Rogério Ceni declara seu amor ao São Paulo em entrevista à site argentino

O M1TO também falou sobre as chances do São Paulo na Libertadores, os seus segredos e como vive os últimos momentos de sua carreira

Fonte Pasion Libertadores
Foto: Passion Libertadores / Mauro Alfier
Prestes a parar, Rogério Ceni deu uma longa entrevista ao site Pasion Libertadores, para falar muito sobre o torneio e sua relação com o São Paulo. No papo, o goleiro enche a bola do clube e revela toda sua paixão pela "sua segunda casa".
Vale a pena LER e OBSERVAR as palavras do M1TO e perceber o quanto a mídia brasileira cria títulos e matérias TENDENCIOSAS contra o São Paulo. Dessa entrevista uma matéria foi publicada de forma distorcida, provocando a ira de alguns leitores que não perceberam a intenção do veículo de notícias.
CONFIRA A ENTREVISTA DO ROGÉRIO M1T0 CENI:

Como está vivendo seus últimos momentos como futebolista?
Bem. Trato de aproveitá-los o máximo, mas não posso deixar de me preocupar, porque a equipe não está jogando como esperávamos. Eu acredito que a partida contra o San Lorenzo aqui era a prova chave para nós, mas não soubemos resolvê-lo. De qualquer forma, esperamos nos classificar para as oitavas de final e começar esse novo torneio que tanto gostamos de jogar. O mata-mata é outra coisa e aí tudo muda.
O que o São Paulo tem que fazer para ser um candidato?
Tem que ter consistência. As linhas não podem estar tão separadas. Hoje, não somos compactos e estamos atrás de equipes que nos superam taticamente. O melhor nosso são os talentos individuais. Mas os talentos individuais ganham uma partida, mas não um campeonato de 14 rodadas, principalmente nos cruzamentos de ida e volta. Eu acredito que temos que melhorar muito para competir com outros candidatos. Mas muitas equipes gostariam de ter em seu elenco Ganso, Luís Fabiano, Michel Bastos, Alan Kardec, que são jogadores que ganham partidas. Insisto que o coletivo te leva mais longe do que o individual.
Qual o nível da Libertadores neste ano?
Existem várias boas equipes, muitos campeões da Libertadores e com muita história. Os argentinos estão muito bem. O Boca está sólido, o Racing também começou bem, o River é a surpresa negativa, porque em minha opinião tinha um grupo mais tranquilo e se complicou contra Juan Aurich e San José. O San Lorenzo é um rival muito duro e briga com a gente pelo segundo lugar do grupo que tem o Corinthians em uma escala acima do resto. Além deles, sempre aparece um colombiano, um chileno. Mas será muito equilibrada e nas oitavas de final haverá partidas bastante equilibradas. Para mim, serão muitos confrontos entre candidatos ao título desde cedo.
Acredita que pode haver uma surpresa?
O Emelec está muito bem. No ano passado, jogamos contra eles nas quartas de final da Sul-Americana e, depois de ganharmos no Brasil, tivemos muito trabalho na partida da casa deles. A torcida pressiona muito e sofremos. Eles estão tão bem que foram bicampeões em seu país e são a base de uma seleção equatoriana forte, com o técnico (Gustavo Quinteros) incluído.
No ano passado, foi a Libertadores dos sem história. Acredita que esta será a dos grandes?
Com certeza. Pelo que falamos antes. Acredito que esta Libertadores se parece muito a dos anos 1990, quando se classificavam menos times e todos eram candidatos ao título. No ano passado, foi uma exceção à regra e neste torneio chegarão à final os grandes do futebol sul-americano.
Quão diferentes são as Libertadores de hoje na comparação com as dos anos 1990?
Fiquei no banco em 1993 e 94, num período lindo, porque ganhávamos sempre. Minha primeira partida foi em 2004. Neste período, os campos melhoraram, a organização também, ainda que não dê para comparar com a Europa. A maior mudança foi que houve uma maior valorização por parte dos times brasileiros pelo torneio desde que o São Paulo ganhou duas vezes seguidas (1992 e 93). Houve um crescimento muito importante do Brasil e, por ser o maior país da América Latina, valorizou a Libertadores.
É impossível que se repitam as dinastias de décadas passadas?
Acredito que a última grande dinastia será do Boca nos primeiros anos de 2000. O exemplo mais claro é que os clubes brasileiros, que tinham muito mais estrutura que o resto, não conseguem ser bicampeões há 20 anos e não chegaram às semifinais no ano passado. A Libertadores passada foi ganha pelo San Lorenzo, que tem tradição na Argentina, mas que nunca havia sido campeão, contra um Nacional do Paraguai, que foi uma verdadeira surpresa. Me parece que vai existir uma variação muito maior dos campeões.

Qual foi a partida que mais lhe marcou?
Foi em 2004, depois de dez anos sem o São Paulo na Libertadores, contra o Rosario Central. Eram as oitavas de final e jogamos em um Morumbi lotado de gente. A decisão foi para os pênaltis e perdíamos até a última penalidade. Eu bati o quinto pênalti e tive que defender o deles para chegar à série alternada. Aí, fizemos o gol e eu peguei o sexto pênalti do Central e o estádio explodiu como nunca. Foi o mais emocionante jogo e me marcou mais do que a final que ganhamos do Atlético-PR um ano depois.
E qual o estádio mais duro em que jogou?
Todos esperam que eu diga Boca ou River, mas para mim não é assim. É um espetáculo jogar lá, porque os campos são bons e dá para jogar bem. No caso do Monumental, é parecido ao Morumbi, por causa da pista de atletismo que separa o campo das arquibancadas. Na Bombonera, há muito mais pressão da torcida. Eu gostou muito de jogar em Rosario e acredito que os torcedores desta cidade são mais fanáticos. Tanto contra o Newell’s, na final de 1992, quando perdemos em Rosário, como contra o Central em 2004.
Continua tendo a adrenalina que faz dar frio na barriga antes de uma partida? Ou a experiência mata a ansiedade?
Eu fico tranquilo, porque a partida é vivida durante os 90 minutos. Você aprende com o passar do tempo, porque quando era jovem, me colocava a imaginar a partida muito tempo antes e isso terminava prejudicando. Antes, é preciso descansar, porque vem pela frente um grande combate com cada partida. Hoje, eu vivo mais tranquilo, mas quando entro em campo, tudo se transforma e sinto o mesmo de quando tinha acabado de começar.
Como se prepara mentalmente para partida com teus 42 anos?
Eu me preparo dia a dia. Não acho que uma partida especial para a partida te faça mudar muito do que fez nos treinos. A preparação é diária. Não se pode jogar mais em um dia de partida do que na média de todos os dias que você treina com seus companheiros. Não existe uma equipe que faz algo durante muito tempo e que, quando precisa de um resultado em uma partida específica, vá conseguir fazer algo 180º diferente para mudar tudo o que vinha fazendo. É impossível. Os jogadores e as equipes têm um nível médio e podem agregar um pouco mais de garra, raça, mas não creio que a necessidade mudo o rendimento. Sinto todas as equipes precisando ganhar suas partidas. Por isso, o São Paulo vive um momento de muitos altos e baixos.
Por que usa o 01?
Foi uma jogada de marketing do clube que dizia: ‘não temos número 10, mas temos o 01’.
Por que decidiu continuar jogando?
Porque eu gosto do futebol. Eu adoro jogar. Me encanta jogar com a camisa do São Paulo, a equipe da qual sou torcedor apaixonado. Pela grande oportunidade de jogar uma última Libertadores. Sem dúvida, o que mais me motivou foi que o São Paulo iria jogar a Libertadores. Por isso, prorroguei meu contrato até 6 de agosto.
Então podemos dizer que a Libertadores marcou as decisões mais importantes da sua carreira?
Eu gosto da Libertadores porque te dá a possibilidade de jogar contra escolas diferentes de futebol do continente. Os argentinos, os uruguaios, os colombianos, entre outros. Toda a atmosfera que rodeia a partida em si não se compara com nada. Para mim, é muito valioso jogar a Libertadores. É uma experiência que vou levar para toda a vida.
Sempre fala do talento dos outros. Considera-se um talento do futebol?
Não. Eu me considero alguém que teve uma experiência muito grande e que pôde ajudar a equipe nos momentos mais complicados. Penso que por ter jogado 11 ou 12 Libertadores, quase 100 partidas, tenho o dever de passar meus conhecimentos aos mais jovens. Principalmente na parte motivacional. Eu tento em todos os momentos, antes das partidas, nos treinos, ter o nível de motivação dos jogadores no ponto mais alto. Mas depois, na partida, cada um tem que ter presente no coração, na cabeça e na alma o que é jogar uma Libertadores, porque depois, no campo, não se escuta nada e não dá nem para falar com os companheiros.

Muitos o consideram um melhor cobrador de faltas do que goleiro. Por que pensam isso e como vê a questão?
Porque o mais importante do futebol são os gols. Quando você marca gols, eles são notícia no mundo todo. Eu tenho consciência de que cada gol será notícia. Quando o Chilavert jogava, também se falava de seu talento nas faltas e não de suas habilidades como goleiro. Sempre os camisa 9 são mais importantes do que os 1, valem mais dinheiro, porque as defesas são menos importantes do que os gols. Quando você tem um goleiro que defende e também faz gols, é lógico que vira notícia. Quando ganhamos a Libertadores de 2005, atingi o melhor nível da minha carreira. Fiz cinco gols naquela edição. Foi porque estava no meu auge profissional.
De onde surgiu o Rogério batedor de faltas?
Fui há muitos anos. Em 1996, eu já estava há quatro anos na reserva do Zetti e chegava mais cedo para os treinos. Então, comecei a tentar acertar a trave, que era mais difícil do que fazer gols, e depois marcar gols. Como nenhum jogador de linha treinava, eu me senti pronto bater. O técnico que me via chutando todos os dias me deu liberdade para tentar. No terceiro ou no quarto jogo eu fiz um gol e tudo começou. Imagina o quão difícil era quando um goleiro chutar faltas em um futebol como o brasileiro, em que sobram os números 10 talentosos.
Por que o 01 e não o 1?
Não me lembro bem o ano, mas uma empresa que fazia os uniformes do clube promoveu uma campanha, porque a equipe não tinha um número 10. Foi uma jogada de marketing do clube, que dizia: ‘não temos número 10, mas não importa, porque temos o 01’. Mas não saiu da minha cabeça essa ideia.
No futebol de hoje, em que o amor pela camisa já não existe, por que não pensou em mudar? Houve um momento em que esteve perto de sair do São Paulo?
Para mim, jogar futebol é apaixonante, mas jogar no São Paulo, que é meu clube, é muito melhor do que isso. Então, eu acredito que cada ano que passava fazia com que fosse mais difícil sair. Por quê? Porque existe uma parceria muito grande com a equipe, a torcida, os dirigentes e fomos ganhando títulos, o que é muito importante. Fomos campeões do Paulista, três vezes seguida do Brasileirão, Libertadores, Mundial de Clubes e isso fez com ficasse impossível sair. Sempre me senti em casa no clube e o clube sempre fez tudo que tinha a seu alcance para que eu tivesse tudo, então, não havia motivo para sair. Foi a coisa mais importante da minha carreira ficar todo o tempo no São Paulo. Apesar de não ter ganhado o dinheiro normal de uma transferência para a Europa, mas a minha fidelidade é a maior prova do meu amor pelo clube. Acredito que no meu caso é único, vivi algo diferente da maioria dos jogadores da atualidade. Não acredito que exista outro Rogério Ceni na atualidade. Foi uma experiência de vida muito grande para mim e a cada dia agradeço por ter ficado.
Mas nunca esteve perto ou sequer analisou mudar de clube?
Quando mais jovem, quase saí. Depois que começamos a ganhar muito na década passada, a partir de 2004, eu comecei a pensar que minha carreira terminaria aqui. Mas nunca imaginei que chegaria tão longe, por tantos anos. Não passa na cabeça de ninguém jogar até os 42 anos em alto nível. Tive lesões graves no fim da carreira, mas me recuperei e pude viver essa história maravilhosa.
Três goleiros que te marcaram?
É muito injusto, porque cruzei com muitos que foram um espelho para o meu jogo. Eu te citaria entre 15 e 20 de todas as épocas. Por exemplo, na Argentina, gostava muito da maneira de jogar com os pés do Navarro Montoya, porque ele era perfeito com as duas pernas. O Zetti foi importantíssimo na minha carreira, porque foi meu maior espelho no início no São Paulo. Taffarel, que jogou três Copas. Dino Zoff, Dasaiev, Van der Saar, que em sua época foi um dos primeiros a atuar como goleiro e jogador. E tem muitos outros.
O Brasil tem bons goleiros hoje?
Os tempos vão mudando e o Brasil não está alheio a isso. O Brasil sempre foi uma escola inesgotável de talento, principalmente de atacantes. Agora, os 9 estão escassos. Antes, os melhores sistemas defensivos eram italianos e os melhores atacantes eram brasileiros. E agora, a globalização mudou tudo. Quem pensava que um venezuelano, um boliviano, um chileno, um japonês, poderia ser o jogador mais valioso de um grande europeu?
Quais teus segredos para manter-se todo o tempo?
Eu acredito sempre no trabalho como peça fundamental da minha carreira, porque não há êxito sem trabalho. E confiança. Jogar em uma grande equipe, ter grandes companheiros, a família, os amigos. É um conjunto de coisas que te levam a conquistar os objetivos. Mas nenhuma dessas coisas é tão poderosa como acreditar nos sonhos, em você mesmo.
Se tivesse que definir a Libertadores na sua vida, o que diria?
Que é o torneio mais especial que eu participei. Ganhei sendo reserva, ganhei jogando, perdi uma final no banco e outra jogando... O ambiente é extraordinário e posso dizer que foi o torneio que mais me diverti, mas também foi o que mais me fez sofrer.

O Rogério foi...
Difícil definir sua própria carreira. Eu digo que o Rogério Ceni foi uma pessoa que sempre tentou fazer o melhor. Que trabalhou muito para chegar aonde está. Que ganhou, perdeu, mas o mais importante é que pude viver uma história de amor tão extensa com o São Paulo e agradeço a Deus por ter vivido tudo isso.
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