Investidores estão proibidos de contratar jogadores de futebol

Veto começa a valer nesta sexta-feira e vai afetar clubes brasileiros

Fonte Estadão
Paulo Henrique Ganso chegou ao São Paulo com a ajuda de investidores, algo comum no Brasil
A proibição da participação de fundos, investidores e empresas em contratos de jogadores, medida tomada pela Fifa no fim do ano passado, começa a valer a partir desta sexta-feira. A lei promete mexer com o mercado internacional e afetar clubes brasileiros. Pelo mundo, a medida vai afetar contratos avaliados em mais de R$ 3 bilhões e fundos de investimentos já mergulham na busca de um novo modelo para continuar a aplicar no futebol.
Nos últimos anos, foi o dinheiro aplicado por investidores que permitiu salários elevados nos clubes brasileiros. Diante das dívidas dos times, esse mecanismo foi o que garantiu que os atletas fossem mantidos nos campos brasileiros.
Mas, segundo a Fifa, esse sistema havia retirado do clube o controle sobre seu elenco. A medida foi adotada agora para "proteger a integridade do jogo e dos jogadores, e a independência dos clubes ao tomar a decisão sobre quem recrutar e sobre quem transferir''.
Contratos existentes poderão continuar a vigorar, mas não serão renovados. Aqueles que foram fechados entre 1 de janeiro de 2015 e 30 de abril terão a validade de apenas um ano. Mas nenhum outro contrato poderá existir.
O risco, segundo fontes dentro do setor, é de que clubes pequenos do interior do Brasil passem a ser "alugados'' por fundos de investimentos para permitir a manutenção do esquema. No lugar de uma empresa de fato ser a proprietária de um jogador, ela o camuflaria com a assinatura e a estrutura de um time.
O debate começou em 2007, quando o empresário Kia Joorabchian criou uma polêmica internacional nas transferências de Carlitos Tevez e Javier Mascherano do Corinthians para o West Ham. Desde então, o clube inglês soma multas de 27 milhões de euros e o caso levou a Uefa a colocar como um de seus objetivos a erradicação de empresas que controlem jogadores no lugar de clubes.
A CBF tentou convencer os demais dirigentes da Fifa a optar por uma regulamentação, e não a erradicação do sistema. Mas apenas conseguiu o apoio dos votos sul-americanos. No final de 2014, a Europa reuniu votos suficientes que permitiram a aprovação da medida.
A Uefa alegava para o risco que esse sistema representa ao futebol, que incluiria o controle de clubes por investidores em busca de lucros e a perda de poder do jogador em transações. Para aqueles que defendem as medidas, a Europa pode propor o fim do sistema porque justamente conta com a indústria do futebol mais desenvolvida do mundo, além de outras fontes como investidores árabes e russos, que compram times inteiros.
A realidade é que, a partir de agora, dezenas de contratos de jogadores brasileiros poderão ser afetados e principalmente a capacidade de clubes de manter seus elencos. Neymar, por exemplo, apenas ficou no Santos por mais tempo do que se estimava graças aos investidores. Ganso, no São Paulo, também vive situação parecida. Para a CBF, o que pode estar em jogo é a sobrevivência financeira de clubes no Brasil. Elencos como o do Corinthians, Inter ou Botafogo estariam entre os mais afetados. Segundo a Bichara e Motta Advogados, 80% dos elencos da primeira divisão nacional hoje vivem sob esse regime.
Processo
Mas não é só no Brasil que a medida promete causar estragos. Espanha e Portugal entraram com um processo legal contra a Fifa nos órgãos da Comissão Europeia diante da constatação que dezenas de seus jogadores apenas conseguem ser pagos graças aos investidores.
O fundo Doyen Sports, que já investiu 80 milhões de euros em jogadores desde 2011, entrou com um processo numa corte de Paris no esforço de acabar com a decisão da Fifa. A audiência está marcada para o fim de maio.
Parte da iniciativa veio dos próprios clubes que, diante da recessão na Europa, saíram ao mercado oferecendo parcelas de seus jogadores a investidores, como forma de ajudar a pagar os altos salários do craques e também como forma de captar recursos.
Clubes como o Twente, da Holanda, deixaram claro que precisam desse tipo de investidor depois que bancos fecharam as torneiras ao futebol. Entre os jogadores vendidos pelo clube aos fundos está Luc Castaignos e, em março, o time perdeu três pontos no campeonato local por não conseguir reduzir sua dívida.
Números da KPMG revelaram que mais de 1,1 mil jogadores na Europa são de propriedade de grupos financeiros, e não de clubes. Outra constatação é a concentração do poder do futebol nas mãos de poucos agentes, num processo de "oligopolização'' do esporte.
Juntos, esses investidores poderiam formar cerca de 50 times completos de futebol, com titulares e reservas. No total, mais de US$ 1,2 bilhão (R$ 3 bilhões) estão investidos nesses jogadores. Segundo a KPMG, esses jogadores não são propriedade de seus clubes e também não detêm de forma integral seus direitos econômicos. Muitos deles são de propriedade de fundos que aplicam em jogadores, da mesma forma que poderiam ir à bolsa aplicar em açúcar ou minérios.
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