[SPFC.Net] Entrevista exclusiva com Kalef João Francisco, ex-Diretor de futebol do São Paulo FC

por Cleber C.Oliveira e Vinícius Reche

Fonte SPFC.Net
Hoje conselheiro do clube, Kalef enfatiza dificuldades da profissão, ainda conhecida por poucos, e diz que não voltaria hoje ao cargo do clube com atuais dirigentes
Você muito provavelmente já ouviu falar em Diretor de Futebol e sua importância para o clube. Mas consegue dizer exatamente o que exige o cargo, qual sua real função e como é feito o trabalho? Hoje poderá conhecer um pouco sobre este mundo importante para o esporte.
Kalef João Francisco foi um dos principais diretores do São Paulo FC, trabalho recompensado pelas conquistas de duas Libertadores (92-93), dois Mundiais (92-93), um Campeonato Brasileiro (91), dois Campeonatos Paulistas (91-92) e duas Recopas (93-94). Alguns dos mais importantes. Representando talvez a melhor fase do clube na história. E seu papel como Diretor foi fundamental para construção dela, contratando jogadores importantíssimos ao clube, como Palhinha, Ronaldo Luis e Leonardo.
Algumas curiosidades tal qual o fato de quase terem vindo ao São Paulo Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos poucos sabem. Na ocasião, os cofres do clube estavam debilitados e José Eduardo Mesquita Pimenta, Presidente são paulino da época, não autorizou a compra de Ronaldo por 15 mil dólares. Tampouco que Muricy Ramalho, atual técnico do São Paulo e multicampeão em sua carreira, foi trazido por Kalef.
Jogador de futebol da muito trabalho? “Todos... é o maior corporativismo que existe. Não é na política, é no futebol.” Umas das frases de mais destaque desta entrevista.
Confira na íntegra:
Cleber: Das características de um diretor de futebol, o que você considera prioritária?
Kalef:
Conhecer futebol, a linguagem dos boleiros. Um trabalho de vestiário, convívio com o jogador. Uma frase minha é jogador de futebol, se você não o almoçar, ele te janta. Quando ele pensar que vai te deixar para trás, você já o passou.
Jogador costuma dar trabalho?
Todos. Maior corporativismo que existe não é em política, é entre jogadores de futebol. Jogadores de Palmeiras e São Paulo combinavam o bicho, e nós tínhamos a maior rivalidade. A partir daí, tivemos que nos unir com o Palmeiras, eu combinava todos os pagamentos com o Gilberto Tipullo. Outro assunto, o São Paulo tinha um “cartão ponto”. E os jogadores tinham que estar dentro do Centro de Treinamento até meia noite. Os guardas anotavam os horários que eles chegavam, porque o Telê olhava esse cartão todos os dias. Quando chegavam atrasados me ligavam, e eu falava para os guardas anotarem 23h30, 23h45 que era para eles entrarem. Se não era briga com o Telê toda noite! Tínhamos que administrar as brigas do Telê. Que também não admitia forçar terceiro cartão amarelo. Os jogadores vinham falar “o Sadan (apelido de Telê entre os jogadores) não deixa, vai mandar multar”. Ele manda a multa, mas quem leva para o RH sou eu, então pode fazer que eu seguro a barra. Porque o Telê não admitia, acreditava muito no futebol limpo.
Partindo deste ponto de vista, o Diretor de Futebol fica mais ao lado do jogador que da diretoria?
Não. Fernando (Casal Del Rey) dizia assim: “com bom senso, você resolve 99% dos problemas. Se der certo, tem meu aplauso. Se der errado, tem minha cobertura”. Porque no futebol você não pode perder oportunidade. Precisa ter jogo de cintura e pensar no clube como um todo. Mas nós demos a sorte de ter no São Paulo, uma turma que não tinha vaidade.
O reflexo do time em campo, passa pelas condições dispostas pela diretoria de futebol?
Sim. Com certeza. Jogador não sabe resolver problemas. São pequenas coisas que você deve administrar dentro do grupo. E se você brigou com um, brigou com todos. Na época tínhamos dois grupos no São Paulo. Turma do Ronaldão, do Zetti e do Raí, que eram os mais velhos. E tinha o grupo do Cafú, Vitor... e essa turma precisava ser policiada. A minha casa era uma extensão do São Paulo e alguns jogadores como Cafú, Muller e Vitor estavam sempre lá. Então, tinham uma cumplicidade muito grande comigo.

Osmar Santos, Kalef João Francisco e Milton Camargo durante o programa "Na Geral"
A diretoria de Futebol tem que blindar o grupo. As notícias não podem vazar. Eu nominava as pessoas que podiam entrar no vestiário antes do jogo, porque eu era o bravo da turma. A Globo me chamava de Dom Kalefone. Eu não autorizava jogador a dar entrevista antes de final de campeonato, para sair no dia seguinte já antecipado como campeão. Se fizesse isso, estava fora.
E ainda existe o processo de fritura dos jogadores em relação ao técnico. Existem trabalhos dentro do clube que precisam ser exercidos pelo Diretor de Futebol, se não o técnico pode passar por esse processo. E é capaz de se queimar em outros clubes, que é o tal do corporativismo que disse á pouco. Termina o jogo, a torcida está brigando e os jogadores estão jantando juntos.
Na sua época, o diretor centralizava tudo relacionado ao elenco tal qual logística e marketing, por exemplo. Hoje, com a descentralização, você acredita que atrapalha um pouco o trabalho do diretor?
Não atrapalha. Mas não pode fazer departamentos distantes, tem que existir a válvula de comunicação.
Não existia nenhum destes departamentos?
Não, na minha época nós tomávamos as iniciativas. Éramos sete diretores (de futebol), e se fizesse um acobertava o outro. Tinham as funções específicas. O Fernando era diretor. Quem mandava no financeiro era Ademir Scarpim, eu e o Márcio (Aranha) cuidávamos da parte de contratação de jogadores e o Jorge Magalhães cuidava do fardamento. O (Roberto) Dias cuidava de todo Centro de Treinamento. Quércia era o sargentão que não deixava entrar empresário.
Como eram feitas as contratações?
Eu diria que é oportunidade, não pode deixar passar. Ronaldo Fenômeno era para ter ido ao São Paulo por 15 mil dólares. Tenho até hoje o fax que mandei para o (José Eduardo Mesquita) Pimenta - Presidente do SPFC na época – que a recusou por ser uma pretensão excessiva. Nós não tínhamos muito dinheiro, então não podíamos arriscar. Por conta disso, eu recebi ameaça de morte inclusive. Sumiram com o dinheiro do Cruzeiro, e como saiu na imprensa que eu não quis o jogador, vieram atrás de mim. Com a venda para o São Paulo, teriam recebido.
E a busca por jogadores através de olheiros, como funcionava?
Nós tínhamos olheiros em todo Brasil. Eu vivia assistindo futebol, recebia muitas fitas cassetes para conhecer os jogadores. Eu conhecia muitos. Quando eu trouxe o Palhinha, ninguém conhecia. Ninguém! Ele veio do América de BH. E eu conhecia.
Como se contrata um olheiro? Qual critério? E como funcionava a remuneração a eles?
Indicação. Precisa ter a confiabilidade. Tinha que vir de indicação e deveria entender de futebol. Então, o contato não era conosco, era mais com o Moracir Sant'anna. Foi um dos melhores caras do futebol que eu conheci, e ainda mantenho amizade com ele. Como a empresa que eu trabalhava tinha filial em várias partes do país, o pessoal me indicava vários jogadores. Mas o Moracir foi peça fundamental.
Você gratifica os caras. Não me lembro dos valores, mas dávamos alguma coisa. Mas muitos não queriam nada, pelo simples fato de torcer pelo time.
E a questão de Dopping, como funcionava na época?
Quem instituiu fomos nós. E o Farah (Eduardo José Farah, Presidente da Federação Paulista de Futebol) dizia que não tinha condição técnica de fazer. Então o que nós fizemos foi comprar um aparelho, e ceder para USP poder fazer os exames. O São Paulo comprou.
Você voltaria a gerir o futebol do São Paulo com Carlos Miguel Aidar?
Não. A menos que convençam Marcio Aranha e Fernando Casal Del Rey (também Diretores de futebol no mesmo período). Convença os dois e eu venho. Com esses que estão ai, não. E isso daí seria um negócio para levantar o São Paulo com condições, porque eu sei que iria ganhar. Teríamos uma equipe sem vaidade que trabalharia para o São Paulo vencer.
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