A Pesquisa da Vez: Lance/Ibope-2014 (E haja polêmica…)
Por Vinicius Paiva
Fonte Teoria dos Jogos
29 de Agosto de 2014
Desde as primeiras horas de ontem, este blogueiro se viu bombardeado por pedidos de esclarecimento, informações e análises. Logo se percebia que a tão aguardada pesquisa Lance/Ibope-2014 saíra do forno, verdadeira fagulha sobre o combustível do debate envolvendo o tamanho das torcidas. Como ultimamente quem gera mais polêmica ganha mais cliques, os institutos parecem estar caprichando.
Antes, uma ressalva: a amostra da pesquisa Lance-Ibope é de 7.005 pessoas, com margem de erro de apenas um ponto percentual. Significa ser totalmente fiel à realidade? Absolutamente não. Como o Blog Teoria dos Jogos sempre faz questão de esclarecer, pesquisas de torcida refletem – com fidelidade maior ou menor – a realidade da amostra. Por exemplo: um milhão de entrevistados em regiões metropolitanas serão um retrato fidelíssimo das torcidas nas… regiões metropolitanas. Configuração distinta do que se vê no país como um todo. Foi aí que o Ibope pareceu pecar.
Variações na margem de erro são normais e fazem com que certos ordenamentos se modifiquem de uma pesquisa para outra. Mas é bom desconfiar quando vários ordenamentos, sempre tão estáticos, se modificam em apenas uma delas. No movimento mais flagrante, o Atlético-MG simplesmente não tomou conhecimento do Cruzeiro – situação avessa à de inúmeras pesquisas no estado de Minas Gerais. Além de suplantar seu arquirrival, o Galo surge na frente de quem sempre apareceu na dianteira, casos de Grêmio e Internacional. Pela primeira vez a torcida do São Paulo demonstra queda acima da margem de erro, levando consigo um Vasco quase ultrapassado pelo próprio Atlético-MG. O Bahia iguala o Botafogo, trazendo torcedores do Vitória também à frente do Sport. Aliás, o Leão pernambucano perde até pro Atlético-PR. É muita polêmica numa só pesquisa…
Enquanto o Ibope não abrir a metodologia – principalmente citando o número de localidades e listando quais foram contempladas – nada poderá ser dito a respeito da pesquisa. Mas num primeiro momento, a impressão que fica é de um viés em direção a Belo Horizonte - onde o Atlético-MG de fato supera o Cruzeiro - e Salvador. Aparenta também uma Curitiba superdimensionada. Em direção oposta, regiões de predomínio carioca (como o Norte/Nordeste) podem ter sido visitadas fora de proporção. Para piorar, mais uma vez Pernambuco parece não ter recebido o devido peso. Tais impressões aumentam à medida com que analisamos as próximas tabelas.
TABULAÇÕES ESPECÍFICAS

Os arranjos por faixa etária não aparentam maiores problemas – embora a possibilidade de viés impacte na pesquisa como um todo. Entre os mais velhos, resultado semelhante ao da pesquisa Datafolha-2014: Flamengo e Corinthians em franco equilíbrio, Santos, Internacional, Botafogo e Fluminense acima do que registram atualmente. Galo à frente do Cruzeiro e Inter batendo o Grêmio, exatamente conforme abordado por aqui anteontem.

Entre os mais novos não há base de comparação, pois os números consideram torcedores de 10 a 15 anos, enquanto o Datafolha abordou apenas eleitores – ou seja, acima dos 16. Assim, estamos diante de um cenário absolutamente novo. Apesar do intenso crescimento do Corinthians (16,9%), o Flamengo é sacramentado como preferido por quase um quarto da população futura (22,3%). O Cruzeiro possui torcida mais jovem que o Atlético (4,1% a 3,9%), outro processo já verificado neste espaço. Vasco, Santos, Botafogo e Fluminense perdem posições. Daí a despencarem nos níveis expostos (abaixo de Bahia, Vitória ou Sport) já é algo que desperta incredulidade e desconfiança.
O problema mais evidente da pesquisa, contudo, surge nas tabulações por nível de renda:

Entre os mais pobres, nada a questionar – com as devidas ressalvas dos parágrafos anteriores. De certo o número de entrevistados foi robusto o suficiente para gerar a intensiva hegemonia de flamenguistas (20,8%) – o dobro do que apresenta o Corinthians (10%) e quase o quádruplo do São Paulo (5,6%). Ainda assim, chama atenção o quantitativo de adeptos do Sport (4,2%) e do Santa Cruz (4%) mediante galeras quase inexistentes de Atlético-MG, Cruzeiro, Santos e Fluminense (todos abaixo de 1%). Percebam agora o verdadeiro mau trato à informação:

A dianteira do Corinthians (17,6% a 10,9% sobre o Flamengo) até encontra eco nos números divulgados pelo Datafolha há um mês. Mas os inacreditáveis 10,1% marcados pelo Atlético-MG acendem uma luz amarela quanto à fidelidade da tabela. Isto porque, segundo o IBGE, apenas 1% da população brasileira auferia mais de 10 salários mínimos em 2010 – o equivalente, hoje, a R$ 7.240,00 mensais:

Para seguir a proporção, significaria apenas 70 pessoas sendo entrevistadas na faixa mais alta de renda (com alguma correção por estarmos em 2014). O leitor Christiano Candian matou a charada: foram 119 entrevistados. Para tanto, atribuiu ao menor percentual (0,84%, do Bahia) o número um, deduzindo o quantitativo exato de cada “torcedor rico” pesquisado:

Diante de um universo de 21 corintianos, 13 flamenguistas e 12 atleticanos, a verdade é que a análise desta faixa de renda é inócua. Sem um teto de renda mais baixo (por exemplo, “acima de 5 salários mínimos”), o Ibope teria a obrigação de dizer que a margem de erro de 119 pessoas sobre a amostra de 7.005 é superior a dez pontos percentuais. A mesma coisa que nada.

Finalmente por educação formal, o instituto muda de parâmetros, fazendo um percentual interno de pessoas com nível superior dentro de cada torcida. Trata-se de uma ótica diferente das tabelas que tem por referência o universo total de entrevistados. Modificações desta natureza só servem para confundir a cabeça do leitor médio, não sendo recomendadas no contexto de um mesmo estudo.
Pra terminar: apenas hoje, 24 horas depois da publicação original, o diário Lance veio a divulgar o percentual de pessoas sem time (23,4%). Eis um referencial imprescindível para análises de marketing esportivo, mensurando o tamanho do mercado sobre o qual os clubes precisam trabalhar. Cada vez mais as pesquisas Lance-Ibope se mostram confusas e geradoras de incertezas - sensação que se potencializa mediante a recusa em explicar a metodologia e prestar esclarecimentos.
Um grande abraço e saudações!
Antes, uma ressalva: a amostra da pesquisa Lance-Ibope é de 7.005 pessoas, com margem de erro de apenas um ponto percentual. Significa ser totalmente fiel à realidade? Absolutamente não. Como o Blog Teoria dos Jogos sempre faz questão de esclarecer, pesquisas de torcida refletem – com fidelidade maior ou menor – a realidade da amostra. Por exemplo: um milhão de entrevistados em regiões metropolitanas serão um retrato fidelíssimo das torcidas nas… regiões metropolitanas. Configuração distinta do que se vê no país como um todo. Foi aí que o Ibope pareceu pecar.
Variações na margem de erro são normais e fazem com que certos ordenamentos se modifiquem de uma pesquisa para outra. Mas é bom desconfiar quando vários ordenamentos, sempre tão estáticos, se modificam em apenas uma delas. No movimento mais flagrante, o Atlético-MG simplesmente não tomou conhecimento do Cruzeiro – situação avessa à de inúmeras pesquisas no estado de Minas Gerais. Além de suplantar seu arquirrival, o Galo surge na frente de quem sempre apareceu na dianteira, casos de Grêmio e Internacional. Pela primeira vez a torcida do São Paulo demonstra queda acima da margem de erro, levando consigo um Vasco quase ultrapassado pelo próprio Atlético-MG. O Bahia iguala o Botafogo, trazendo torcedores do Vitória também à frente do Sport. Aliás, o Leão pernambucano perde até pro Atlético-PR. É muita polêmica numa só pesquisa…
Enquanto o Ibope não abrir a metodologia – principalmente citando o número de localidades e listando quais foram contempladas – nada poderá ser dito a respeito da pesquisa. Mas num primeiro momento, a impressão que fica é de um viés em direção a Belo Horizonte - onde o Atlético-MG de fato supera o Cruzeiro - e Salvador. Aparenta também uma Curitiba superdimensionada. Em direção oposta, regiões de predomínio carioca (como o Norte/Nordeste) podem ter sido visitadas fora de proporção. Para piorar, mais uma vez Pernambuco parece não ter recebido o devido peso. Tais impressões aumentam à medida com que analisamos as próximas tabelas.
TABULAÇÕES ESPECÍFICAS

Os arranjos por faixa etária não aparentam maiores problemas – embora a possibilidade de viés impacte na pesquisa como um todo. Entre os mais velhos, resultado semelhante ao da pesquisa Datafolha-2014: Flamengo e Corinthians em franco equilíbrio, Santos, Internacional, Botafogo e Fluminense acima do que registram atualmente. Galo à frente do Cruzeiro e Inter batendo o Grêmio, exatamente conforme abordado por aqui anteontem.

Entre os mais novos não há base de comparação, pois os números consideram torcedores de 10 a 15 anos, enquanto o Datafolha abordou apenas eleitores – ou seja, acima dos 16. Assim, estamos diante de um cenário absolutamente novo. Apesar do intenso crescimento do Corinthians (16,9%), o Flamengo é sacramentado como preferido por quase um quarto da população futura (22,3%). O Cruzeiro possui torcida mais jovem que o Atlético (4,1% a 3,9%), outro processo já verificado neste espaço. Vasco, Santos, Botafogo e Fluminense perdem posições. Daí a despencarem nos níveis expostos (abaixo de Bahia, Vitória ou Sport) já é algo que desperta incredulidade e desconfiança.
O problema mais evidente da pesquisa, contudo, surge nas tabulações por nível de renda:

Entre os mais pobres, nada a questionar – com as devidas ressalvas dos parágrafos anteriores. De certo o número de entrevistados foi robusto o suficiente para gerar a intensiva hegemonia de flamenguistas (20,8%) – o dobro do que apresenta o Corinthians (10%) e quase o quádruplo do São Paulo (5,6%). Ainda assim, chama atenção o quantitativo de adeptos do Sport (4,2%) e do Santa Cruz (4%) mediante galeras quase inexistentes de Atlético-MG, Cruzeiro, Santos e Fluminense (todos abaixo de 1%). Percebam agora o verdadeiro mau trato à informação:

A dianteira do Corinthians (17,6% a 10,9% sobre o Flamengo) até encontra eco nos números divulgados pelo Datafolha há um mês. Mas os inacreditáveis 10,1% marcados pelo Atlético-MG acendem uma luz amarela quanto à fidelidade da tabela. Isto porque, segundo o IBGE, apenas 1% da população brasileira auferia mais de 10 salários mínimos em 2010 – o equivalente, hoje, a R$ 7.240,00 mensais:

Para seguir a proporção, significaria apenas 70 pessoas sendo entrevistadas na faixa mais alta de renda (com alguma correção por estarmos em 2014). O leitor Christiano Candian matou a charada: foram 119 entrevistados. Para tanto, atribuiu ao menor percentual (0,84%, do Bahia) o número um, deduzindo o quantitativo exato de cada “torcedor rico” pesquisado:

Diante de um universo de 21 corintianos, 13 flamenguistas e 12 atleticanos, a verdade é que a análise desta faixa de renda é inócua. Sem um teto de renda mais baixo (por exemplo, “acima de 5 salários mínimos”), o Ibope teria a obrigação de dizer que a margem de erro de 119 pessoas sobre a amostra de 7.005 é superior a dez pontos percentuais. A mesma coisa que nada.

Finalmente por educação formal, o instituto muda de parâmetros, fazendo um percentual interno de pessoas com nível superior dentro de cada torcida. Trata-se de uma ótica diferente das tabelas que tem por referência o universo total de entrevistados. Modificações desta natureza só servem para confundir a cabeça do leitor médio, não sendo recomendadas no contexto de um mesmo estudo.
Pra terminar: apenas hoje, 24 horas depois da publicação original, o diário Lance veio a divulgar o percentual de pessoas sem time (23,4%). Eis um referencial imprescindível para análises de marketing esportivo, mensurando o tamanho do mercado sobre o qual os clubes precisam trabalhar. Cada vez mais as pesquisas Lance-Ibope se mostram confusas e geradoras de incertezas - sensação que se potencializa mediante a recusa em explicar a metodologia e prestar esclarecimentos.
Um grande abraço e saudações!
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