Na Suécia, Lugano se recupera, 'anda' com índios escandinavos, toca tambor com uruguaios e sonha com o São Paulo

Fonte ESPN
Há quase um ano, Diego Lugano vivia um dos momentos mais difíceis de sua vida. Com dores no joelho esquerdo, não conseguiu ajudar a seleção uruguaia na Copa do Mundo, sendo desfalque no time de Oscar Tabarez depois da primeira partida.
Foi nos primeiros dias de junho do ano passado que o drama começou. Mesmo assim fez questão de tentar ajudar seu país, entrando em campo na estreia do Mundial no Brasil com uma fratura. Não aguentou, porém.
Doze meses depois, o jogador se vê inteiro novamente.
Para isso, Lugano se isolou em uma cidade que tem cerca de 500 mil habitantes, a mais de 10 mil quilômetros de distância do Brasil, no norte da Europa, sul da Suécia.
"Vim à Suécia porque já havia terminado minha recuperação [no joelho esquerdo]. Eu precisava provar pra mim mesmo que estava recuperado. Procurei um mercado onde o campeonato estivesse começando e não acabando. Acima de tudo queria um lugar onde eu pudesse pensar e cuidar só de mim 24 horas por dia. Sem exercer a função de líder, algo que tem muito a ver com a minha forma de ser, muito intenso", afirmou Lugano, em entrevista ao ESPN.com.br.
"No aspecto físico, depois de sete meses sem jogar, me sinto até melhor do que eu imaginava. Mas como disse ainda no Uruguai, decidi não usar este período como enfermaria, por respeito aos clubes e a minha trajetória. Tecnicamente, a questão do tempo de bola, do ritmo, eu estou melhorando com as partidas. Agora posso dizer que já me sinto bem", completou.
Defendendo o Häcken, de Gotemburgo, o zagueiro conseguiu fazer da sua equipe uma das menos vazadas do campeonato. Foram nove jogos no país de Zlatan Ibrahimovic, apenas oito gols tomados enquanto esteve em campo.
O Häcken é o segundo time de Gotemburgo. Não está entre os grandes, mas na última década caracterizou-se por ser muito organizado, por ter ter uma boa categoria de base. Tem uma estrutura excelente e briga sempre na parte de cima da tabela.
Apesar do isolamento, Diego não esteve sozinho em nem um minuto. Desde que chegou, a comunidade uruguaia o recebeu com carinho, fazendo festa desde o aeroporto e acompanhando os jogos.
"A Suécia, junto com a Australia e o Canadá, tem uma colônia de compatriotas muito grande no exterior, mesmo assim fiquei surpreso quando cheguei e vi mais de 100 uruguaios me esperando com seus tambores, por puro agradecimento, e falando obrigado para mim. Fazendo me perceber que nunca estaria sozinho", contou.
"Mesmo nos momentos duros. Uma das coisas mais lindas que aconteceram comigo: quando você começa a tomar consciência de que deixou um legado, uma marca em pessoas que você nunca imaginou. E, claro, que não se trata somente de resultados esportivos. Existe toda uma historia linda da nossa geração, muito rica, que não há como dizer em poucas palavras".
No tempo livre, aliás, se junta aos compatriotas, para batucar [como na foto], ao ritmo uruguaio do candombe. Aproveita ainda para conhecer a cultura.
Feliz de se ver recuperado da lesão e afastado das grandes metrópoles, o atleta de 34 anos tem aproveitado o máximo possível para tratar com cuidado do corpo e da mente.
"Eu fui visitar uma tribo de indígenas escandinavos. Eles moram no norte e eles mantém a cultura deles, de nômades. Fui visitar com uns amigos aqui. Foi uma experiência bem legal. Eu sempre procuro fazer alguma coisa típica e cultural no lugar onde eu estou vivendo", disse.
"Conheço bastante os países nórdicos, foi uma das razões para vir e aprender. Sua qualidade de vida, sua justiça, e igualdade social... Está entre os cinco melhores do mundo. Estou aprendendo muita coisa. Sem dizer da natureza, que é incrível. É uma das coisas que o futebol te dá, conhecer outros países e outras culturas. Eu procuro sempre conversar com meus companheiros, saber como eles vivem, saber os segredos daqui. Aproveito para curtir a paisagem também".
Mesmo tão longe, o jogador mantém seu sonho vivo: o de encerrar a carreira no São Paulo, onde atuou entre 2003 e 2006 e é ídolo da torcida.

Nem a triste notícia da sua não convocação para a Copa América, o tirou a determinação de seguir jogando bem para, quem sabe, em breve, voltar a despertar interesse no Morumbi.
"Depois que eu machuquei eu só fui para o São Paulo para me recuperar. O São Paulo e eu sabíamos que o tratamento seria longo, a gente não tinha certeza de como eu ia me recuperar. Mas foi por isso que não falamos sobre nada. Agora já é outra história, estou jogando em nível competitivo, e eu estou jogando bem".
"Eu gostaria e acho que mereço acabar minha carreira desse jeito, com boa saúde, desfrutando do futebol. Todo dia tem torcedor me pedindo pra voltar. Hoje por hoje, a única coisa que passa na minha cabeça é jogar aqui e jogar bem e não me contundir de novo. Eu continuo com meu sonho de encerrar minha carreira lá. Torcedor também pede toda hora. Ainda depende de muita coisa. preciso mostrar pra mim mesmo que ganhei essa batalha que me tirou da Copa do Mundo".
Apesar de ter ficado fora da lista do torneio que acontecerá no Chile nesse mês, Lugano diz que ficou feliz por ter tido seu nome colocado por Tabarez como possível convocação para as eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia. Maestro ainda disse que está satisfeito de vê-lo jogando com frequência na Suécia.

"Ficaria surpreso se tivesse sido convocado. Já me causou surpresa o que o maestro Tabarez declarou recentemente, me colocando como possível nome para as eliminatórias. Mas estou muito tranquilo, porque lutei e não me entreguei. E pra além da opinião do técnico, eu estive e estou como sempre à disposição".
"É disso que a vida se trata. Lutar todos os dias, não baixar a guarda. De qualquer maneira, sou consciente de que depois de dez anos como capitão é o momento para que outro companheiro assuma. Mas isso não significa que desisti da celeste, minha disposição existirá até que entendam que minha idade e momento futebolístico não suportem mais".
Acompanhando os últimos acontecimentos do São Paulo, Lugano não poupou palavras para reverenciar Rogério Ceni. O goleiro, aliás, fez campanha no Morumbi, no segundo semestre do ano passado, para trazer o companheiro uruguaio de volta.

"Um símbolo do futebol mundial com quem tive o prazer de compartilhar vestiário por quatro anos. Seus números são inatingíveis para qualquer jogador de futebol. Incrível! Merecerá o meu respeito sempre. E deve ser respeitado por todos".
"É um ganhador, um profissional, perfeccionista e apaixonado pelo futebol. É tão exigente com ele mesmo que muitas vezes não tem a dimensão do que conseguiu na carreira e do que representa", finalizou.
Confira a entrevista completa
O que te levou ao futebol sueco?

Vim à Suécia porque já havia terminado minha recuperação [no joelho esquerdo]. Ela foi longa e dura, fiz todo o tratamento sozinho. Eu precisava provar pra mim mesmo que estava recuperado. Procurei um mercado onde o campeonato estivesse começando e não acabando. Um campeonato competitivo, mas não de elite, porque não estava totalmente preparado.
Acima de tudo queria um lugar onde eu pudesse pensar e cuidar só de mim 24 horas por dia. Sem exercer a função de líder, algo que tem muito a ver com a minha forma de ser, muito intenso. Sempre passava os dias pensando nos outros. Essa foi uma das causas também da minha lesão antes da Copa do Mundo. Além disso, era a chance de aproveitar as oportunidades que o futebol te dá, de conhecer um novo belo país e sua cultura.
Como é o campeonato?
Eu já tinha referências de companheiros que jogaram aqui. O campeonato é mais físico do que técnico, bem nórdico, difícil ver um atacante dar uma pirueta ou te driblar. Mas todos buscam o tempo inteiro o contato. São jogadores de estrutura e potência muito grande. A infraestrutura dos estádios é de primeiro nível. Ponto negativo é que por causa do clima é normal jogar em campos sintéticos.
E o clube, como é?
O Häcken é o segundo time de Gotemburgo. Não está entre os grandes, mas na última década caracterizou-se por ser muito organizado, por ter ter uma boa categoria de base. Tem uma estrutura excelente e briga sempre na parte de cima da tabela.
A questão física te atrapalha? Como o joelho tem reagido?
No aspecto físico, depois de sete meses sem jogar, me sinto até melhor do que eu imaginava. Mas como disse ainda no Uruguai, decidi não usar este período como enfermaria, por respeito aos clubes e a minha trajetória. Fiz de tudo para voltar, e jogar os últimos anos como acho que mereço, desfrutando do futebol.
Tecnicamente, como está?
Tecnicamente, a questão do tempo de bola, do ritmo, eu estou melhorando com as partidas. Agora posso dizer que já me sinto bem.
Tem sido difícil viver sozinho?
A Suécia, junto com a Australia e o Canadá, tem uma colônia de compatriotas muito grande no exterior, mesmo assim fiquei surpreso quando cheguei e vi mais de 100 uruguaios me esperando com seus tambores, por puro agradecimento, e falando obrigado para mim. Fazendo me perceber que nunca estaria sozinho. Mesmo nos momentos duros.
Uma das coisas mais lindas que aconteceram comigo: quando você começa a tomar consciência de que deixou um legado, uma marca em pessoas que você nunca imaginou. E, claro, que não se trata somente de resultados esportivos. Existe toda uma historia linda da nossa geração, muito rica, que não há como dizer em poucas palavras.
Como são seus dias por aí fora do futebol?
Conheço bastante os países nórdicos, foi uma das razões para vir e aprender. Sua qualidade de vida, sua justiça, e igualdade social... Está entre os cinco melhores do mundo. Estou aprendendo muita coisa. Sem dizer da natureza, que é incrível. É uma das coisas que o futebol te dá, conhecer outros países e outras culturas. Eu procuro sempre conversar com meus companheiros, saber como eles vivem, saber os segredos daqui. Aproveito para curtir a paisagem também.
Como recebeu a confirmação de estar fora da Copa América?
Ficaria surpreso se tivesse sido convocado. Já me causou surpresa o que o maestro Tabarez declarou recentemente, me colocando como possível nome para as eliminatórias. Mas estou muito tranquilo, porque lutei e não me entreguei. E pra além da opinião do técnico, eu estive e estou como sempre à disposição. É disso que a vida se trata. Lutar todos os dias, não baixar a guarda.
De qualquer maneira, sou consciente de que depois de dez anos como capitão é o momento para que outro companheiro assuma. Mas isso não significa que desisti da celeste, minha disposição existirá até que entendam que minha idade e momento futebolístico não suportem mais.
Sua ideia é ficar aí até quando?
Não sei o que vou fazer depois de junho. Aqui já estão tentando me convencer a ficar, mas a ideia em principio era vir, pegar força, confiança, ganhar esta batalha de mim mesmo e ver como me decido no futuro. Vamos ver.
E o São Paulo?
Depois que eu machuquei eu só fui para o São Paulo para me recuperar. O São Paulo e eu sabíamos que o tratamento seria longo, a gente não tinha certeza de como eu ia me recuperar. Mas foi por isso que não falamos sobre nada. Agora já é outra história, estou jogando em nível competitivo, e eu estou jogando bem.
Eu gostaria e acho que mereço acabar minha carreira desse jeito, com boa saúde, desfrutando do futebol. Todo dia tem torcedor me pedindo pra voltar. Hoje por hoje, a única coisa que passa na minha cabeça é jogar aqui e jogar bem e não me contundir de novo. Eu continuo com meu sonho de encerrar minha carreira lá. Torcedor também pede toda hora. Ainda depende de muita coisa. preciso mostrar pra mim mesmo que ganhei essa batalha que me tirou da Copa do Mundo.
E o Diego Aguirre, como você tem visto ele?
Não me surpreende seu sucesso no Internacional. Tem grande capacidade. Quase ninguém sabe, mas foi ele o responsável, por meio de uma indicação, por eu ter jogado no São Paulo.
O que tem achado do futebol nos EUA? Te atrai?
Eu conheço e vejo o futebol nos EUA. Mas não me chama atenção mais do que os outros lugares. Eu não tenho preferência. Eu quero desfrutar do futebol, me sentir bem e jogar. Só penso nisso.
O que você viu de diferente na Suécia?
Tem uma coisa que eles fazem de diferente, é um trabalho para o cérebro. Para ativar um setor do cérebro que ajuda a tomar decisão rápida. Primeira vez que eu vi isso. Muito legal.
E fora do futebol?
Eu fui visitar uma tribo de indígenas escandinavos. Eles moram no norte e eles mantém a cultura deles, de nômades. Fui visitar com uns amigos aqui. Foi uma experiência bem legal. Eu sempre procuro fazer alguma coisa típica e cultural no lugar onde eu estou vivendo.
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