base.
Depois de vender seis jogadores em agosto, o São Paulo ainda precisa negociar mais alguém?
O São Paulo sempre vai precisar de dinheiro. Hoje, não tem ninguém sendo negociado, mas, se recebermos uma proposta e ela for boa, não há como segurar. Não existe atleta inegociável. Temos que equilibrar as contas e precisamos ainda de questões como essas. Faz parte do negócio.
Nos últimos sete anos, o São Paulo só ganhou o título da Sul-Americana. O que aconteceu?
Tem algumas razões, mas a principal foi o erro nas contratações. O último mandato do Juvenal não foi muito feliz na área do futebol. Em geral, você contrata oito jogadores e só três não dão certo. Mas contratávamos oito e só um dava retorno. Esses erros só reforçam a necessidade de apostar na base, como está fazendo o Osorio, que tem usado Matheus Reis, Lyanco, Auro, Rodrigo Caio, Breno…
Como você o Aidar reagiram às críticas recentes feitas pelo Osorio à diretoria?
As divergências são completamente normais, desde que não haja insubordinação. E não houve. O que ele fala não é uma crítica à diretoria, mas à situação (de venda de jogadores). Só que, quando recebemos uma proposta, mediante essa crise, não dá para segurar. Ele sabia disso.
Especula-se que ele pode treinar o México. Teme o risco de ele deixar o São Paulo em breve?
Ele acabou de alugar uma casa, matriculou os filhos na escola e quer ficar aqui por um bom tempo. Por nosso lado, entendemos que ele precise de tempo. Encontrar peças de reposição na base não é um processo do dia para a noite. Temos certeza de que os resultados começarão a aparecer em 2016.
É possível imaginar que o Pato seja comprado pelos R$ 30 milhões exigidos pelo Corinthians?
Hoje, o São Paulo não teria a menor condição. Precisamos ser sinceros. Só vejo a possibilidade de ele continuar se houver um projeto definido, específico, com a figura de um investidor. Do contrário, fica muito difícil.
Gosta da ideia da renovação do contrato de Luís Fabiano, que vence em dezembro?
Essa conversa tem de ficar para dezembro, quando faremos uma grande avaliação do que aconteceu no futebol do São Paulo em 2015. Trata-se de um jogador importante, que teve altos e baixos, algumas contusões. Caso se enquadre na realidade financeira, pode ficar. Se ele desejar outro caminho, ficará livre.
Como será a despedida do Rogério Ceni do São Paulo?
Faremos mais um jogo dele com torcedores. Já fizemos outras ações em setembro e agora estamos trabalhando para realizar um grande jogo entre os amigos dele e um combinado. Nosso sonho era de que o adversário tivesse os veteranos do Liverpool, mas é difícil por causa do calendário. Talvez aconteça no início de 2016.
Por que o São Paulo está tão atrás de Palmeiras e Corinthians no número de sócios-torcedores?
Já estivemos bem mais atrás. Desde o início desta gestão, o São Paulo saiu de 16 mil sócios para os atuais 75 mil. Tudo graças a um novo plano extremamente forte, bem estruturado e vantajoso para os são-paulinos. Devemos chegar a 100 mil até fevereiro. O problema é que antes o programa não estava ligado ao marketing, mas à área de esporte social.
Você foi o conselheiro mais votado das últimas duas eleições no São Paulo. Quer ser presidente do clube quando?
Alguns amigos, sócios e colegas de Conselho Deliberativo fazem essa colocação, mas entendo que há vários outros nomes com capacidade hoje. Minha experiência de gestão, de vida e política também me dão essa condição hoje, mas não é prioridade. Se vier no futuro…
Mas já se viu presidente?
Hoje, como vice-presidente, já assumi o clube três vezes, sempre por períodos de uma semana, dez dias… Ou seja, o sonho já virou realidade. É bem legal despachar em dias de jogos, embora, é claro que ser presidente com mandato efetivo é o sonho de todo são-paulino. Quem sabe quando vier a chance, eu possa representar bem a nação de quase 18 milhões de são-paulinos.
Sob seu comando, o marketing já vendeu pedaço da grama do Morumbi, as redes dos gols… Qual seu maior feito como marqueteiro?
Todos foram importantes. Teve a história da grama, da rede, do São Paulo Itinerante, do São Paulo Social, que ajudou milhares de pessoas após catástrofes naturais… Mas a realização que me dá mais orgulho é o Batismo Tricolor. Criamos esse evento, que não tem conotação religiosa em 2007 e ele segue rendendo receita até hoje.
Quanto?
Cerca de R$ 200 mil por mês. Se você multiplicar pelo número de meses desde 2007… (cerca de R$ 19,2 milhões). Sem contar que medidas como essas fidelizam o torcedor.
Vice-presidente do São Paulo diz que Pato não deve ficar, garante Osorio, explica falta de patrocínio, crise financeira...
Fonte Blog do Jorge Nicola
27 de Setembro de 2015
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