O Santos tem a tradição de formar e revelar grandes talentos para o futebol brasileiro, em alguns casos beneficiando até mesmo os grandes rivais. O São Paulo, por exemplo, que será o adversário desta quarta-feira, às 21h, pelo Campeonato Brasileiro, no Morumbi, conta com vários ex-santistas no seu elenco: Ganso, Hudson, Carlinhos e Wesley.
Grande parte deles já chamava a atenção desde as categorias menores, mas alguns chegaram sem muita badalação, como o ex-meia do Palmeiras. "Wesley era o atacante reserva do Botafogo-SP no sub-20 e foi fazer um teste. Vendo ele, eu disse assim: 'Caramba, ele lembra muito o Robinho'. Fiquei doido com esse moleque", contou Márcio Fernandes, ex-técnico da base do Santos e atualmente no Vila Nova-GO, que disputa a Série C do Campeonato Brasileiro, em entrevista ao ESPN.com.br.
Com medo de perder a nova joia, o time da Vila Belmiro precisou apelar. Mesmo sem contrato assinado, resolveu levá-lo ao nacional da categoria com uma promessa que sabia que não poderia cumprir.
"A gente sabia que não podia jogar e falávamos que a liberação estava para chegar, porque ainda pertencia ao Botafogo. Todo dia ele ia ao correio perto da concentração para ver se chegava", disse Márcio Fernandes.
O treinador relembra a agonia em não poder escalar o jogador nas partidas. "Ele treinando e arrebentando, a gente louco para colocá-lo nos jogos, mas não podia (risos)", divertiu-se o técnico. Mesmo com todo esse esforço, porém, um dia o meia desapareceu da concentração da Vila Belmiro.
"Um dia depois que a gente tinha voltado de uma viagem ele sumiu, creio que um empresário o levou para o Corinthians. Fiquei sabendo e pensei: 'Perdi um jogador', porque não tinha como fazer contrato. Dias depois, a tia dele me ligou dizendo que o Wesley estava triste, queria voltar e se eu o aceitava de volta. Eu disse que sim, mas tínhamos que ver direitinho. Então, a primeira coisa que fizemos foi assinar a liberação do Botafogo (risos)", se certificou.
O jogador continuou se destacando à espera de uma oportunidade, que não demorou para chegar. Um dia, foi fazer uma atividade no elenco principal, a pedido do técnico Vanderlei Luxemburgo. "Eu disse: 'Wesley, você tem que treinar da forma que faz aqui. Vá para cima dos caras e não tem que respeitar, você vai subir. Daí ele seguiu o que eu falei, acabou tomando uma pancada atrás da outras (risos)", declarou Márcio.
"Até o Vanderlei mandou soltar a bola, deu um bronca nele. Depois do treino, o Wesley estava todo triste e falei para ele: 'Não vou dar três dias para você estar no profissional do Santos'. Ele me olhou desconfiado", acrescentou o treinador.
"Conhecia o Vanderlei, ele falava assim só com quem achava que tinha potencial para subir. Foi 'batata', aconteceram umas coisas, precisava completar o profissional, ele foi chamado e nunca mais voltou para a base", continuou o conselheiro e 'profeta' Márcio.
Hudson: o bom menino que jogou no 'Ratinho'
Outro jogador por quem o técnico Márcio Fernandes tem um carinho especial é o volante Hudson, que antes de passar pela base da Vila Belmiro atuava em Curitiba pelo clube de um famoso apresentador do SBT. " Ele jogava pelo time do Ratinho, eu o trouxe para fazer testes e foi aprovado".

Hudson rodou pelo interior após sair da Vila
O meia, porém, não conseguiu obter sucesso na equipe principal, e em seguida rodou por times do interior do Brasil. "Ele foi meu atleta no Comercial, Red Bull e Brasiliense. É um jogador muito versátil, atua de volante, meia e lateral. Um cara muito sério e trabalhador, sempre depositei muita confiança nele", afirmou Fernandes.
Para finalmente ganhar projeção como jogador, Hudson também contou com um golpe de sorte. Márcio Fernandes tinha voltado da China e assumido o Guarani, que não tinha espaço para seu pupilo por ter contratado dois novos volantes anteriormente. No entanto, uma ligação foi a responsável pela mudança na carreira do atleta.
"Um dia, o treinador Wagner Lopes, um amigo que jogou comigo no Japão, precisou de um volante para atuar no Botafogo-SP. Perguntou se não conhecia algum, e indiquei o Hudson. Já tinha falado dele, então o Wagner apostou, o Hudson arrebentou e hoje está no São Paulo", concluiu o treinador.