Nesta quarta-feira, o São Paulo enfrenta o Emelec, no Equador, e encontra um velho conhecido: o árbitro Enrique Osses. A última vez em que os tricolores cruzaram com o chileno foi em 12 de dezembro de 2012, na final da Copa Sul-Americana, contra o Tigre. Na ocasião, houve confusão no intervalo, e os atletas da equipe argentina nem voltaram dos vestiários. Coube ao juiz, então, encerrar a partida com apenas 45 minutos, dando o título à equipe do Morumbi, que vencia por 2 a 0 até a interrupção.
Quase dois anos depois, Osses ainda se recorda com amargura daquele jogo.
"Essa partida foi uma vergonha para o futebol sul-americano. Uma final de um torneio continental, vista no mundo todo, e que terminou da forma como terminou... É uma vergonha!", disparou o árbitro, em entrevista à Rádio ESPN.
Na ocasião, os jogadores do Tigre alegaram que foram agredidos por seguranças do São Paulo e por policiais militares nos vestiários, e se recusaram a voltar ao gramado do Morumbi.
O caso nunca foi bem explicado, nem pelos clubes, nem pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol). Osses, portanto, prefere não culpar ninguém pelo episódio.
"Não gostaria de qualificar quem teve a culpa pela confusão. Foi um ato que aconteceu nos vestiários e não vi o que ocorreu. Por não ter condições de seguir a partida, eu a suspendi, que era o que eu podia fazer no momento. Para dirigir uma partida de futebol, você tem que estar preparado para o inesperado", afirmou, antes de ressaltar que espera nunca passar por essa situação novamente.
"Creio que o futebol sul-americano mostrou na Copa que é uma potência e não tem mais espaço para amadorismo. Gostaria que estas coisas nunca mais acontecessem", disse.
Dirigente do Tigre relata agressão e abuso da polícia
No entanto, o árbitro encontrará clima tenso em de Guayaquil, já que, um dia antes da partida, o São Paulo foi impedido pelo Emelec de treinar no estádio George Capwell, o que revoltou o técnico Muricy Ramalho e a delegação tricolor. O treinador chegou, inclusive, a cogitar o WO como protesto. Mais tarde, pensou melhor e disse que o time irá a campo, mas revelou temer "algo de pior" na partida.
Osses também é lembrado por ter apitado o jogo de ida da final da Libertadores de 2012, no qual Romarinho deu o empate por 1 a 1 ao Corinthians contra o Boca Juniors, em La Bombonera. O chileno diz que foi um "privilégio" ter trabalhado no jogo, mas lamenta não ter feito o duelo de volta, no Pacaembu.
"Foi um privilégio de apitar um jogo de duas das maiores torcidas de Brasil e Argentina. Foram muito bons espetáculos! Uma pena que não apitei nenhum dos duelos no Brasil para poder ver a diferença das torcidas dos times. Na Bombonera, creio que foi um dos espetáculos mais bonitos que eu já vi na minha carreira", recordou.

FERNANDO DANTAS/GAZETA PRESS
Osses durante o fatídico São Paulo x Tigre
Em 2012, ele foi premiado pela Conmebol como melhor árbitro da América do Sul.
Árbitro Fifa desde 2005, Osses foi juiz em duas partidas na última Copa do Mundo: Costa do Marfim x Japão e Costa Rica x Itália, além de ter sido quarto árbitro em Bósnia x Irã.
Árbitro foi 'descoberto' em rádio e trabalha para empresa de Jundiaí
A história de como Osses começou sua carreira de juiz é curiosa. Aos 23 anos, ele estava frustrado na faculdade de engenharia, já que queria ter sido jogador profissional, mas nunca conseguiu. Um dia, ouviu na Rádio Agricultura que haveria um curso para formação de árbitros de futebol, e a própria emissoria iria pagar aos interessados. Era sua chance de entrar para o mundo da bola.
Quem organizou o prêmio foi o jornalista Milton Millar, que até hoje se emociona por ter sido o responsável por revelar um dos melhores juízes da história do Chile.
"Estávamos entrevistando o professor da escola dos árbitros do Chile na rádio e ele estava muito triste, porque chegavam poucas pessoas para fazer o curso. Quase não havia inscrições. Eu imaginei que poderia ser também por causa de dinheiro para pagar a matrícula. Então, eu abri no programa de rádio as inscrições no programa para 20 pessoas fazerem o curso. Entre eles, chegou Enrique Osses", recordou Millar, quase 20 anos depois, em entrevista à Rádio ESPN.
"Um dia, estávamos cobrindo um jogo de primeira divisão importante e meu filho, que trabalha comigo, me disse: 'Papai, esse é o arbitro que premiamos na rádio há alguns anos!' Até então, não sabia que ele havia feito o curso", contou.
Depois de ver seu "pupilo" chegar à Copa do Mundo, o jornalista diz que poucas vezes viu o árbitro depois que ele ficou famoso. Isso, no entanto, não diminui seu orgulho.
"Nunca imaginei que o Enrique ia chegar onde chegou, é incrível! Eu o vi umas quatro vezes ao vivo, nada mais que isso. Em uma oportunidade, ele falou que eu era seu padrinho, e isso me orgulha muito. Mas tudo o que ele conquistou foi por próprio mérito", elogiou.
Hoje árbitro Fifa, Osses está realizado. No futebol sul-americano, já alcançou o patamar máximo, apitando duas finais continentais, além de inúmeros grandes jogos do futebol chileno. Por isso, já vislumbra sua aposentadoria em breve, antes mesmo de chegar aos 45 anos, idade que obriga os juízes a pendurarem o apito.
"A arbitragem demanda muito tempo e energia. Creio que irei me aposentar após a Copa América do ano que vem, no Chile, meu país natal. Depois, verei com a minha família e me dedicarei a outras atividades de formação na arbitragem", afirmou.

YASUYOSHI CHIBA/AFP/GETTY IMAGES
Osses observa jogadores do Tigre cercando Lucas
Depois que parar, Osses poderá se dedicar plenamente à sua profissão "normal", que nunca exerceu 100% desde que começou como árbitro de futebol. Curiosamente, o chileno trabalha para uma empresa brasileira, mais uma prova de sua conexão com o país.
"Sou engenheiro elétrico e trabalho para uma empresa brasileira com sede em Jundiaí [cidade do interior de São Paulo]. Sou representante de vendas no Chile. Agradeço demais ao apoio da empresa, por me darem a oportunidade de me dedicar também à arbitragem paralelamente ao meu trabalho, porque demanda muito tempo, muitas viagens", relatou, antes de encerrar.
"Sem o apoio da empresa, tudo o que eu conquistei teria sido impossível. E quero sempre agradecer à Rádio Agricultura pela oportunidade de poder chegar a uma Copa".
Veja as imagens das manchas de sangue localizadas no vestiário do Tigre