Lúcio em seu edifício luxuoso no bairro de Perdizes, em São Paulo (Nelson Coelho/Diário SP)
Ele já ganhou uma Copa do Mundo com a seleção, foi campeão mundial pela Inter de Milão, acabou eleito duas vezes o melhor jogador da Alemanha… Depois de faturar tudo no exterior, o zagueiro Lúcio está penando desde que voltou ao futebol brasileiro, há dois anos. Agora, por exemplo, está impedido pelo Palmeiras de treinar com os companheiros, apesar de ter contrato até dezembro. Na passagem pelo São Paulo, trabalhou seis meses separado do elenco. E pior: ainda não recebeu tudo o que tem direito, o que o levou a processar o Tricolor. Nesta entrevista exclusiva, o capitão da seleção na Copa de 2010 admite o arrependimento pelo retorno ao Brasil, detona Paulo Autuori, não duvida que Rogério Ceni o boicotou, critica a seleção de Felipão, lamenta o choro de Thiago Silva…
BLOG_ Você não aparece no Palmeiras desde janeiro, mas continua ganhando salário. Deixar o clube foi um pedido seu?
LÚCIO - Não, foi uma decisão do Palmeiras. Eu estava no aeroporto de Brasília, vindo para São Paulo em 6 de janeiro, quando meu empresário ligou para falar que o clube não queria que eu me apresentasse. Não tive escolha.
Deram qual explicação?
Ninguém nunca falou comigo. Nem o presidente Paulo Nobre nem o Alexandre Mattos. Sigo até hoje sem uma explicação.
Em janeiro, o Palmeiras divulgou que o contrato seria rescindido. Isso foi discutido?
Estamos discutindo até hoje, mas eles não foram legais comigo. Como vou arranjar clube na metade de janeiro? Se tivessem jogado limpo e falassem que eu não estava nos planos em dezembro, daria para me preparar melhor, procurar um time… Eu toparia entrar em acordo e até abriria mão de uma parte. Mas agora…
Você está ganhando R$ 200 mil para ficar em casa?
É mais do que isso, mas não falarei quanto. E é bom esclarecer: continuo morando em São Paulo, não em Brasília, como falaram. Treino todo dia na academia, seguindo uma programação que um preparador físico me passou, e fico os fins de semana em Brasília, onde jogo bola com uns amigos.
Se o Oswaldo de Oliveira pedisse, você voltaria a jogar no Palmeiras?
Não tenho mais desejo algum. Passei as férias inteiras treinando, porque queria voltar bem, e foi um balde de água fria quando ligaram para avisar que não me queriam mais.
Qual avaliação faz de sua passagem no Palmeiras?
O Paulistão do ano passado foi bom, com uma campanha forte. Eu até fui eleito um dos melhores zagueiros do campeonato, apesar da eliminação para o Ituano (na semifinal). Depois que o Gilson Kleina saiu, as coisas ficaram mais complicadas. Cheguei a jogar umas seis partidas com distensão muscular na coxa e tirava 15 ml de sangue do músculo por semana para estar em campo. Eu me sacrifiquei e depois…
Pensa em se aposentar?
Não. Vai demorar para eu parar. Estou treinando tão forte quanto na época em que jogava na Europa, com o mesmo peso.
É verdade que você quase foi para a China em janeiro?
Mentira. Eu só iria para lá se fosse uma coisa extraordinária no aspecto financeiro. Nestes três meses, tive várias propostas, de EUA, Alemanha, Itália… Clubes menores, é verdade. Mas da China, não!
Como recebe as críticas de que está lento?
Principalmente no Brasil, o cara é bom se o time ganha e péssimo se o time perde. Esse papo surgiu por causa dos meus três últimos jogos do ano passado, mas as pessoas só veem os 90 minutos. Esquecem-se, por exemplo, de que eu estava voltando de contusão.
O Palmeiras está pagando seu salário em dia?
Direitinho. Não tenho nada a reclamar deles nesta questão. Deles, não.
E do São Paulo?
O São Paulo ainda não me pagou e já faz quase um ano e meio que saí de lá.
O que o clube lhe deve?
Não vou falar quanto, mas ficaram me devendo parte do salário da época em que eu treinei em separado e o valor do acordo que fiz para sair.
E você não cobra?
Eu não, mas meu representante, sim. Já fizemos três acordos, mas eles começam a pagar e param. Com o São Paulo, não tem mais acordo. Agora é na Justiça. Faz nove meses que não pagam nada. E, quando me afastaram, disse que poderiam me pôr para treinar no horário que fosse, às 6h da manhã, às 20h, mas que cumprissem a parte deles e pagassem.
Qual o pior momento da sua carreira: o atual ou os seis meses em que você treinou separado no São Paulo?
No São Paulo foi pior. É uma falta de respeito e consideração com qualquer profissional colocá-lo para treinar sozinho. Se não conta com o atleta, precisa ter hombridade e caráter para conversar com o jogador. Até torcedores de outros times vinham me dizer que era uma sacanagem o que fizeram.
Arrepende-se de ter levado um preparador físico seu para o CT do São Paulo, o que motivou seu afastamento?
Essa é uma das maiores invenções. Quando o clube quer se defender, começa a inventar. O cara que o São Paulo falou que era preparador físico na verdade é meu primo, Lucas, que não tem nada a ver com futebol. Ele trabalha para mim com outras coisas. Naquele dia, ele estava me ajudando a pegar as bolas que eu chutava no gol.
Mas por que você fez um treino à parte?
Eu sempre gostei de treinar. Depois do trabalho com o time, fui para um campo reduzido lá do CT e fiquei fazendo passes longos, dando chutes… E meu primo recolhia as bolas. Aí, deram como desculpa que levei um preparador físico, que desrespeitei a hierarquia.
Quem o afastou?
Pareceu que foi o Paulo Autuori (então treinador do clube). Fui afastado por treinar um pouco a mais. Ainda pedi desculpas para ele. Semanas depois, percebi que o problema não era só com o Autuori, porque ele foi demitido e eu continuei afastado. Foi algo político.
Soube que o São Paulo deixou de ganhar 40 mil euros (R$ 130 mil) porque você não fez parte da delegação que foi jogar a Audi Cup na Alemanha?
Sim. E isso foi uma das coisas mais estúpidas que o clube poderia ter feito. Era só ter me levado.
Tem mágoa do Autuori?
Em geral, a gente aprende um pouco com cada técnico, mas ele não somou em nada.
E o Ney Franco, com quem você também brigou em um jogo contra o Arsenal de Sarandí, na Argentina?
Com ele, foi diferente. Eu disse que não entendia a modificação, porque saí quando estava 0 a 0. E não é normal um zagueiro ser substituído com esse placar. Depois, pedi perdão. Ele aceitou as desculpas e o nosso entendimento melhorou a cada dia.
Quando foi demitido, o Ney afirmou que você teve dificuldade de se firmar no clube porque o Rogério Ceni não gostava de você. Sentiu isso?
O Rogério Ceni nunca me falou nada. Mas é verdade que ele é o ídolo do São Paulo e, aí, chegou outro cara com histórico vitorioso e de liderança, como eu. Então, pode ter ocorrido em algum momento divergência de opinião. Se aconteceu (de o Rogério não gostar dele), talvez o treinador possa ter percebido e isso me atrapalhou, mas não sei.
Arrependeu-se de ter voltado ao Brasil?
Eu queria jogar aqui, porque saí muito cedo, ganhei tudo na Europa… Mas me arrependi, sim. Sabia que seria uma aventura, mas foi bem maior do que eu imaginava. No futebol, jogador é tratado igual a laranja. Vão te espremer até a última gota para tirar o caldo e, depois, jogam fora o bagaço.
Como capitão da seleção na Copa de 2010, o que achou do choro do Thiago Silva no Mundial passado?
É difícil falar da fora, porque não sei o que se passava profissional e pessoalmente. E respeito muito o Thiago Silva, mas acho que, num momento de decisão, de dificuldade, por mais que você esteja chorando por dentro, como líder não pode deixar isso transparecer, se não os outros jogadores também podem perder a confiança e se desesperar.
A diferença entre Brasil e Alemanha é mesma do placar de 7 a 1 da semifinal?
Das seleções, não, mas do futebol brasileiro para o alemão, sim. A grande maioria das pessoas que comandam o futebol por aqui não é séria, nem correta. O descrédito é total e tomei um choque muito grande quando cheguei aqui. Até o Kaká falou que sentiu essa diferença. E eu tinha propostas para continuar fora naquela época.
O Felipão foi o culpado pelo vexame contra a Alemanha?
A culpa foi generalizada. Tinha muito oba-oba e os jogadores estavam mais preocupados em aparecer, fazer propaganda… O 7 a 1 foi resultado do que se plantou durante toda a preparação para a Copa. O primeiro jogo (vitória contra a Croácia) já foi muito ruim. Depois, teve aquele enrosco com o Chile (nas oitavas de final), quando só não fomos eliminados porque a última bola do jogo bateu no travessão. Enfim, foi um desastre que culminou no 7 a 1.
Se você estivesse lá, garante que não haveria tamanha goleada?
Não posso garantir isso, só que muitas coisas e atitudes seriam diferentes. Tem que ter foco no jogo, no adversário, na responsabilidade de vestir a camisa… É preciso se esquecer do Facebook, do Instagram… Até porque dois meses de concentração não vão matar ninguém.
O futebol brasileiro está atrasado taticamente?
Com certeza. A velocidade com que se joga na Itália, na Alemanha e principalmente na Inglaterra é muito maior. Aqui, se preserva a técnica, a visão de jogo. Lá, o jogador não tem tempo sequer para parar a bola.
O zagueiro fica mais exposto no Brasil?
Depende do treinador e da tática. Mas, em geral, não há espírito coletivo na hora de marcar e sempre estoura lá atrás. No goleiro e no zagueiro.
Por que não aderiu ao Bom Senso?
Porque não estou muito por dentro. O Dida e o Juan ainda me adicionaram a um grupo de mensagens, mas a correria me impediu de entender direito. Sem contar que a política no Brasil é forte demais. Vai ser difícil mudar muita coisa.
Você é o 3º atleta com mais jogos na história da seleção, já foi campeão mundial… Ficou alguma frustração com o Felipe Melo por aquela expulsão contra a Holanda, que impediu o Brasil de brigar pelo título em 2010, quando você era o capitão?
Não foi por falta de aviso. A gente conversava sempre com ele e falava: “Felipe, calma. Não é assim, vamos nos complicar à toa”. Depois da expulsão e da eliminação, não tinha o que falar, até porque não ia mudar nada.
Houve realmente uma briga no vestiário durante o intervalo daquele jogo entre o Júlio César e o Felipe?
Não teve briga. (Longo silêncio) Teve discussão normal de jogo, como em todos os jogos têm. A intenção é sempre buscar melhorar e o intervalo é para isso: descansar e tentar corrigir os erros. O que mais frustra é que aquela seleção de 2010, para mim, era a melhor que já joguei ao lado da de 2002.
Você quase foi para o Barcelona em 2000, quando o Inter o vendeu para o Bayer Leverkusen, né?
Eu tinha feito um ótimo ano, assim como o Inter, principalmente na Copa João Havelange. Aí, em dezembro, o presidente do Leverkusen foi a Porto Alegre, nós jantamos juntos, fechamos os valores e eu assinei contrato. No outro dia, me liga o pessoal do Barcelona. Fiquei enlouquecido. O Rivaldo também ligou, porque estava lá no Barça e dizia que treinador gostou de mim. Cheguei a pensar em cancelar o contrato com o Leverkusen, mas tinha dado minha palavra. Isso não é coisa de homem. Hoje, olhando para trás, vejo que foi a melhor escolha, porque o Barcelona não dá muito espaço aos jogos e eu me adaptei muito rápido na Alemanha.
O Luis van Gaal o dispensou do Bayern de Munique em 2009 dias após o Brasil ser campeão da Copa das Confederações com gol do título seu. Ele não gosta de brasileiro?
Só treinei dois dias com ele, então o conheço pouco. Mas, pela lógica e histórico dele, não gosta. É a conclusão que chego. Ainda fui falar com ele quando voltei da seleção, ele disse que iria me olhar, mas preferi sair. Seria um zero à esquerda se continuasse.
Pepe em Portugal, Diego Costa na Espanha, Eder na Itália… Qual sua opinião sobre os brasileiros que se naturalizam para jogar em outros países?
Acho estranho, para dizer o mínimo. Você é brasileiro e vai defender outra nacionalidade que não é a sua? Respeito a opinião de cada um, o desejo de jogar Copa do Mundo, mas eu não conseguiria.
já é casado há 17 anos e está com a Dione há 20. Ela foi sua única namorada?
Namorada de compromisso sério, sim. Conheci a Dione quando eu tinha 16 anos, e ela 19. Até então, eu já tinha saído em algumas festas e só. Coisa de garoto.
Você é evangélico desde 1999. O boato de que existe o Grupo dos Evangélicos já atrapalhou?
Já falei 1..001 vezes, mas as pessoas gostam de bater nesta tecla. Nunca houve isso nem na seleção, nem nos clubes. Tenho até hoje amigos como o Juan, Dida, que nunca foram evangélicos. Caras leais, honestos, trabalhadores… se houvesse grupinho, eles não seriam amigos.
Falando em religião, ter sido descoberto pelo Internacional em um jogo no qual seu time perdeu por 7 a 0 não foi um milagre?
Com certeza. Eu estava emprestado para fazer só esse jogo pelo Guará, contrato de um mês. Eu era do Gama. Aí, tomamos sete do Internacional. Fui bem dentro do possível, porque sete gols são sete gols. Mas o Inter gostou e me propôs um contrato de um ano, por empréstimo, e foi aí que tudo começou.
Os contratos de produtividade criados pelo Palmeiras funcionam?
É uma ideia nova, que ainda requer um pouco mais de tempo, só que eu acredito que pode criar um ambiente ruim no grupo, porque muito jogador se desestabiliza com essa coisa de só receber se jogar.
Qual foi o melhor e o pior treinador com quem trabalhou?
O pior? Deixa pra lá. Já o melhor foi o José Mourinho. Ele é um cara extremamente inteligente, mexe com o psicológico, faz o jogador acreditar que pode um pouco mais, vibra com o grupo… Nem o considero anormal taticamente, só que o caráter dele com os jogadores é muito bom. Às vezes, olham e o acham arrogante, grosso. É que ele coloca a cara a bater na imprensa, com jornalista, mas com o grupo ele é totalmente fechado, procura ajudar.
‘Com o São Paulo, não tem mais acordo. Agora é na Justiça", avisa o ainda palmeirense Lúcio
Fonte Blog do Jorge Nicola
12 de Abril de 2015
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