Ex-São Paulo e Palmeiras foi boia-fria e pagou ''mico do ano'' em grupo evangélico no Whats

Fonte ESPN
Paulo Miranda durante treino do São Paulo: zagueiro contador de histórias
Reforço do Red Bull Salzburg, o zagueiro brasileiro Jonathan Doin hoje vive em uma das cidades de melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo, além de jogar em uma equipe com estrutura de primeira. Muito diferente de seus tempos na minúscula Piraí do Sul, no Paraná, onde trabalhou até como boia-fria nas lavouras.
"Mas quem é esse tal Jonathan Doin?", o leitor há de perguntar.
É o nome verdadeiro de Paulo Miranda, defensor de 27 anos com passagens Palmeiras e, mais recentemente, pelo São Paulo. Negociado em junho com a equipe austríaca, hoje ele curte a boa vida no futebol europeu, mas sem esquecer suas raízes humildes.
"Rapaz, já fiz de tudo um pouco nessa vida", conta o beque, em entrevista ao ESPN.com.br.
"Eu carpia lotes e fui servente de pedreiro junto com meu pai. Também fui boia-fria, acordava às 5h da manha e pegava o ônibus pra arrancar feijão. Eram quilômetros de campos para a gente colher", lembra o jogador.
"A gente montava uma marmitinha com arroz, feijão, ovo e batata, colocava o café numas garrafas de refrigerante e ia trabalhar. Quando não tinha carne, a gente saia no meio do mato pra caçar algum bicho e comer. Qualquer dinheirinho que entrava ajudava a sustentava nossa família", completa, emocionado.
A entrada no mundo do futebol começou na adolescência, na cidade de Castro, também no interior do Paraná. Paulo Miranda morava com a família nos fundos de uma escolinha de futebol e batia sua pelada sempre que possível. O problema era não ter chuteira pra jogar.
"Eu jogava descalço, mas tinha espinho pra caramba, por isso fiquei com o pé cascudo, cada passo que dava machucava mesmo. Era ainda mais difícil quando tinha geada, aquele frio danado e gelo no campo", recorda.
"Quando lembro disso, eé um motivo a mais pra valorizar tudo o que eu conquistei na vida", salienta.
Nessa época, Miranda atuava como centroavante. Como sempre se destacava no jogo com amigos, resolveu tentar a sorte na bola. Com a grana curta, ganhou uma passagem só de ida para Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira, onde foi participar de um teste.
"Se não desse certo, ia ter que me virar pra voltar (risos). Eu fui de ônibus com cara e coragem. Cheguei lá e disse que era atacante e queria treinar. O problema é que, como você sabe, eu não era tão bom assim, né (risos)?", sorri.
O tempo do teste ia passando e Paulo não deixava boa impressão para os olheiros. Sem marcar gols, a dispensa era praticamente certa. Seu destino seria mesmo continuar colhendo feijões na roça, ou assentando lajes como servente de pedreiro.
Até que, em um piscar de olhos, tudo mudou.
"Durante o treino, teve um lance que alterou todo o rumo da minha carreira. Um zagueiro adversário foi sair jogando e eu dei um carrinho perfeito e tomei a bola. Daí o auxiliar falou: 'Menino, você joga em outra posição além de atacante?'. Respondi na hora: 'Me coloca em qualquer posição que eu jogo'", relata.
"Então, fui colocado como zagueiro e marquei muito bem o melhor atacante deles, chamado Canela. Eles perguntaram se eu queria ser zagueiro e eu topei. Acabei virando jogador de defesa por causa disso", acrescenta.
"Ser zagueiro é difícil, cara... Já tive sucesso e várias tristezas também. Viver caçando o tornozelo dos outros não é fácil, às vezes você pega uns 'enroscos' pela frente (risos). Você não pode ter um erro, senão é fatal, tem que estra sempre concentrado", decreta.

Paulo Miranda no Palmeiras, em 2009
De Jonathan Doin a Paulo Miranda
Após passar um período em Foz do Iguaçu, o beque resolveu tentar alçar voos mais altos. Viajou para Irati para fazer um teste no Iraty, clube local. Acabou passando e ficou por lá.
Na equipe azul, acabou ganhando um apelido. Pegou tão forte que acabou praticamente virando seu nome "oficial".
"O técnico era o Karmino Colombini, ex-goleiro e técnico da base do Palmeiras. Ele olhou pra mim e falou: 'Jonathan Doin não dá! Você, um negão desse tamanho, quem vai respeitar com esse nome?'. Daí ele começou a falar uns nomes e chegou em Paulo Miranda. Pegou na hora! Todo mundo começou a me chamar assim, e eu sempre atendia", conta.
"Teve um jogo contra o Coritiba que eu fui assinar a súmula. Ao invés de escrever Jonathan, escrevi Paulo Miranda. Aí, pegou de vez e nunca mais saiu (risos)", gargalha.
O zagueiro, aliás, diz que seus pais não ligaram ao verem o filho "mudar de nome".
"Eles continuam me chamando de Johnny, como sempre fizeram. Só que pra mim ficou estranho, porque todo mundo só me chama de Paulo. Às vezes, até minha mãe se confunde e me chama de Paulinho (risos)", diverte-se.
Após o Iraty, Paulo Miranda passou pelo Desportivo Brasil, time de empresários de Porto Feliz-SP, e teve sua primeira chance em um clube grande em 2008, quando foi emprestado ao Palmeiras B. Destacou-se pela equipe, hoje extinta, e chegou a ter algumas chances no elenco principal do "Verdão", mas nunca se firmou.
Em seguida, porém, foi repassado ao Oeste, onde engrenou de vez. Destacou-se no Paulistão de 2011, no qual foi campeão do Interior, e foi levado pelo Bahia, clube no qual continuou desempenhando bom futebol. Sua passagem por Salvador, contudo, durou menos de seis meses, já que, no final do ano, o São Paulo o contratou.
No Morumbi, o defensor teve altos e baixos durante os quatro anos que passou lá. Chegou a treinar separado por um período, mas depois voltou e assumiu a titularidade. Dos tempos de tricolor, lembra com muito carinho do amigo Rogério Ceni.

Paulo Miranda com sua camisa de 100 jogos pelo SP
"Sou muito fã do Rogério. Ele sempre briga pelos jogadores. Nos aniversários dos meus filhos, eu colocava o convite no armário dele e ele ia a todos! O que vou guardar comigo por resto da vida foi quando eu ia completar 100 jogos pelo São Paulo. Depois do jogo, comentei isso com o Rogério. Ele estava fazendo o gelo na perna, mas fez questão de levantar e pegar a camisa dele. Assinou e foi em um por um dos jogadores para assinarem a camisa para me dar de presente. Olha a humildade! Isso tudo a gente tira de lição, o cara venceu tudo na vida! Essa camisa está num quadro na minha casa", ressalta.
Em junho deste ano, transferiu-se para o Red Bull Salzburg, ganhando a chance até de disputar a fase preliminar da Uefa Champions League. Mesmo longe, contudo, Paulo Miranda segue sendo lembrado no CT da Barra Funda pelas histórias épicas que protagonizou e pelos vários micos que pagou em seus anos por lá.
O grupo evangélico de WhatsApp

Miranda vibra após marcar pelo São Paulo
Paulo Miranda cai na gargalhada ao lembrar a trapalhada que aprontou no aplicativo Whatsapp.
"Misericórdia, foi a situação mais engraçada e constrangedora que eu passei no futebol. Foi o mico do ano no São Paulo!", lembra.
O relato que segue é apenas para maiores de 18 anos. Portanto, se você é pai ou mãe, tire as crianças da sala.
"A gente tem os grupos de WhatsApp do mundo da bola, eu estou em vários. Um dia, recebi um foto de um menininho com os olhos brilhando e a mensagem embaixo: 'E aí, galera do grupo, cadê a putaria?' (risos). Eu achei engraçada e resolvi compartilhar com os jogadores do São Paulo. Só que mandei no grupo errado... Ao invés de mandar para a 'boleiragem', mandei no grupo dos evangélicos!", narra.
Na hora, Paulo Miranda não percebeu. Só que levou um susto depois que a tela piscou com uma mensagem pessoal do lateral Douglas, desesperado.
"Ele me mandou uma mensagem privada, lembro até hoje: 'Ô cavalo, viu o que você fez?'. E eu, sem me tocar, respondi preocupado: 'Não, Douglas, o que aconteceu?'. E ele: 'Olha o grupo que você mandou a mensagem, os caras são todos evangélicos'. Rapaz do céu, o que chegou de mensagem me zoando. 'Vai ter que ajoelhar no milho, hein'. Pior que essa história espalhou e todo mundo me aloprou demais, tá louco (risos). Tive até que sair do grupo dos evangélicos, porque fiquei com uma vergonha danada", brinca.
Mas esse não foi o único mico que o zagueiro (que muitas vezes jogou improvisado na lateral) pagou no São Paulo. Pouco antes de dar adeus ao Brasil, ele fez o técnico Juan Carlos Osorio morrer de rir ao se confundir durante um treino.
"Estávamos todos conversando no banco de reservas e o Osorio perguntou para os jogadores, um po um, qual é a parte mais difícil de um jogo de futebol. Chegou a minha vez e eu respondi: 'Marcação'. Aí foi passando para os próximos, e cada um respondeu uma coisa. De repente, ele virou para mim e perguntou: 'E seu nome, qual é?'. Eu, na lata, respondi: 'Marcação' (risos)", lembra.
"Bicho, o gringo caiu na risada! Ferrou pra mim, os caras ficaram me zoando direto, mas fui pego de surpresa. Sempre vinham dois caras do meu lado, um perguntava 'qual seu nome?' e o outro gritava 'marcação' (risos). Até hoje, se você perguntar lá no São Paulo pelo 'Marcação', sou eu (risos)", finaliza.

Paulo Miranda, ou melhor, 'Marcação'
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