Souza não deve reescrever a história de diversos jogadores brasileiros que vão à Europa e voltam meses depois. Vendido pelo São Paulo ao Fenerbahce em 1º de julho, por R$ 31,8 milhões, o volante revelou em entrevista ao Blog, direto da Turquia, chateação com a realidade do futebol nacional. Longas viagens, pouco tempo próximo da família, pressão da torcida e críticas da imprensa fazem com que ele só pense em retornar para curtir férias. “O jogador envelhece demais no Brasil”, avalia Souza, que tem 26 anos e passou seis no país, por Vasco, Grêmio e São Paulo. A vida nova tem sido comemorada. No Fenerbahce, ele encontrou um time forte, com direito a craques como Van Persie e Nani, além dos brasileiros Fabiano (ex-goleiro do próprio Tricolor), Diego e Fernandão. O volante ainda falou sobre a chance de retornar à seleção, encheu a bola de Osorio e explicou a crise no São Paulo.
BLOG_ Antes de fechar com o Fenerbahce, você estava na mira do Atlético de Madrid. Por que preferiu a Turquia?
SOUZA_ A negociação com o Atlético ainda estava no início e, apesar de o salário ser um pouco maior, pesou o fato de o treinador do Fenerbahce (Vitor Pereira) ter me ligado. A gente já havia trabalhado junto no Porto. Ele me falou do projeto de montar uma grande equipe e não pensei duas vezes.
Quais são as suas metas na nova casa?
O Fenerbahce é um clube que sempre vai disputar títulos aqui na Turquia. Com o atual elenco, que tem Nani, Van Persie e Diego, a gente pode até brigar para ser campeão da Liga Europa. Antes de fechar, também conversei com o Alex, que me deu ótimas referências. Ele só confirmou tudo aquilo que eu estava pensando.
Ninguém sabia que você negociava com o Fenerbahce. Foi rápido mesmo?
Foi muito rápido. Durou, no máximo, uma semana. E o São Paulo não tinha muito o que fazer, porque o Fenerbahce pagou os 8 milhões de euros de multa previstos em contrato. O São Paulo teve direito a 25%.
E a adaptação ao futebol turco?
Está surpreendentemente boa. Individualmente, comecei bem e fui bastante elogiado pelos jornais na estreia do time no Campeonato Turco.
Pensa em ficar na Turquia por quanto tempo?
Quero cumprir meus quatro anos de quatro. A ideia é fazer bons campeonatos, me consolidar aqui, ganhar títulos, fazer o pé de meia…
A torcida é fanática mesmo?
Muito. É coisa de maluco, nem se compara ao Brasil. Todo jogo nosso em casa tem estádio lotado. Os caras cantam o tempo todo. É muito legal.
Cogita voltar algum dia para jogar no Brasil?
Só volto para o Brasil de férias. A exigência e a cobrança aí acabam desmotivando. O Brasil encurta a carreira do jogador e o cara envelhece. Primeiro, porque são muitas viagens. Nem dá para ficar com a família. Depois, tem a cobrança externa, da imprensa e da torcida. Isso mexe muito com a estrutura do jogador.
Você foi vítima disso?
Contando os dois anos e meio do Vasco e os três anos e meio entre Grêmio e São Paulo, passei seis anos no Brasil, mas parece que joguei uns 15. Quando ganha, você é o rei. Quando perde, não serve. Muitas carreiras são abreviadas por causa desta pressão.
No São Paulo foi assim?
A pressão em São Paulo é a maior de todas, porque é o grande centro do país e tudo repercute demais. Até que a torcida do São Paulo é mais tranquila, mas teve casos recentes de confusões envolvendo torcida e jogadores do Palmeiras e do Corinthians.
E na Europa é diferente?
Estava conversando com o Diego sobre isso agora mesmo. Ele está na Europa há 11 anos e já tem 30, mas parece um menino de 17. Se fosse no Brasil, estaria com cara de velho. Também falei com o Zé Roberto. Ele só continua jogando com mais de 40 anos porque passou a maior parte da carreira no exterior.
Mas você era querido pela torcida do São Paulo.
Sim, minha passagem pelo São Paulo foi muito boa, tanto que cheguei à seleção brasileira depois de nove meses de clube. E até hoje os torcedores pedem nas redes sociais pela minha volta. É legal, porque gremistas e vascaínos também pedem.
Por que o São Paulo não consegue engrenar?
A cobrança no São Paulo é complicada. Trata-se de um clube gigante, que fez uma história maravilhosa recentemente. Isso ficou na memória do torcedor, que quer o time de 2005, campeão mundial, ou o de 2006, 2007 e 2008, tricampeão brasileiro. Só que os outros clubes brasileiros evoluíram. Naquela época, só São Paulo e Atlético-PR tinham bons CTs. Agora, só os do Rio não têm. A competição ficou mais difícil, mas a torcida acha que o time precisa ganhar todas.
Você passou algum sufoco com pressão de torcida?
Eu, não. Vi torcedores xingarem e vaiarem no estádio, o que é normal. Na última semana, li que chutaram os carros do Michel Bastos e do Ganso. Esse tipo de ameaça, em geral, faz com que o jogador produza menos, porque se retrai.
O atual elenco do São Paulo pode ser campeão brasileiro?
Havia um elenco para ser campeão, mas hoje não tem mais. Acho que vai brigar pela Libertadores. Se tivesse mantido a base do ano passado… A partir da saída do Kaká, o time perdeu muito. Ele era o diferencial, não só pelo futebol, mas pela presença. O cara contagiava e fazia os outros jogarem. Neste ano, então, foi pior, porque sai um jogador atrás do outro.
Mas você ainda torce pelo São Paulo?
Diariamente. Na quinta, sofri até de madrugada vendo o jogo com o Ceará. O resultado (derrota por 2 a 1) foi totalmente injusto, mas futebol é complicado.
O Osorio é culpado pelas derrotas para Goiás e Ceará?
O Osorio é o melhor treinador com quem eu trabalhei. Foram só dois meses, mas deu para ver que é uma pessoa que agrega em todos os sentidos. Ele trabalha situações de jogo no treino e explica por que está fazendo aquilo. Aprendi muito e torço demais para que dê certo.
O rodízio não confunde a cabeça dos jogadores?
Tive de me despedir muito rápido dele, na véspera do jogo com o Atlético-PR, então, mal consegui falar com ele. Mas, se eu pudesse dar um conselho, diria para ter um pouco de paciência com o jogador brasileiro em relação ao rodízio, porque nem todos respeitam. Mas ele deve fazer. Até porque o São Paulo pode contar com dois jogadores do mesmo nível para uma mesma posição.
Só que vários jogadores têm atuado fora de posição. No último jogo, o Carlinhos foi lateral, volante, ponta…
O Carlinhos treinou várias vezes como ponta. E tem mais: o Osorio pergunta se o cara se sente bem em outra posição. Um dia, ele pôs o Pato de centroavante, mas o Pato falou que não gostaria e ele respeitou. Ninguém é obrigado a nada.
Então você acha que o Osorio pode dar certo?
Sei que o momento não é dos melhores, mas, se a mesma direção que foi buscá-lo tiver confiança e o mantiver no cargo, tenho certeza de que o Osorio dará muitos frutos.

Souza explica ao companheiro Diego uma mudança tática do Fenerbahce (Arquivo pessoal)
Ficou mais difícil chegar à seleção depois da transferência para a Turquia?
O Taffarel, que é da comissão técnica da seleção, trabalha no nosso rival (é preparador de goleiros do Galatasaray). Mas eu sei que está um pouco mais complicado do que na época do São Paulo. Só que nunca me preocupei tanto com seleção. Eu sonho, mas não me faz mal se não for lembrado.
Está com a família aí?
Estou com minha esposa Danielle, meu filho Nicolas, minha prima Laís, minha mãe Edenice. Só não veio mais gente porque a família trabalha. Mas, em dezembro, eles vão passar férias e pegar neve aqui.
O que achou de Istambul?
A cidade é maravilhosa, tanto quanto o Rio de Janeiro. Fiz dois passeios lindos de barco. E o bom da Europa é que estamos perto de tudo. Na próxima data Fifa, estou combinando de viajar para encontrar o Phillipe Coutinho (meia no Liverpool).
Fabiano, Diego e Fernandão são os jogadores mais próximos de você, até por serem brasileiros?
O Fabiano mora na minha frente. É praticamente casa com casa. Também sou muito amigo do Fernandão e do Diego, além dos portugueses: Bruno Alves, Meireles e Nani.
E o Van Persie?
A gente se fala pouco, por causa da língua, mas é um cara gente boa, humilde e que nos salvou na última partida. Joga demais.