Se homofobia é crime, existe, sim, um limite que divide o politicamente correto da piada infame. O quadro mostra um funeral de um soldado, com um superior adotando um discurso que deixa clara a orientação sexual do morto. Enquanto isso, outro soldado chora copiosamente, colocado na posição de viúvo. Ao final, uma bandeira do São Paulo é depositada sobre o caixão. Ninguém precisa ser muito esperto para ligar os pontos que a trama desejou simbolizar. Pior: há pouco tempo, o comediante Marcius Melhem, um dos responsáveis pelo “Zorra”, disse que piadas homofóbicas estavam proibidas e afirmou que o gênero tinha obrigação de adotar posturas progressistas.
O futebol continua sendo um universo extremamente machista e homofóbico. A torcida do Corinthians adaptou o “puto” dos mexicanos e introduziu o “bicha” a cada tiro de meta batido pelo goleiro adversário. A estupidez se alastrou por quase todos os clubes e hoje virou um chiste grosseiro que as câmeras de TV registram em silêncio.
Felizmente, há iniciativas que enfrentam essa condição, mesmo que seus protagonistas tenham que se esconder por puro medo de agressões físicas. É o caso do Palmeiras Antifascita, ou da Gaivotas Fiéis, acusada de plágio por uso da marca e processada pela Gaviões da Fiel. A Galo Queer, torcida gay do Atlético Mineiro, foi outra a surgir e logo receber ameaças.
Em 2013, uma foto de Emerson Sheik beijando um amigo causou um verdadeiro furor entre os corintianos. Revoltada, a torcida organizada Camisa 12 exibiu faixas com as frases “Viado não” e “Vai beijar a P.Q.P., aqui é lugar de homem” ao Centro de Treinamentos do Corinthians e acabou condenada pela Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania de São Paulo a pagar R$ 20 mil pelo ato (a quantia foi doada a um fundo assistencial). Dias depois, Sheik publicou um pedido de desculpas aos torcedores que se sentiram ofendidos.

Reprodução Instagram
Em 2012, dois torcedores do Palmeiras estenderam uma faixa no CT do clube com a frase “A homofobia veste verde”, em protesto contra os rumores da contratação do jogador Richarlyson, que teve sua carreira marcada pela invasão de privacidade.
O desserviço do Zorra no último sábado é mais uma barreira na esperança de que o futebol, parte tão importante da identidade cultural do país, evolua em sua mentalidade. Ao incitar a intolerância usando o escudo do humor, todos perdem por goleada. Enquanto a homofobia provoca a morte de uma pessoa a cada 28 horas no Brasil, não há motivos para rir.