Ídolo do São Paulo, Silas conquistou San Lorenzo até como ator de pegadinhas

Fonte Gazeta Esportiva
Atual técnico do Ceará lembra com bom humor do período em que era atleta e ator de televisão na Argentina
Um sujeito sai de sua casa em Buenos Aires e grita de forma desesperada: “A bolsa! A bolsa! A bolsa!”. À sua frente, uma senhora esconde o objeto, com medo de assalto. E o homem começa a caminhar mais rapidamente, com o telefone celular grudado à orelha, fingindo que conversa com a esposa sobre “a bolsa”.
Esse mesmo sujeito se apresenta como frentista de um posto de gasolina na capital argentina. Limpa o vidro do automóvel de um cliente e, após uma e outra piadas, acaba reconhecido. “Você parece um jogador de futebol brasileiro”, sinaliza o motorista, em um palpite certeiro.
Na metade da década de 1990, Silas conquistou tamanha idolatria no San Lorenzo que passou a ser convidado para fazer aparições em programas de televisão. O jogador revelado na geração dos “Menudos” do São Paulo – que enfrentará o time argentino na noite desta quarta-feira, no Morumbi – virou ator recorrente de pegadinhas do “Ritmo de la noche”.
“Era um programa tipo o Pânico, apresentado pelo Marcelo Tinelli, que hoje é vice-presidente do San Lorenzo. A gente se deu tão bem que se fala até hoje, principalmente por WhatsApp. Antes desse jogo contra o São Paulo, não pude deixar de desejar boa sorte para ele”, contou Silas, em entrevista para a Gazeta Esportiva.
Já com a experiência de humorista no currículo, o então meia-atacante conquistou o seu próprio espaço na grade televisiva argentina. “O ‘La gran jugada’ ficou seis anos no ar na America Sports. Eles compraram a nossa ideia, e um monte de gente apareceu para patrocinar”, contou o atual técnico do Ceará, orgulhoso.
Em seu programa, Silas entrevistava atletas e outras personalidades, muitas vezes logo após entrar em campo pelo San Lorenzo. “Existia a facilidade de eu ter as portas abertas, o que não acontecia para a imprensa comum. A Seleção Brasileira esteve na Argentina, e o Zagallo me liberou para entrar no Monumental de Núñez. Com o São Paulo, a mesma coisa. No meu time, eu ia aos quartos dos jogadores, fazia entrevistas depois dos jogos. Eles davam risada”, recordou. “Mas só dava para gravar quando a gente ganhava, né?”, ponderou.

"Enganche" brasileiro virou ídolo no San Lorenzo e ganhou capa de revista após golaço sobre o River
Silas não esperava encontrar um ambiente tão favorável entre argentinos. “Que nada. Um brasileiro no meio deles? Tinha todo o receio do mundo. Achava que os adversários iriam me bater e o meu time, dar risada”, gargalhou o ex-são-paulino, que foi parar no San Lorenzo quase por acaso.
Em 1992, após defender a Seleção Brasileira em uma vitória por 3 a 1 sobre a Alemanha, em Porto Alegre, Silas foi a Buenos Aires para se despedir do time nacional diante da Argentina. Após o empate por 1 a 1, enfrentou a insistência de um amigo para experimentar o futebol do país vizinho. “Ele trabalhava no San Lorenzo e me convidou. Fiquei meio assim. Para parar de me encher, disse que tudo bem. Mas, na verdade, não queria ir. Só que o presidente deles já fez contato com o Juan Figer (empresário), que achou uma boa ideia. E eu fui.”
Silas teve a sorte de ser recepcionado pelo folclórico técnico Héctor “Bambino” Veira (também chamado carinhosamente de “Bambi” em seu país), grande ídolo do San Lorenzo que guardava boas recordações do Brasil mesmo após fracassar como meia-atacante do Corinthians entre 1976 e 1977. “Ele gostava muito dos brasileiros. Até ia para os jogos com uma camisa do Brasil por baixo da roupa, não sei se por superstição. Foi ele que falou para os jogadores me tratarem melhor do que qualquer outro ali, que eu teria as mesmas oportunidades. Foi legal. Eles me abraçaram, e a rivalidade ficou de lado”, afirmou.
A primeira oportunidade apareceu mais cedo do que Silas esperava. Ele começou a treinar em uma segunda-feira e estreou – com a camisa 10 – no domingo seguinte. Contra o Boca Juniors. “Só isso, né? Lembro que estava bem frio, que o campo era ruim. Depois de um primeiro tempo amarrado, veio uma jogada da esquerda para a direita. Recebi na área, dominei e bati: 1 a 0. Aí, pronto. Cheguei com o pé direito.”
O melhor estava por vir. Diante do River Plate, Silas carregou a bola desde o meio-campo até a entrada da área, passando por metade do time adversário, e chutou para a rede. O golaço rendeu uma capa na revista El Gráfico e até hoje é celebrado na Argentina. “Sempre fazia gols contra Boca e River.
Realmente, eu estava em um momento muito bom, talvez o melhor da minha vida”, enalteceu. A coroação definitiva veio com a conquista do Torneio Clausura de 1995, quebrando um jejum de 20 anos do San Lorenzo.

Técnico do Ceará quer exportar pão de queijo para a Argentina
Dono de uma rede de pastelarias em Campinas, sua cidade natal, Silas quer aproveitar a popularidade que tem na Argentina para expandir os seus negócios no ramo de alimentos. A ideia é exportar pão de queijo para Buenos Aires.
“Eles até fazem uns pães de queijo lá, mas, como não têm polvilho, tudo fica meio emborrachado”, criticou o especialista. “Por isso, aproveitando a minha experiência nas pastelarias, quis abrir um comércio de pão de queijo na Argentina. Já tinha visto tudo: lugar, vigilância sanitária, negociação com a Associação das Confeitarias e Restaurantes... Até consegui um frigorífico para armazenar, falei com umas fábricas no Brasil e providenciei as contratações de pessoas brasileiras casadas com argentinas para me ajudar. Não deu certo”, lamentou.
O projeto ainda não foi engavetado. “Não está morto. Ficou no forno, como a gente faz com o pão de queijo mineiro”, sorriu Silas. “E tenho certeza de que daria certo. Veja o doce de leite, que os meus amigos argentinos implicam que não é mineiro. Eles juram de pés juntos que é de lá!”, divertiu-se o ídolo do San Lorenzo.
Segundo Silas, o esquema tático de Bambino Veira foi o trunfo do sucesso. O brasileiro atuava como um “enganche”, como dizem os argentinos, em um meio-campo em formato de losango. “Era como fazia o Riquelme, que estreou contra a gente, o Galllardo, que começou naquele ano, o Tata Martino, hoje técnico da Argentina... Se fosse assim no São Paulo, eu teria feito muito mais gols”, comparou.
Silas ainda retornou ao São Paulo em 1997 depois de deixar o San Lorenzo, porém a sua segunda passagem pelo Morumbi foi mais apagada do que a primeira, entre 1985 e 1988. O que não o impediu de ficar dividido ao analisar os confrontos entre o clube brasileiro e o argentino pelo grupo 2 da atual Libertadores.
“O coração balança, né? Mas, quando a gente vira técnico, acaba virando muito imparcial. Já basta o sofrimento do nosso próprio time”, comentou, antes de se posicionar como um comentarista esportivo. “O San Lorenzo é o atual campeão, vive um momento melhor e está acostumado a esse tipo de jogo decisivo. O São Paulo me parece menos estruturado. Mas, dentro de casa, pode ser considerado favorito.”
Para Silas, o São Paulo disputará o seu “jogo do mês” diante do San Lorenzo. “Se vencer, a chance de classificação vai aumentar bem. Mas, se perder... Porque depois o São Paulo vai à Argentina, e lá é complicado, e ao Uruguai contra o Danubio. Aí, na última rodada, tem o clássico contra o Corinthians, que está virando um trauma”, alertou.
Seja como for, Silas não estará no Morumbi nem diante da televisão na noite desta quarta-feira. O técnico precisará comandar o Ceará no clássico contra o Fortaleza, pela primeira fase da Copa do Nordeste, no mesmo horário da rodada da Libertadores. “Mas vou ver a reprise de madrugada, até porque não consigo dormir. A gente fica pilhado depois dos jogos.”
O treinador do Ceará acredita que em breve estará “pilhado” também em Buenos Aires e em São Paulo. Ele já recebeu propostas para comandar o San Lorenzo, mas adiou o acerto porque ganhava bons salários no Catar na época. “E a Argentina estava mal financeiramente”, lembrou. “Também tenho certeza de que voltarei para o São Paulo. Sinto isso. Já vou fazer dez anos de carreira como treinador e, emplacando um trabalho legal, os grandes clubes já começam a te olhar de uma maneira diferente”, concluiu Silas, com um tom de voz decidido, sem fazer pegadinha.
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